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Relembrando cena do filme "Um Lugar Chamado Notting Hill" (1999), Fábio Flora fala sobre momentos que ajudam a escapar do peso da rotina
Fábio Flora*
A certa altura de Um lugar chamado Notting Hill, Anna (Julia Roberts) e William (Hugh Grant) pulam a grade que protege uma das tantas pracinhas fofas que entremeiam o bairro londrino e são frequentadas apenas pelos moradores. A metáfora não é tão difícil de vencer quanto a altura da cerca: o lugar é a imagem do desvio que um e outro fazem em suas rotinas por um intervalo parnasianamente feliz.
A gente bem sabe (ou deveria saber) que não existe alegria permanente. Você pode ter casado com a metade da sua laranja e preparar aquele suco delicioso todo dia. Pode morar na casa dos seus sonhos e repetir o lema da Dorothy sempre que chega da rua. Pode ter o melhor trabalho do mundo, que você nem chama de trabalho. Pode até – vou pegar pesado na utopia – viver num país liderado por políticos honestos.
No caso do filme, você pode viver num dos recantos mais charmosos de Londres ou ser a estrela de cinema mais querida e bem paga do showbiz.
Mas nem cada uma dessas felicidades mega-hiper-super-extra-large é capaz de imunizar os regulamentares 1.440 minutos diários contra a última denúncia de corrupção; o último esquete daquele CQCista que confunde humor com misoginia; a última liminar que garantiu velhos privilégios; o último atentado; as últimas estatísticas sobre a desigualdade social no mundo; o último alerta dos cientistas sobre o aquecimento global; a última entrevista do Trump; o último boato viralizado pelos desinformantes de sempre; a última bala perdida; o último piti do vizinho fascista (agora ele roga ver os netos de certo ex-presidente espancados na escola); a última edição daquele jornal que espalha notícia falsa na sexta e pede desculpas pela “imprecisão” no sábado, quando a audiência é bem menor. Aff.
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