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Passageiro utiliza máscara contra o coronavírus em um ponto de ônibus, no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil
Deco Bancillon*
A demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde e a sua substituição pelo médico oncologista Nelson Teich faz o Brasil entrar em etapa decisiva no enfrentamento ao coronavírus. Com a troca, é esperada uma guinada na condução das ações do Ministério da Saúde e uma maior pressão do governo federal para que governadores e prefeitos revejam as medidas de isolamento social.
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O fim das políticas de restrição à circulação de pessoas, no entanto, é uma aposta de risco do governo Bolsonaro. Se bem-sucedida, a retomada de atividades como o comércio e as aulas escolares pode encurtar o caminho para a tão esperada recuperação econômica, poupando milhões de empregos e pavimentando o caminho para uma fácil reeleição de Bolsonaro em 2022. Já o fracasso dessas medidas pode levar o país a sofrer um colapso do sistema hospitalar e funerário, fazendo com que tenhamos que nos acostumar a cenas lamentáveis como as imagens de corpos de vítimas da covid-19 dividindo espaço com pacientes em corredores de um hospital público de Manaus.
Assim como em Nova York, para resolver o problema, a Secretaria de Segurança amazonense teve de providenciar contêineres frigoríficos para armazenar os corpos das vítimas do coronavírus e liberar espaço nos corredores para abrigar doentes que ainda lutam contra a doença.
Em se tratando de política, ser associado a mortes e desastres é péssimo para a imagem de qualquer candidato à reeleição. Bolsonaro sabe disso, mas fez um cálculo político. Assim, ao decidir trocar o comando do Ministério da Saúde na fase mais decisiva para o enfrentamento do vírus, o presidente decidiu chamar para si a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso das ações governamentais. E fez justamente em um momento em que o Brasil já começava a colher frutos do achatamento da curva de contaminação do coronavírus, política defendida pelo então ministro Luiz Henrique Mandetta.
Entre o fim de fevereiro e início de março, quando o país ainda registrava casos apenas importados de contaminação – ou seja, de pessoas que tiveram contato com o vírus fora do Brasil –, o número de pessoas infectadas pela covid-19 dobrava a cada três, quatro dias. Embora em menor número, a velocidade de transmissão colocava o Brasil na mesma trajetória de contaminação de países como Itália e Estados Unidos.
O que freou o contágio foi a ação rápida de governadores, que decidiram suspender aulas, fechar comércios e limitar a circulação de pessoas. Concorde-se ou não com essas medidas, é preciso reconhecer que elas deram resultado. Hoje, a curva de contaminação desacelerou para a metade do que vínhamos registrando no início da crise. Ainda assim, o número de casos confirmados de covid-19 tem dobrado a cada sete, oito dias. Já são 40.581 mil contaminados e 2.575 mil mortes espalhadas pelos 26 estados e o Distrito Federal – números que fazem do Brasil o país com mais casos de covid-19 na América Latina.
Isso quer dizer que, mesmo que queira liberar geral, o novo ministro da Saúde (que, no passado, publicou artigos defendendo o isolamento horizontal e elogiando o agora demitido Mandetta) não encontrará espaço para uma radicalização nas políticas de enfrentamento à pandemia. Discreto, o ministro já foi aconselhado pela ala militar a tomar conhecimento do Ministério primeiro e, por enquanto, não assumir qualquer postura de enfrentamento aos governadores, papel que continuará cabendo a Bolsonaro.