Qual tem sido a orientação editorial do jornal O Estado de S. Paulo? Há preocupação do jornal em manter a imparcialidade das matérias? Não há nenhuma orientação especial do jornal para a cobertura das eleições que esteja fora da linha de atuação permanente do jornal. Não temos preocupação com aquilo que você chama parcialidade ou imparcialidade das matérias. Trabalhamos com fatos. Relatá-los é a nossa profissão. Dependendo do viés político que componha o repertório ideológico do receptor da notícia, ela poderá lhe soar como parcial ou imparcial. Medir isso está fora do nosso alcance e não está entre nossas preocupações. Nossa preocupação é com a objetividade dos fatos. De acordo com a pesquisa apresentada pelo Observatório Brasileiro de Mídia foram encontrados nos principais jornais e revistas do país, incluindo O Estado de S. Paulo, mais matérias citando Lula e a maioria delas mostrando aspectos negativos do candidato ou de seu governo. Ao mesmo tempo, a maior parte das reportagens sobre os demais candidatos era neutra. Na opinião do senhor, qual seria o motivo para essa disparidade?Não reconheço a legitimidade de nenhum estudo dessa natureza e qual é a metodologia que eles usam para chegar às conclusões mencionadas. Você diz que nos principais jornais e em O Estado de S. Paulo 'foram encontradas mais matérias citando Lula e a maioria delas mostrando aspectos negativos do candidato ou de seu governo'. Como ele é presidente da República é normal que seja mais citado e que seja alvo de maiores críticas. É o que acontece com Bush nos Estados Unidos, com Blair na Inglaterra, com Chirac na França, é o que acontecia com Berlusconi na Itália, com Schroeder na Alemanha, com Aznar na Espanha e por aí vai. É o ônus do exercício do poder. O jornal não é pró nem anti-Lula. Quem parece ser anti-Lula, no caso, são os companheiros de partido, a quem ele chamou de burros, bandidos e aloprados.
No caso específico de O Estado de S. Paulo, como tem sido feita a seleção de matérias e de espaços para cada candidato?As matérias são selecionadas e editadas de acordo com a sua importância jornalística, como de resto acontece com todas as matérias de todas as editorias do jornal. Não esqueça de que isto é um jornal e não um boletim eleitoral.
Na opinião do senhor, o que caracteriza uma cobertura eleitoral ideal? Não estou preocupado apenas com a cobertura eleitoral ideal. Estou preocupado com a cobertura jornalística ideal de qualquer evento, seja a eleição presidencial, seja o clássico da rodada, seja o acidente da estrada, seja o tsunami, seja o entrevero do papa com o Islã. Sou jornalista, não sou presidente de partido político. Por que a minha preocupação com a cobertura eleitoral teria que ser diferente de minha preocupação com qualquer cobertura jornalística na qual o jornal esteja empenhado?
O senhor acredita que os veículos de comunicação de uma maneira geral estão conseguindo ser neutros com relação à cobertura das eleições? Alguns dos veículos de comunicação que acompanho mais de perto, por gosto pessoal ou por dever de ofício, estão cumprindo rigorosamente e honestamente o seu papel na cobertura da eleição. Falo dos veículos sérios, claro. (Soraia Costa)