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Bolsonaro: Um filho teu, quando deve, foge à luta

A fuga de Flávio Bolsonaro revela que o Brasil escapou de um perigo muito maior do que se imaginava. E uma parcela de sua elite terá motivos de sobra para refletir sobre a própria responsabilidade.

27/10/2026
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Há ironias que a história escreve com requintes de crueldade. A Pátria, que o Hino Nacional proclama mãe gentil de filhos que não fogem à luta, acaba de assistir a uma cena que, se não fosse tão grave, seria quase uma piada: um cidadão que pretendia governar 215 milhões de brasileiros escolheu fugir do país.

Flávio Bolsonaro, que há poucos dias pedia aos eleitores a confiança necessária para conduzir os destinos da República, não encontrou coragem sequer para permanecer em território nacional e responder às instituições que pretendia comandar. Quem prometia salvar o Brasil escolheu, diante das próprias dificuldades, salvar a si mesmo.

Mas o episódio ultrapassa a dimensão pessoal de seu protagonista. É preciso reconhecer o tamanho do perigo que a democracia brasileira correu. O país esteve prestes a entregar seu comando a um cidadão que, diante da Justiça, preferiu a fuga ao esclarecimento.

A Justiça ainda apura a extensão de suas eventuais responsabilidades. As investigações devem seguir seu curso, com provas e respeito às garantias constitucionais. Mas Flávio Bolsonaro sabe, melhor do que qualquer investigador, o que fez ou deixou de fazer. Conhece seus atos, suas relações e seus negócios. E conhece, naturalmente, aquilo que ainda não veio a público.

As suspeitas já conhecidas são suficientemente perturbadoras. E nada disso autoriza antecipar uma condenação. Mas seria isso a ponta de um iceberg?

A fuga não constitui prova dos crimes investigados. É, porém, um fato gravíssimo, incompatível com a responsabilidade que se espera de quem disputou a Presidência.

Ao final da campanha, Lula afirmou ter se sentido constrangido ao debater com quem chamou de "miliciano". A expressão foi dura e não substitui provas. Mas a inquietação manifestada pelo presidente ganha, diante da fuga, outro significado. Com mais de meio século de vida pública, Lula conhece os personagens, os bastidores e as armadilhas do poder. A experiência não torna ninguém infalível, mas tampouco deve ser desprezada.

Há, entretanto, um personagem coletivo nessa história que merece atenção especial: a elite brasileira.

Fuga de Flávio Bolsonaro revela que o Brasil escapou de um perigo muito maior.Criada com inteligência artificial.

Empresários poderosos, grandes investidores, profissionais respeitados e lideranças econômicas embarcaram, mais uma vez, numa aventura política de consequências potencialmente desastrosas.

Não se trata de censurar o direito de oposição ao governo Lula, tampouco de negar legitimidade aos milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro. A democracia admite divergências e alternância de poder. O que não se compreende é a disposição de fechar os olhos aos sinais de alerta em nome de conveniências políticas ou interesses econômicos.

E olha que sinais não faltavam.

É particularmente espantoso que pessoas tão rigorosas na administração de seus negócios se tenham mostrado tão complacentes na escolha de quem pretendiam colocar à frente do país. Exigem auditoria para adquirir uma empresa, investigam antecedentes antes de admitir um sócio, submetem investimentos a minuciosos controles de risco. Mas, na hora de escolher o presidente da República, parecem dispostas a dispensar qualquer diligência.

Não faltou informação. Faltou a disposição de enxergá-la.

O Brasil já pagou um preço elevadíssimo por aventuras embaladas em promessas de redenção nacional. E quase voltou a pagar. Desta vez, não se tratava apenas de escolher um programa econômico ou uma orientação ideológica, mas de confiar a chefia do Estado, o comando das Forças Armadas e a responsabilidade pelas instituições a alguém cercado por suspeitas graves.

Flávio Bolsonaro terá direito à defesa. O país terá direito à verdade. E seus apoiadores, sobretudo aqueles que dispõem de informação, influência e poder econômico, terão diante de si uma questão de consciência.

Como foi possível chegar tão perto de entregar o destino do Brasil a alguém cuja primeira resposta a uma crise judicial foi abandonar o próprio país?

A elite brasileira precisa olhar para essa pergunta sem o conforto das desculpas habituais. Afinal, se o país quase soçobrou, não foi apenas pela ousadia de quem pretendia assumir o leme. Foi também pela irresponsabilidade de quem estava disposto a embarcar.

Eis a lição que fica: o Brasil não pode continuar dependendo da sorte para escapar de seus "salvadores".

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