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Remetente e destinatário

19/10/2008
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Marcelo Mirisola*

 

Esta eleição me fez lembrar de um passatempo infantil que consistia em associar pessoas ou coisas a cores e objetos e vice-versa. A linha do lobo mau teria seu destino na casa dos três porquinhos. Carro na garagem. A linha de Gabeira direto do Posto 9 para o Bofetada (antes da reforma e sem nenhuma conotação sexual). Já a linha do Kassab teria início na sede social do Clube Pinheiros, passaria pelo vestiário masculino das quadras de tênis (também sem nenhuma conotação sexual) e chegaria a um escritório de advocacia na Av. Faria Lima. Uma pequena pausa para o almoço no Rubaiyat. Logo depois, a linha do Kassab viraria a primeira direita e pegaria a Av. 9 de Julho (via corredor da Marta) em direção ao Viaduto do Chá, onde se localiza a reeleição. A conferir.

 

A linha dos evangélicos não foi suficiente para levar Crivella ao segundo turno, mas continuará indicando o caminho do inferno sem escalas. Tudo ok, remetentes e destinatários devidamente correspondidos.

 

O problema é Marta Suplicy nesse liga-liga. Quando penso que a linha da Marta leva ao Jardim Ângela, alguma coisa não se encaixa. Como pode?

 

Não consigo entender a relação de uma perua da Oscar Freire com as quebradas dos manos na zona sul. Além de quatrocentona e branquela, ela é antipática, e trocou o dulcíssimo pai do Supla por um argentino sinistro (essa equação não é minha). Marta Favre fez os Céus, o bilhete único, e aquele túnel inútil na Rebouças. Eu me pergunto: seria o suficiente para ganhar o voto do mano que mora do lado de lá da ponte João Dias? Em tese, não. 

 

Só em tese. Na prática o vice-versa é outro. Cachorro liga com coleira. Noiva com buquê e mano com Marta? Será? Vejamos: quando a ex-sexóloga insinuou que o atual prefeito era bicha ela o fez para agradar os eleitores do Maluf, mas usou de baixaria sobretudo para atender aos anseios da periferia careta e evangélica que curte hip hop e acha que o melhor dos mundos é ter vídeo-locadora e academia de ginástica perto de casa, confere? 

    

Não devia conferir. Mas confere. Algo está fora de lugar. Não existe verossimilhança nessas conexões. Daí talvez se explique o mergulho no vazio. A falta de identidade. O botox que jamais vai preencher almas trôpegas. Como se o beiçola da Marta saísse das bochechinhas do Kassab. São Paulo é mesmo uma cidade monstruosa. Vai ter o prefeito que merece. E o Rio continuará lindo e bagunçado, apesar da bala perdida disparada lá no Pavão-Pavãozinho que cumprirá sua trajetória impecável e cinematográfica: atingindo em cheio o pôr-do-sol atrás das pedras do Arpoador. Boas eleições a todos.

 

 

*Marcelo Mirisola, 42, é paulistano, autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô, O azul do filho morto (os três pela Editora 34), Joana a contragosto (Record), entre outros.

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