Governo precisa gerar renda e promover inclusão, propõe presidente da Anabb
22/3/2017
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[caption id="attachment_287284" align="alignright" width="380" caption="Fujimoto reclama da atual gestão e aconselha: “A palavra é inclusão”"][fotografo]Divulgação[/fotografo][/caption]Ações para geração de renda, incentivo ao consumo e inclusão social. Eis a receita para que o governo Michel Temer, definitivamente empossado em 31 agosto de 2016, tenha algum êxito na tarefa de enfrentar a mais grave crise da história do Brasil. A dica é do presidente da Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (Anabb), Reinaldo Fujimoto, para quem empresas precisam aumentar suas vendas e, nesse sentido, é necessário que a população ganhe poder de compra. A Anabb é uma das entidades parceiras do Diálogos Congresso em Foco 2, fórum de debates sobre os rumos do país a ser realizado na próxima sexta-feira (24), em Brasília.
“A retomada do consumo constitui o eixo central. São necessárias políticas públicas de geração de renda. Economistas renomados atestam: sem consumo, não haverá o investimento privado no qual o governo Temer aposta para retomar o crescimento. A explicação é simples: as empresas que operam com capacidade ociosa não encontram razões para ampliar sua capacidade além da existente. Para investir, os empresários esperam o aumento das vendas – que, por sua vez, depende de algum fator autônomo de injeção de demanda. A palavra, portanto, é inclusão”, observa.
Nesta entrevista ao Congresso em Foco (leia íntegra abaixo), no entanto, Fujimoto faz firmes críticas à gestão do peemedebista e diz que a execução de reformas estruturais, como a da Previdência e a trabalhista, “vai apenas gerar um caos no mercado de trabalho e na economia”. O presidente da Anabb afirma que as medidas de Temer em relação ao trabalho tendem a precarizar uma situação já muito deteriorada e são concebidas com o propósito de “agradar empresários” – e, nesse sentido, enfraquecendo legislações como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por exemplo.
“Para se ter uma noção do desrespeito à legislação trabalhista, o número de processos acumulados na Justiça trabalhista é de 5 milhões; na Justiça estadual, de 19 milhões; e, nas varas federais, 9 milhões. O tema que mais gera processos é o pagamento de verbas rescisórias. Isso é o retrato de um governo que, falando de um modo geral, aposta na precarização do trabalho para agradar empresários, de um Legislativo que legisla em causa própria, uma vez que é formado em sua maioria pelos detentores do capital ou que por eles são bancados, e de empresas que querem lucrar às custas da redução de direitos dos empregados”, reclama o dirigente, mencionando estudo da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra).
“Não há responsabilidade social”, lamenta.
Ele se refere a matérias como o Projeto de Lei 4302/1998, desengavetado dos arquivos da Câmara (onde foi abrigado em 1998) para modificar “as relações de trabalho na empresa de trabalho temporário e na empresa de prestação de serviços a terceiros” – em outras palavras, o texto promove a terceirização do trabalho em todas as etapas da produção e/ou prestação de serviços, como quer o governo, o que é visto por especialistas como fator de precarização das condições de trabalho do empregado.
Outra crítica de Fujimoto é relativa ao Projeto de Lei 6787/2016, que entre outros pontos faz prevalecer o negociado sobre o legislado – ou seja, privilegia acordos entre patrão e empregado em detrimento de leis como a própria CLT. “A reforma trabalhista vai impactar na arrecadação, já que, como tem denunciado o movimento sindical, a massa salarial do trabalhador tende a diminuir. Diferentemente do que prega o governo, o Brasil precisa de um Estado forte, queajude a impulsionar a economia por meio de investimentos pesados em infraestrutura e do aumento do crédito, em vez de aplicar uma política de cortes”, acrescenta.
Diálogos
A Anabb compõe a lista de instituições e entidades participantes do Diálogos Congresso em Foco 2, iniciativa que aposta na troca de ideias como caminho para o país sair da profunda crise em que se encontra. Em 2017, o fórum de discussões entra em seu segundo ano na expectativa de tratar de temas como a formação política da sociedade – e, nesse processo, o papel dos meios de comunicação –, medidas de combate à corrupção e ao desemprego, a gestão das finanças públicas etc.
