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As vísceras do machismo e as revelações de Rodrigo Janot

28/9/2019
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Rodrigo Janot confessou em entrevista à imprensa que pensou em matar o ministro Gilmar Mendes para honrar a filha
Paloma Gomes* Dormir com a confissão de Rodrigo Janot e acordar com a nota do ministro Gilmar Mendes, foi para muitos, assim como para mim, a certeza de que a política no Brasil supera qualquer abstração dos melhores roteiristas cinematográficos. > Brasil é um país estranho e isso afasta os investidores, diz Rodrigo Maia sobre Janot Um elemento que poderia ser relegado a segundo plano, entretanto, nos revela as nuances de um machismo que permeia não apenas a nossa sociedade, mas as entranhas do nosso Sistema de Justiça. É a defesa da honra de uma mulher, na condição de filha, que justificaria o assassinato e o suicídio diante dos olhos de todas as brasileiras e brasileiros no plenário do Supremo Tribunal Federal. O argumento, covarde, materializa o que ocorre cotidianamente em nossas casas e comunidades: a violência decorrente do machismo. O homem, sob o escopo de defender essa mulher, que se deduz, não ter condições de se defender sozinha ou que depende de um homem para defender a si, se sente no direito de cometer diversas atrocidades. Se a honra da mulher, neste caso, se tornou a causa de legitimidade para o homem cogitar a prática de um crime, o corpo dessa mulher também é entendido como propriedade ou objeto de direitos dos homens. Os crimes decorrentes dessa apropriação da defesa dos direitos das mulheres muitas vezes se volta contra ela e contra as pessoas por quem nutre afetos. O crime desejado não ocorreu por intervenção divina, como diz o ex-procurador-geral da República. Mas a coragem de verbalizar e sugerir à todos nós como seria essa cena, é estarrecedora. É preciso levar muito à sério a confissão, pois um crime foi premeditado por um dos homens que ocupou um dos cargos de maior relevância no Brasil, e que, seria cometido no local de maior representatividade de acesso à Justiça. O cometimento de crimes por autoridades brasileiras tem sido uma triste tônica em nosso país. Discursos misóginos do Presidente da República promovem difusão e incentivo à posse de arma e a tentativa de frustrar instrumentos que visem combater o abuso de autoridade. Se as vísceras do machismo estão tão expostas em nossas instituições, sorte que pela “mão de Deus”, no caso do Janot, se trata apenas de sentido figurado. O que restará para as mulheres brasileiras vítimas dessa violência? *Paloma Gomes é advogada atuante em casos de Direito de Família e Direitos Humanos e comanda o escritório Paloma Gomes Advocacia no Distrito Federal. > Secretário de direitos humanos da PGR critica ambientalistas, ONGs e OAB > Entre agora no Catarse para colaborar  com o jornalismo independente
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