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<< Indústria de armas privilegia deputados do PMDBA análise dos números absolutos de homicídios pode dar origem a interpretações distorcidas, já que um país pequeno muito violento pode ter registros inferiores ao de países populosos considerados menos violentos. É o caso, por exemplo, de Honduras, que tem a maior taxa de homicídios do mundo, uma média de 85,7 a cada 100 mil habitantes, de acordo com o último relatório da ONU. Em números absolutos, entretanto, o país registrou aproximadamente 7.800 homicídios em 2015, segundo as estimativas da ONU. O valor é inferior ao de países como os Estados Unidos, que registrou 15.181 ocorrências no mesmo ano, como mostram dados do FBI. “É baixa a taxa de solução de homicídios no Brasil – entre 5% e 8%.” (Falso) A afirmação de que a taxa de solução de homicídios no Brasil fica entre 5% e 8% é reproduzida constantemente, mas não existe nenhum estudo que tenha chegado a essa conclusão. Juristas como Luiz Flávio Gomes e até mesmo uma publicação oficial da Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública (Enasp) citam esses porcentuais, apontando que teriam sido o resultado de uma pesquisa da Associação Brasileira de Criminalística (ABC), de 2011. A checagem descobriu, contudo, que o dado é falso. O presidente da ABC, Bruno Telles, afirmou que a origem do número era o livro O Inquérito Policial no Brasil: uma pesquisa empírica, de Michel Misse. Procurado, o especialista contestou a informação. “Não existe a taxa nacional [de solução de homicídios]”, afirmou Misse. “Ela é citada como base em diferentes pesquisas, mas é impossível estabelecê-la pelo simples motivo de que não temos no Brasil sequer uma taxa nacional de homicídios de base jurídica. A única base com que contamos é o DataSUS, do Ministério da Saúde. Há aproximações como a do CNJ [Conselho Nacional de Justiça] e até hoje só a vejo sendo repetida. No meu trabalho, encontramos uma taxa média para cinco capitais entre 10% e 15%. Mas não é uma taxa nacional.” A reportagem entrou em contato também com a assessoria do Ministério da Justiça, que encaminhou por e-mail o estudo “A investigação dos homicídios no Brasil”, onde é possível consultar as informações sobre as taxas de esclarecimentos em diferentes estados. O órgão não dispõe de números nacionais padronizados e consolidados.
| Como são resolvidos os homicídios | |||
| Pesquisa | UF | Período | Taxa de esclarecimento |
| Soares et al. (1996) | RJ | 1992 | 8% |
| Rifiotis (2007) | SC | 2000-2006 | 43% |
| Ratton e Cireno (2007) | PE | 2003-2005 | 15% |
| Misse e Vargas (2007) | RJ | 2000-2005 | 14% |
| Sapori (2007) | MG | 2000-2005 | 15% |
| Costa (2010) | DF | 2003-2007 | 69% |
Fontes: Ribeiro (2009) e Costa (2010)
| País | Armas de fogo a cada 100 habitantes (2007) | Taxa de homicídios por arma de fogo a cada 100 mil habitantes (média entre 2010 e 2015) | Armas de fogo a cada 100 habitantes (segundo Morais) | Taxa de homicídios por arma de fogo a cada 100 mil habitantes (segundo Morais) |
| Uruguai | 32 | 3,5 | 31 | 2,80 |
| Canadá | 31 | 0,5 | 30 | 0,51 |
| Áustria | 30 | 0,1 | 30 | 0,22 |
| Islândia | 30 | 0 | 33 | 0 |
| Alemanha | 30 | 0,1 | 30 | 0,19 |
Fonte: Small Arms Survey e relatório do PLS 378/2017
Nota-se que, embora alguns números estejam incorretos, os dados apresentados por Morais são similares aos registrados pelo estudo da Small Arms Survey. A maior discrepância está na taxa de homicídios por arma de fogo registrada no Uruguai: a entidade suíça contabiliza 3,5, enquanto Morais aponta 2,8 ocorrências a cada 100 mil habitantes em seu projeto de lei. Uma análise dos dados de todos os 15 países, e não apenas dos cinco selecionados por Morais, revela uma tendência similar à apontada pelo senador. A maior parte dos países com altas taxas de armas de fogo tem taxas de homicídios por arma de fogo relativamente baixas.| País | Armas de fogo a cada 100 habitantes (2007) | Taxa de homicídios por arma de fogo a cada 100 mil habitantes (média entre 2010 e 2015) |
| Estados Unidos | 89 | 2,7 |
| Iêmen | 55 | 4,4** |
| Suíça | 46 | 0,2 |
| Finlândia | 45 | 0,3 |
| Chipre | 36 | 0,5 |
| Arábia Saudita | 35 | 4,3 |
| Iraque | 34 | 8,3 |
| Uruguai | 32 | 3,5 |
| Canadá | 31 | 0,5 |
| Áustria | 30 | 0,1 |
| Islândia | 30 | 0 |
| Alemanha | 30 | 0,1 |
| Kuwait | 25 | 2,2* |
| Nova Zelândia | 23 | 0,1*** |
| Grécia | 23 | 0,5 |
*Dado de 2012; **Dado de 2013; ***Dado de 2014. Fontes: Small Arms Survey; UNODC Statistics
Daniel Cerqueira, do Ipea, destaca que Wilder Morais também ignora o contexto social e econômico dos 15 países da lista. Um dos trabalhos publicados por Cerqueira tem como um de seus objetivos isolar fatores econômicos e sociais para calcular apenas o impacto das armas de fogo na criminalidade. “Existem vários aspectos que influenciam na violência, desde taxas de escolaridade até a proliferação do tráfico de drogas. A violência pode aumentar ou diminuir de acordo com esses fatores, e isso não tem nada a ver com a eficácia do desarmamento”, esclareceu, em entrevista ao Truco em julho de 2017. “É necessário isolar esses fatores em estudos sérios para concluir qual é, de fato, o efeito da arma de fogo nas taxas de criminalidade.” O economista, em sua tese de doutorado, vencedora do 33º Prêmio BNDES de Economia, demonstra matematicamente que a proliferação de armas de fogo é um fator crucial para o aumento