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Democracia feita de sangue

6/4/2006
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Ronaldo Brasiliense*

Feliz o povo que tem uma imprensa livre, sem mordaças. Mas reconheço que nunca acreditei muito nessa propalada liberdade de imprensa aqui no Brasil. Comecei a trabalhar como repórter durante a ditadura militar.

Trinta anos depois, continuo achando que a liberdade de escrever sobre o que quiser, contra quem quer que seja, todo o tempo, o tempo todo, acaba quando os interesses de seu patrão são contrariados. O patrão, no caso, são os donos dos grandes conglomerados da imprensa brasileira. Fui censurado inúmeras vezes. Muitas vezes me calei, por covardia, medo de perder o emprego, de entrar numa suposta e secreta "lista negra" de jornalistas que não conseguiam emprego em lugar nenhum por serem "criadores de caso".

Sempre fui um deles. Mas até hoje não vi em nenhum jornalão ou revista nacional, ou mesmo nas grandes redes de televisão, a repercussão da denúncia feita pelo padre Ricardo Rezende, em livro já editado, de que o Bradesco e a Volkswagen exploraram trabalho escravo na Amazônia. Os interesses publicitários falaram mais alto. Quando não são os interesses publicitários, são os políticos. Ou, então, as famosas questões pessoais.

Esse desabafo é só para antecipar as previsões para a campanha eleitoral que se aproxima (e que já começou, aliás) e promete ser uma das mais sujas dos últimos anos. Vai sobrar para todo mundo, sem distinção.

O presidente Lula tem o lombo duro, já apanhou muito ao longo dos últimos 25 anos. Mas pode se preparar, daqui até outubro virá muito chumbo de grosso calibre. Aquele papo furado do "Lula paz e amor", do Duda Düsseldorf Mendonça não cola mais. Já até imagino a combativa companheira senadora Heloísa Helena (Psol-AL), em debate na televisão, questionar Lula sobre a presença de Waldomiro 1% do Cachoeira Diniz no quarto andar do Palácio do Planalto. E sobre a demissão dos superministros José Dirceu e Antonio Palocci.

Temas espinhosos como mensalão, quebra do sigilo bancário do caseiro Nildo, os milhões de reais despejados pela Telemar nas contas do Fábio Lulinha e o aparelhamento do Estado pelos petistas virão à tona, sem subterfúgios.

O chuchu tucano Geraldo Alckmin, que conseguiu sepultar todas as tentativas de criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) na Assembléia Legislativa de São Paulo em seus mais de cinco anos de governo (mais de um ano que governou após a morte de Mário Covas e quase quatro anos de mandato, eleito pelos paulistas em 2002), também não ficará imune aos bombardeios.

A campanha ainda está incipiente, mas Alckmin já vem sendo alvo de ataques com os contratos publicitários da Nossa Caixa paulista e com os 400 vestidos presenteados pelo estilista quase famoso à dona Lu Alckmin, que a imprensa se apressa em transformar numa Imelda paulistana. Lembremos: Imelda, ex-mulher do ditador das Filipinas Ferdinando Marcos, ficou famosa por possuir 4 mil pares de sapato, entre outras extravagâncias.

Vai sobrar para todo mundo, repito. Não vai ter aquela moleza de caixa dois sem controle como em eleições passadas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a imprensa, a sociedade civil devem atuar mais do que nunca na fiscalização para evitar que o abuso do poder econômico mais uma vez prevaleça nas urnas. Não à compra de votos; não ao transporte gratuito para o eleitor; não ao loteamento de cargos, não ao fisiologismo.

Muitos candidatos vão sangrar daqui até as eleições de outubro. E é bom que sangrem, para o bem da democracia.

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