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Luiz Cláudio Cunha *
Passava um pouco das 11h da manhã de um domingo sonolento, 12 de novembro de 1978. A jovem morena que aguardava um ônibus desde Montevidéu, no box 50 da Rodoviária de Porto Alegre, sente no braço a pegada firme de um homem de cabelos grisalhos e terno safari. A ativista uruguaia Lilián Celiberti, que disseminava no exterior notícias sobre as torturas da ditadura em seu país, estava sendo presa naquele momento pelo nome mais importante da repressão gaúcha, o delegado do Dops Pedro Seelig. Começava ali o sequestro dos uruguaios — Lilián, seus dois filhos, Camilo e Francesca, e Universindo Rodríguez Díaz —, uma incursão pioneira em solo brasileiro da Operação Condor, a secreta conexão multinacional das ditaduras do Cone Sul da década de 1970 que caçava, torturava e executava seus opositores. Os quatro uruguaios só não cumpriram o ritual de morte da Condor porque, alertados por um telefonema anônimo, dois jornalistas da sucursal da revista Veja na capital gaúcha — o repórter Luiz Cláudio Cunha, autor deste artigo, e o fotógrafo JB Scalco — surpreenderam os sequestradores e Lilián no cativeiro de seu apartamento na rua Botafogo, no bairro do Menino Deus.
A operação clandestina flagrada pelos jornalistas teve que ser abortada pela Condor. Daí tornou-se um escândalo na mídia brasileira e no exterior. Os uruguaios sobreviveram ao sequestro, as ditaduras acabaram caindo sete anos depois, em Brasília e em Montevidéu, e a democracia voltou nos dois lados da fronteira em 1985.
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