Neste espaço, aberto à participação de todos, revezam-se questões consideradas cruciais para a superação dos entraves à retomada do crescimento econômico, ao aprimoramento da democracia e dos costumes políticos. Participe do debate, deixando registrada a sua opinião por meio de comentários em nosso site, na página do Diálogos no Facebookou enviando suas contribuições em texto, vídeo ou áudio para o email dialogos@congressoemfoco.com.br.
Confira a íntegra da entrevista:Congresso em Foco: Qual é a principal razão para os atuais índices de desemprego no Brasil?Reinaldo Fujimoto: São vários fatores – externos e internos – que, conjugados, resultaram no alarmante quadro de mais de 12 milhões de desempregados atualmente. Do ponto de vista externo, sem dúvida alguma a crise econômica mundial de 2008 tem reflexos que ainda podem ser sentidos hoje. Aliado a isso, houve a adoção de uma política macroeconômica equivocada pelo governo federal, que lançou mão de juros altos e desonerações, que foram esvaziando os cofres da União, prejudicando os investimentos.
O caminho para reverter a situação está em sintonia com os tipos de reforma ora sugeridos pelo governo Michel Temer, na esteira da emenda constitucional do teto de gastos?
Primeiramente é preciso deixar claro que a instabilidade da economia se agravou em grande parte como reflexo da instabilidade política porque passa o país. Respondendo à pergunta: pelo contrário, as reformas só irão piorar o atual estado de coisas. O que o governo esconde é que a reforma da Previdência, por exemplo, servirá como mais um instrumento para angariar recursos para o pagamento da dívida pública. A reforma trabalhista, por sua vez, vai impactar na arrecadação, já que, como tem denunciado o movimento sindical, a massa salarial do trabalhador tende a diminuir. Diferentemente do que prega o governo, o Brasil precisa de um Estado forte, queajude a impulsionar a economia por meio de investimentos pesados em infraestrutura e do aumento do crédito, em vez de aplicar uma política de cortes. A prioridade das políticas econômicas deve ser sempre o combate às desigualdades sociais.
Ao tentar apertar o cinto dos gastos públicos – ao passo em que faz vista grossa para os devedores da União e tenta anistiar o setor de telecomunicações, por exemplo –, o governo se contradiz? Essa falta de clareza em relação às contas públicas são um fator de desestímulo para os empregadores?Muito do que se chama de gasto é, na verdade, investimento. A propósito, chamar de gastos os recursos destinados, por exemplo, à saúde e à educação já faz parte do roteiro do governo para convencer a opinião pública de que é preciso por o pé no freio afim de colocar a economia nos eixos. O que está por trás disso é a redução da mão do Estado na economia e o aumento da mão invisível do mercado.
A inflação convergindo para o centro da meta e a sinalização de mais reduções na taxa Selic por parte do Banco Central (diante da grande margem para tanto) são fatores indispensáveis para recuperar a saúde da indústria – e, consequentemente, viabilizar a obtenção de níveis aceitáveis de emprego?Na verdade, a convergência da inflação para o centro da meta é resultado direto da recessão da economia, a maior da história do Brasil. Sem dinheiro, não há consumo e sem consumo o impacto é direto da produção industrial, afetando toda a cadeia produtiva, da fábrica ao consumidor final. Segundo estudo de economista da Unicamp, no biênio 2015-2016 o Produto Interno Bruto (PIB) acumulou uma gigantesca queda de 7,2%, levando o país a um patamar de quatro ou cinco anos atrás. Com a economia paralisada e os "motores de crescimento", como créditos do BNDES, paralisados, a queda de preços é inevitável. Além disso, é importante destacar que, se em anos anteriores houve quebra de oferta de produtos agrícolas, por causa da seca, recentemente houve choque de oferta positiva, com alimentos em queda, o que favorece a queda da inflação.
O senhor considera que a versão de pleno emprego propalada no governo Dilma maquiava uma situação mais negativa?Políticas de emprego e renda, como ficou provado nesses últimos 12 anos, geraram mais de 20 milhões de empregos e a informalidade caiu, criando um cenário de pleno emprego.
