Na manhã da última quinta-feira (5), uma sessão solene do Congresso Nacional prestava uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado hoje (8). No comando da solenidade, o presidente do Senado (e do Congresso), José Sarney (PMDB-AP) fazia as vezes da abertura, ladeado pelo presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), quando passou a palavra ao colega. Temer contestou a Bíblia e a idéia de que a mulher – no caso, Eva – foi a responsável pela expulsão do casal original. “A mulher nos conduz ao paraíso”, disse um garboso Temer, recebendo aplausos calorosos do plenário da Alta Casa – repleto de mulheres. Ao retomar a palavra, Sarney foi além: “A mulher é o próprio paraíso”, disse, sem o cacoete “Don Juan” do companheiro de partido. Os apupos, desta vez, estavam bem menos entusiasmados. Bons rapazes, nossos excelentíssimos peemedebistas.
A passagem descrita acima foi presenciada por este redator – cujas férias em curso não eliminaram a mania de fuçar as amenidades do nosso egrégio Parlamento. Foi quando veio o estalo: a menção à desdita no Éden caía como uma luva em uma intenção que semeio desde o dia 8 de março do ano passado, quando o Congresso em Foco fez não uma “simples homenagem, mas faz uma verdadeira declaração de amor àquelas que tornam menos árdua a existência”. Trata-se de uma citação ao poema “A alvorada do amor”, de Olavo Bilac, no texto “Flores em vocês” – no qual, entre outras referências (e reverências) a mestres da valorosa cortesia à mulher, registra-se uma estrofe da poesia – a mais bela já escrita, com todo o respeito a Monsenhor Vinicius e Lorde Buarque.
Como comentamos no texto supracitado, Bilac se pôs na pele do Adão e o imaginou em franca revolta contra o fato de Deus – nada mais do que Deus, com todo o peso da Palavra – tê-lo “expulsado”, junto com a amada Eva, do paraíso. E só porque eles ousaram se amar, como brada o Adão de Bilac. “Que importa Deus? Desata, como um véu, sobre a tua nudez a cabeleira!”, fustiga o “herege” homem primeiro. E é nisso que consiste tal estalo: o nobilíssimo Michel Temer reforçou a idéia de publicar, na íntegra, e não em pílulas, a lírica loa de Bilac à mulher. Um libelo ao amor pelas flores de carne. Ei-la mais abaixo, caro leitor, integralmente. Sim, na íntegra, de forma a dispensar alongamentos textuais por parte deste que vos fala – relembrando, sem querer homenagear, mas reafirmar o amor à mulher em nova declaração. Porque as mulheres são homenageadas dia a dia por homens de fato. Porque mulheres como a atriz e poeta Elisa Lucinda, a assistente social Neide Viana Castanha e a saudosa ex-primeira-dama Dona Ruth Cardoso, três das ganhadoras da edição de 2009 do Prêmio Bertha Lutz, entregue na sessão especial acima mencionada, são elas mesmas tributos à condição feminina. Porque “homenagens” não faltarão neste dia, e nem sempre sinceras ou com o devido propósito. Vide o comércio... Aliás, no momento em que escrevia, com a TV a transmitir propagandas entre um e outro bloco de telejornal (repórter de férias só escreve com a televisão ligada...), eis que surge uma lépida Carolina Dieckmann, a atriz, em gracioso colóquio com a colega não menos fagueira Taís Araújo, quando a linda negra diz: “Todo dia é o Dia Internacional da Mulher”. Haja dinheiro para 365 mimos (em ano bissexto, 366!) e verve para textos diários. Piadas sem graça como essa e joguetes comerciais à parte, aquilo me soou como um recado transcendental, metafísico mesmo – e eu, sentindo-me um agraciado, impelido pela coincidência (existem?), fiz questão de registrar uma ou outra informação que li ou testemunhei nesses dias de fim de verão. Só como mero registro, sem enésimas intenções:- A 2ª vice-presidente do Senado, Serys Slhessarenko (PT-MT), presente àquela solenidade de quinta-feira, tinha em mãos à Mesa uma pesquisa que recebera no dia anterior. Um dos dados do estudo: na média, o salário das mulheres no Brasil ainda é 34% menor que o dos homens. Alguém pode me explicar o porquê?
- O mesmo Congresso que “homenageia” as mulheres, com direito a cortejos sutis por parte de seus comandantes, traz em si embutida uma lamentável realidade: na Câmara, são apenas 46 deputadas entre as 513 vagas, o que equivale a 9%. Na Alta Casa a aridez é maior: dos 81 senadores, apenas dez são mulheres (12,3%). E em breve serão apenas nove, ao que tudo indica: Roseana Sarney (PMDB-MA) deve ocupar o lugar de Jackson Lago, que teve o mandato de governador do Maranhão cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Sintomático, não?
- Sobre os números acima, o jornalista Nilmário Miranda, que também preside a Fundação Perseu Abramo, faz pertinente comentário em seu texto “Faltam mulheres na política”, publicado na edição carnavalesca de 24 de fevereiro do jornal O Globo. Ao defender maior participação das mulheres na área política, como o título sugere, Nilmário diz que “são tão poucas as mulheres nesses círculos que suas eventuais falhas e fracassos reforçam a exclusão. (...) A desproporção de representação política fica mais exacerbada quando se toma a participação das mulheres negras e indígenas, as mais pobres entre os pobres”.
- Para mudar de assunto, e como mero lembrete: de férias no Rio de Janeiro, vi de perto o triunfo apoteótico da G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro (sempre achei imponente a sigla, daí ter feito questão de registrá-la...). À frente, dos milhares de carnavalescos, uma mulher. Aliás, duas das escolas de samba campeãs neste ano têm como presidentes duas aguerridas mulheres: Regina Celi Fernandes Duran (Salgueiro) e Eli "Chininha" Gonçalves (Estação "Primeiríssima" de Mangueira). Aliás, dispensemos comentários sobre o papel das mulheres na Marquês de Sapucaí.
- Enfim, agora para continuar no assunto, um voto de protesto contra a excelente crônica “G.R.E.S Frankfurt”, de Arthur Dapieve, publicada no mesmo O Globo, só que na edição de 20 de fevereiro. O brilhante jornalista, de texto sintaticamente irretocável, põe o bloco na rua contra as mulheres, digamos, fortinhas. E exalta as mulheres de outrora, lindas em sua exuberante delicadeza e sinceridade corporal, com “corpos tão bonitos quanto possíveis e uma graça que não resistiria aos ferros da musculação”. Adoro-as, caro Arthur, mas não ignoro o esforço das “gladiadoras”. Ademais, qual o intuito de chamá-las de “cultoras da estética travesti”. Mulher é mulher seja qual for o figurino. E jamais se confundirá com travesti – com todo o respeito a estes (as), como diria seu colega Ancelmo Gois.