da criminalidade. “Um aumento de 1% na difusão de armas de fogo nas cidades causa um crescimento muito maior, de cerca de 2%, na taxa de homicídios do município”, atesta a tese. “Os estados brasileiros com o maior número de armas registradas possuem as menores taxas de homicídios do País: Acre, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina e Mato Grosso possuem 33% das armas registradas e 9% dos homicídios, ao passo que Pernambuco, Bahia, Ceará, Sergipe e Maranhão detêm 6% das armas registradas e 26% do número de homicídios (dados de 2008).” (Distorcido) O senador Wilder Morais baseou-se em uma reportagem publicada pelo jornal O Globo para defender a ideia de que os estados brasileiros com mais armas registradas têm menores taxas de homicídios. O texto do projeto de lei reproduz o que está na matéria, escrita com base em dados de 2008 do Ministério da Justiça e do Mapa da Violência 2011. O parlamentar tenta provar que lugares com mais armas não são necessariamente mais violentos, mas os dados não permitem essa conclusão. A frase do Estatuto do Armamento foi classificada como distorcida. A comparação leva em conta a taxa de homicídios, que inclui todas as mortes classificadas dessa forma, como esfaqueamentos. A taxa de homicídios por armas de fogo é sempre mais baixa. Isso torna a correlação entre as mortes e a quantidade de armas de fogo incorreta, uma vez que elas não foram responsáveis por todos os óbitos registrados em 2008 nos lugares citados. Entrevistado na reportagem do Globo, o coordenador do Mapa da Violência, Júlio Jacobo Waiselfisz destaca que a relação entre armas legais e número de homicídios não é sentida em alguns estados porque há também muitas armas ilegais no país. Dados do projeto suíço Small Arms Survey confirmam isso. A análise estimou a existência de 9,5 milhões de armas ilegais nas mãos de civis no Brasil em 2007, contra 5,3 milhões de legalizadas. Ou seja, 64% do total não teria registro. Sem saber onde estão, não é possível definir em que estados há mais ou menos armas no país. De acordo com Waiselfisz, diferenças sociais e econômicas entre os estados também explicam a disparidade dos índices. “Estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm indicadores bem melhores do que a média nacional. Isso se reflete nos dados de violência”, disse o pesquisador na reportagem. É o que também foi apontado ao Truco por Daniel Cerqueira, do Ipea. “Após mais de dez anos da promulgação do Estatuto do Desarmamento, não há quaisquer dados objetivos que apontem no sentido da redução dos índices de violência: pelo contrário, desde a entrada em vigor daquela lei, o número total de homicídios no Brasil apresentou um aumento de 20%, atingindo a preocupante marca de 60 mil em 2016.” (Falso) É incorreto afirmar que “não há quaisquer dados objetivos que apontem no sentido da redução dos índices de violência” desde a promulgação do Estatuto do Desarmamento. Os números do Atlas da Violência 2017 mostram redução no índice de homicídios no Brasil em pelo menos cinco ocasiões: de 2003 para 2004, de 2004 para 2005, de 2006 para 2007, de 2010 para 2011 e de 2014 para 2015. Entre 2014 e 2015, último ano que o Atlas abrange, a queda foi de 2,3%. O índice de homicídios por arma de fogo também registrou redução. O Atlas atesta que no período imediatamente posterior à aprovação do Estatuto de Desarmamento, entre 2003 e 2007, houve queda nas mortes por armas de fogo no Brasil. No ano de 2013, quando o estatuto completou dez anos, a quantidade de homicídios com armas de fogo no país havia caído 12,6% em relação a 2003, quando a lei foi sancionada. O senador também afirma que, desde a entrada em vigor do estatuto, “o número total de homicídios no Brasil apresentou um aumento de 20%”. O Estatuto do Desarmamento foi sancionado pelo presidente Lula no dia 23 de dezembro de 2003. A lei entrou em vigor no dia seguinte. Naquele ano, o Atlas da Violência registrou 52.534 homicídios no país. Em 2015, último ano que a pesquisa contabiliza, foram 59.080 ocorrências. Trata-se de um aumento de 12,3% no número total de homicídios, inferior ao incremento de 20% defendido por Morais em sua afirmação. Além disso, não é possível dizer que o número total de assassinatos chegou à marca de 60 mil no ano de 2016, como afirma o projeto de lei. Isto porque os últimos dados disponíveis para consulta são relativos ao ano de 2015, quando foram registrados 59.080 homicídios em território brasileiro. Portanto, a frase foi classificada como falsa. Um relatório feito pela Fundação Friedrich Ebert em parceria com o Instituto Sou da Paz e divulgado em 2015 traz outros dados que sugerem que as campanhas de desarmamento tiveram bons resultados, ao contrário do que alega o PLS 378/2017. O documento conclui que “o Estatuto do Desarmamento foi um fator importante para reverter o crescimento acelerado das mortes por arma de fogo no Brasil” e atesta que, “entre 1993 e 2003 a taxa de homicídios por 100 mil habitantes, cometidos com armas de fogo, crescia aproximadamente 6,9% ao ano” mas que, a partir de 2004, “houve uma clara reversão de tendência, com o crescimento caindo para 0,3% ao ano”. Entenda mais sobre a metodologia e sobre os selos de classificação adotados pelo Truco no site do projeto. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org ou por WhatsApp e Telegram: (11) 96488-5119.
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