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Réquiem para uma ilha

17/8/2011
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Emanuel Medeiros Vieira* Já é tarde para consertar. Não, não serei nostálgico. Não falarei de quintais, de árvores. Já é tarde para consertar – repito. O modelo urbano foi esse: poeira, pó e ganância. A cobiça dos teus alcaides, dos teus “construtores”, dos teus políticos, sempre foi mais forte. Teus homens públicos não te mereceram. É claro: nunca te amaram E muitos resolveram silenciar: é um réquiem o que queria escrever. Mas um réquiem deve ter nobreza trágica. Minhas palavras não: são pálidas, conscientes de sua inutilidade. O tempo já não cabe dentro de mim. Uma ilha habita o meu coração, mas não existe mais. Já é tarde para consertar – caio na redundância. (Qualquer palavra será inútil.) Um dia, talvez, ela seja lembrada. Minha ilha é nevoeiro. (Com suas gaivotas, com seus meninos, com seus trapiches, com suas casas, com seus terrenos, com os seus verdes, com os seus pássaros, com suas praias – sem turistas deslumbrados.) E nos teus morros, a gente poderia subir a qualquer hora do dia. E morro (morremos): de doenças crônicas, de omissão, de complacência com a corrupção, de vaidades vãs. Quem se lembrará dessa gente tão pequena que se apossou de ti, ilha natal? É como se visse uma iluminada fogueira num junho qualquer – que nunca se apaga. (Missa do Galo, tainha frita, o orvalho daquela manhã, e aquela praia chamada Lagoinha – no extremo Norte de ti –, ainda silenciosa e sem abutres.) Ela, a Ilha (perpétua, imanente) continuará: para sempre: Em um ser que ainda está sendo gestado – contemplando um álbum de fotografias num domingo à tarde. Pai: Dissipa essa cerração! Eu sei: “Todo ser humano tem dentro de si um vazio do tamanho de Deus.” (Fiódor Dostoievski) (Salvador, agosto de 2011)
*Nasceu em 1945 (Florianópolis, SC).Foi professor, cineclubista, crítico de cinema, vendedor de livros, editor, jornalista e redator de discursos. Foi membro do Conselho Editorial do  jornal "Movimento" e correspondente em Santa Catarina do semanário "Opinião". Atualmente, reside em Salvador. Tem 20 livros publicados e mais três para editar. Participou de mais de cinquenta antologias e coletâneas no Brasil e no exterior. É detentor de diversos prêmios literários nacionais, como o Prêmio Internacional de Literatura, promovido pela União Brasileira de Escritores - UBE, em 2010 e o "Prêmio Lúcio Cardoso" para o melhor romance - na avaliação da entidade -, publicado no Brasil em 2009.
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