É correta a política macroeconômica implementada na gestão Temer? Ela é acertada para reverter a tendência de aumento nas taxas de desemprego?
Não. Isso tem como principais fatores uma fórmula que mistura crise política com queda nos investimentos públicos e privados e a política recessiva responsável pelo aumento do desemprego e pela queda da demanda e da arrecadação pública. A aposta do governo nas reformas estruturais, como a da previdência e trabalhista, vai apenas gerar um caos no mercado de trabalho e na economia. Apostar também nas privatizações, reduzindo o papel do Estado como agente fomentador do desenvolvimento econômico e social, é outro erro gravíssimo, visto que, como mostra a história, elas não são garantia de mais oportunidades de emprego.
Qual seria a providência mais urgente do governo para reverter os atuais níveis de desemprego?A retomada do consumo constitui o eixo central. São necessárias políticas públicas de geração de renda. Economistas renomados atestam: sem consumo, não haverá o investimento privado no qual o governo Temer aposta para retomar o crescimento. A explicação é simples: as empresas que operam com capacidade ociosa não encontram razões para ampliar sua capacidade além da existente. Para investir, os empresários esperam o aumento das vendas, que, por sua vez, depende de algum fator autônomo de injeção de demanda. A palavra, portanto, é inclusão.
Como o senhor vê uma proposta de reforma trabalhista que privilegia o negociado sobre o legislado? Que mudanças a CLT deveria sofrer (caso considere que alterações sejam necessárias nesta legislação)?Atualmente, o negociado já tem força de lei, desde que o que for acordado não seja inferior ao que estabelece a legislação trabalhista. Essa questão de fortalecer a negociação é falsa: o objetivo da reforma é possibilitar que a negociação coletiva preveja situações piores do que a legislação trabalhista assegura. É o caso da jornada de trabalho. Pela proposta, não haverá limitação diária e semanal, levando os trabalhadores a jornadas extenuantes. A CLT tem mais de 900 artigos, dos quais no máximo 300 ainda mantêm a redação original. É uma falácia sem tamanho classificá-la de obsoleta, como defendem os que querem acabar com ela. A conquista da CLT foi um marco histórico que precisa ser resguardado, por se tratar do principal instrumento de proteção dos direitos dos trabalhadores.
O senhor é a favor da terceirização irrestrita, inclusive na atividade-fim?Não.Estudos mostram que os trabalhadores terceirizados ganham até 30% menos do que aqueles com carteira assinada, com jornada maior e possuem menos direitos, além de serem as maiores vítimas de acidentes de trabalho, inclusive fatais. Aliás, o Brasil é o segundo país do mundo em acidentes e mortes no trabalho e onde 70% de seus trabalhadores recebem até dois salários mínimos. Além disso, com a terceirização, os trabalhadores teriam mais dificuldade para se organizar, já que, pulverizados em diferentes empresas prestadoras de serviço, não conseguiriam se mobilizar ao lado de sindicatos. Tudo que o setor patronal quer. Em outras palavras, a terceirização sem limites representa a precarização total do trabalho e a destruição de grande parte dos direitos trabalhistas.
Quem tem mais culpa no que diz respeito à precarização do trabalho no Brasil: governos, legisladores ou empregadores? Cada um tem sua parcela de responsabilidade. Para se ter uma noção do desrespeito à legislação trabalhista, segundo levantamento da Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho), o número de processos acumulados na Justiça trabalhista é de 5 milhões; na Justiça estadual, de 19 milhões; e, nas varas federais, 9 milhões. O tema que mais gera processos é o pagamento de verbas rescisórias – ou seja, verbas devidas ao trabalhador quando sai da empresa.
Isso é o retrato de um governo que, falando de um modo geral, aposta na precarização do trabalho para agradar empresários, de um Legislativo que legisla em causa própria, uma vez que é formado em sua maioria pelos detentores do capital ou que por eles são bancados, e de empresas que querem lucrar às custas da redução de direitos dos empregados. Não há responsabilidade social.
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