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Moe e Dolores

23/6/2005
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Cláudio Versiani, de Nova York*

Manhattan, Broadway 799, esquina com a Rua 18, o prédio é antigo como quase tudo nessa parte da cidade. O corredor é tortuoso, a escada de madeira já foi gasta pelo tempo há muito tempo. O escritório fica no fim de um outro corredor no segundo andar, é pequeno e entulhado de livros e pastas de arquivo. É aí que se encontra o simpático e orgulhoso Moe Fishman, o secretário-executivo da Brigada Abraham Lincoln.A figura de Moe é acompanhada por um retrato de Dolores Ibarruri, a “Pasionaria” da Guerra Civil Espanhola. Foi Dolores quem um dia disse: “Los fascistas no pasarán” (em português: Os fascistas não passarão).A Guerra da Espanha foi o prólogo da Segunda Guerra Mundial. A história do mundo passa pela Espanha em 1936. Cerca de 50.000 voluntários de 55 países (França, Alemanha, Polônia, Itália, EUA e Reino Unido, foram os principais) se juntaram aos republicanos espanhóis para combater o fascismo do general Franco, que teve como aliados nada menos que Hitler e Mussolini.Dos EUA partiram 2.800 homens que formaram a Brigada Abraham Lincoln. Eram, na sua maioria, trabalhadores, filiados ou simpatizantes de partidos ou agremiações de esquerda. O Partido Comunista foi o grande arregimentador de voluntários.Moe Fishman era um desses voluntários. Filho de pai socialista e mãe “apolítica”, ele se juntou à liga dos jovens comunistas quando ainda tinha 18 anos. O ano era 1934, período da Grande Depressão. As condições de vida eram péssimas, e os partidos de esquerda faziam sucesso na terra do Tio Sam. Em 1937, aos 21 anos, decidiu que seu lugar no mundo era a Espanha em guerra. Contra a vontade dos pais, Moe embarcou para a França junto com outros sete voluntários de Nova York. Na França já eram 20, cruzou a fronteira com a Espanha e o contingente aumentou para 80.As razões que levaram Moe para a guerra foram o ódio ao fascismo e o perigo que representava para o mundo uma vitória de Franco, Hitler e Mussolini, além, é claro, do desejo de viver uma grande aventura. Viajar naquela época não era possível para os pobres ou trabalhadores como ele. Se não conseguia nem sair de NY, ir para a Europa, nem em sonho. E aos 21 anos as balas são para os outros, nunca para você, diz Moe. Mas não foi bem o que aconteceu. Numa vila perto de Madrid, na primeira vez em que Moe Fishman entrou em ação, foi ferido na perna esquerda. Passou um ano no hospital se recuperando dos ferimentos. Foi tratado como herói pela população civil e se apaixonou de vez pelo povo espanhol.Mas Moe estava certo em seu temor ao fascismo. A Guerra da Espanha serviu de laboratório para novas armas de Hitler e para experimentar novas técnicas de propaganda em massa. Mussolini mandou 47.000 homens para ajudar Franco, além de armamento pesado. Aconteceu em Guernica o primeiro bombardeio de uma população civil, obra da aviação alemã em abril de 1937. Picasso registrou e denunciou o massacre na sua pintura mais famosa.A guerra civil espanhola atraiu artistas de todo o mundo. George Orwell foi um deles. Eric Blair, seu nome verdadeiro, era socialista e se interessou desde o começo pelo conflito. Em dezembro de 1936 chegou à Espanha como repórter, mas logo trocou o bloco e a caneta pelo uniforme. Ou “multiforme”, como ele mesmo disse, porque nenhuma farda era igual a outra. Foi atingido por um tiro no pescoço, o que causou uma paralisia no lado esquerdo do corpo e perdeu, temporariamente, a voz. Ele conseguiu escapar para a França e voltar para a Inglaterra. Pagou seus tributos escrevendo “Lutando na Espanha (Homenagem à Catalunha)”.Ernest Hemingway foi outro repórter que andou pela Espanha. Entre 1937 e 1938, passou oito meses cobrindo a guerra para jornais americanos. Em 1940 publicou “Por quem os sinos dobram”, livro em que narra a historia de um jovem idealista americano lutando contra o fascismo de Franco. Foi esse livro que abriu as portas da fama para o escritor de “O velho e o mar”. Um dos mestres do fotojornalismo, Robert Capa fez sua foto definitiva na Guerra da Espanha. Andre Malraux foi mais um que se envolveu com a causa dos legalistas.Moe se lembra da guerra como uma experiência terrível. Os sons das batalhas, os pedidos de socorro dos feridos. Cérebros explodindo ao seu lado, a fome, o terror dos ataques e a sensação da morte, tudo isso faz da guerra uma lembrança miserável.Moe voltou para os EUA em 1938 e ainda teve que visitar os hospitais por mais dois anos para recuperar a perna ferida. Os brigadistas que retornaram para casa foram espionados e perseguidos pelo FBI e pelo governo. Durante o período conhecido como Macartismo, logo após a Segunda Grande Guerra, o cerco apertou. Os veteranos da Brigada Abraham Lincoln foram considerados subversivos, faziam parte da ameaça vermelha que pairava sobre os EUA nas ondas da guerra fria.A Brigada se orgulha de ter sido a primeira unidade militar americana a congregar negros e brancos. Um negro, Oliver Law, chegou a ser um dos comandantes. Não voltou para contar sua história, morreu na Espanha, assim como outros 800 americanos que embarcaram na causa republicana.Hoje ainda existem 70 brigadistas vivos e ativos. Nas manifestações anti-guerra do Iraque em NY, eles fazem sucesso. Ganham aplausos e beijos e são requisitados para fotos. Moe acredita que os republicanos lutaram a guerra justa, a chamada “boa luta”. Já o Iraque é só uma disputa pelo petróleo. É por isso que os EUA estão lutando lá, completa o brigadista.Moe Fishman, 89 anos, exibe um cansaço histórico de quem viu o mundo em guerra aos 21 anos de idade e continua vendo a mesma cena até hoje. Mas, se depender dele, o grito de Dolores ainda está valendo: No pasarán!

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