Publicidade
Expandir publicidade
Até o momento, as autoridades contabilizam 165 mortos e 155 desaparecidos em Brumadinho[fotografo]Corpo de Bombeiros[/fotografo]
No fim de 2015, a jornalista Cristina Serra fez seis reportagens especiais para o Fantástico, da TV Globo, sobre o rompimento da barragem do Fundão, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). Depois de passar o Natal daquele ano com vítimas da maior tragédia ambiental do país, Cristina resolveu aprofundar a investigação sobre o caso. A repórter deixou a câmara e o microfone para trás, meteu os pés na lama, mergulhou entre documentos, confrontou versões e resgatou histórias dos 19 mortos e de dezenas de famílias atingidas. Escreveu um livro, publicado em novembro.
O tom de denúncia e alerta da obra parece ter profetizado o desastre causado pelo rompimento de três barragens da Vale em Brumadinho (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte, nessa sexta-feira (25). Até o início da madrugada, o governo de Minas havia confirmado sete mortos. Pelo menos 100 pessoas haviam sido resgatadas com vida, e outras 150 eram consideradas desaparecidas.
Embora ressalte que não dispõe de elementos para comparar um caso com o outro, Cristina identifica pontos em comum entre as duas tragédias anunciadas. “A mesma fiscalização que não funcionou para Mariana não funcionou para Brumadinho. O cenário institucional é o mesmo. Não aprendemos nada com Mariana”, diz a ex-repórter da Globo ao Congresso em Foco. A falta de fiscalização e o atropelamento para a concessão de licenciamento ambiental foram dois fatores decisivos para o rompimento da barragem do Fundão, segundo a autora de Tragédia de Mariana – o maior desastre ambiental do Brasil.
Falta de fiscais
[caption id="attachment_365989" align="alignright" width="470"]Rompimento de barragem é evitável e pode ser mais grave, diz Bolsonaro
Contra-argumento Os casos de Brumadinho e Mariana, segundo Cristina, contrariam o discurso do presidente Jair Bolsonaro de que é preciso flexibilizar o processo de licenciamento ambiental, apontado por ele como um entrave ao desenvolvimento da economia do país. “Quando se fala de mudança de licenciamento, falam em apressar o licenciamento, que o Ministério Público atrapalha, que as regras são burocráticas. Espero que esse desastre sirva para que essa pauta seja analisada com menos pressa, que se levem em conta as questões de segurança.”, defende. A jornalista conta que a concessão das licenças para a barragem do Fundão, por exemplo, se deu em prazo bastante curto e ignorou uma série de exigências legais. “O processo de licença comporta três licenças, uma obtida após o cumprimento das fases anteriores. No intervalo entre duas dessas três licenças foi de dois meses. Foi absolutamente veloz”, exemplifica. Segunda chance Para ela, a discussão deve ser invertida.“Com Brumadinho, estamos tendo uma segunda chance de aprender. Essas duas oportunidades custaram muitas vidas. Foram 19 apenas em Fundão. Ainda não sabemos quantas vidas serão cobradas em Brumadinho. Não precisamos de mais mortes para aprender alguma coisa. Basta de morte. As de Mariana já deveriam ter sido suficientes”, lamenta Cristina.[caption id="attachment_233954" align="alignright" width="493"]
“Até agora não aconteceu nada. O processo criminal foi aceito em 2016, são 21 réus, mais de 400 testemunhas arroladas. Elas começaram a ser ouvidas, mas não há qualquer previsão de quando o processo vai ser julgado. É um processo gigantesco e complexo. Enquanto isso, a lama continua no fundo do rio. A grande maioria das vítimas não foi indenizada. O desastre de Mariana ainda se desdobra, e agora vem o desastre de Brumadinho”, diz a jornalista.Natural de Belém, Cristina Serra é formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Trabalhou nas redações dos jornais Resistência, Tribuna da Imprensa, Leia Livros, Jornal do Brasil, da revista Veja e da Rede Globo. Na emissora, foi repórter de política em Brasília, especial do Fantástico, correspondente em Nova York e comentarista do quadro “Meninas do Jô”, no Programa do Jô. No começo de 2018, ajudou a fundar o canal digital My News, que, em setembro, promoveu uma série de entrevistas com os presidenciáveis em parceria com o Congresso em Foco.
Impunidade e acordos lenientes, o desfecho de três tragédias