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Indústria e tecnologia
9/12/2025 12:00
A nova corrida global por semicondutores redefine o equilíbrio de poder no mundo digital — e o Brasil começa a se mover para não ficar de fora. Os semicondutores são o "cérebro" da economia contemporânea. Presentes praticamente em tudo (de smartphones a sistemas de defesa), eles se tornaram o insumo mais estratégico do século XXI. Controlar sua produção significa controlar o futuro da tecnologia, da segurança e da inovação.
A disputa por chips, entretanto, não é nova. Desde a Guerra Fria, os semicondutores figuram no centro da corrida tecnológica entre potências. Na época, impulsionaram a indústria aeroespacial e os avanços militares. O que vivemos hoje é uma nova etapa da "guerra dos chips", reconfigurada pela inteligência artificial, pela Internet das Coisas (IoT) e pela crescente dependência de cadeias globais altamente concentradas.
Os Estados Unidos reagiram com o CHIPS and Science Act, que destina mais de US$ 50 bilhões à reindustrialização do setor, visando reduzir a dependência de fábricas asiáticas e conter a expansão tecnológica chinesa. A China, por sua vez, intensificou sua política de autossuficiência, investindo maciçamente em design, produção e encapsulamento de chips. Taiwan — sede da TSMC, líder mundial na fabricação de semicondutores — tornou-se o epicentro dessa disputa de poder geoeconômico.
Recentemente a China anunciou restrições à exportação de terras raras, insumos abundantes naquele país e que são fundamentais para a fabricação de semicondutores e equipamentos de alta tecnologia. Embora tenha recuado pouco depois, o movimento expôs a disposição de Pequim de usar esses minerais estratégicos como instrumento de influência internacional. Mesmo revertida, a medida expôs a vulnerabilidade das cadeias globais e reforçou a dimensão crítica desses minerais na economia digital, enfatizando a urgência de diversificação de fornecedores.
Para o Brasil esse cenário representa uma oportunidade extraordinária. O nosso país possui reservas expressivas de terras raras, além de potencial logístico e energético para integrar a nova geopolítica da tecnologia. Ao articular políticas industriais de longo prazo, o Brasil pode não apenas produzir chips, mas também fornecer os recursos que alimentam a indústria global da inovação.
No Brasil o tema não é novo. Os primeiros esforços brasileiros voltados especificamente ao setor de semicondutores ganharam forma nos anos 2000, A criação do Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC) representou o passo mais estruturado dessa fase, reunindo competências em design, encapsulamento e pesquisa aplicada. Apesar dos avanços iniciais, a falta de escala industrial, de investimentos contínuos, de um programa de incentivos fiscais eficaz e de condições competitivas internacionais dificultou a consolidação de uma cadeia produtiva robusta no país.
Agora, entretanto, o cenário parece ser distinto. O Brasil começa a consolidar uma estratégia mais consistente de inserção competitiva, articulando política industrial, inovação e soberania tecnológica. Nos últimos anos, o governo federal passou a tratar os semicondutores como uma área importante dentro da sua agenda de reindustrialização. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) vem estruturando a Política Nacional de Semicondutores, integrando universidades, centros de pesquisa e empresas em torno de uma agenda comum. Esse movimento busca corrigir falhas históricas de descontinuidade, promover pesquisa aplicada e criar uma base tecnológica capaz de sustentar um ecossistema competitivo e alinhado às exigências globais de segurança e autonomia digital.
A Lei 14.968/2024, que instituiu o Brasil Semicondutores, marcou uma inflexão significativa nessa trajetória. Mais do que prorrogar incentivos existentes, a legislação modernizou e ampliou o antigo regime do PADIS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores), incorporando atividades de design, serviços tecnológicos, softwares integrados à manufatura, P&D e até exportação de bens e serviços da cadeia de semicondutores. Criou também mecanismos de financiamento e crédito via BNDES, Finep e outras agências de fomento, permitindo a automação, modernização e expansão de plantas industriais. Com incentivos assegurados pelo menos até 2029 e um escopo mais abrangente, o Brasil passa a oferecer previsibilidade e escala — condições essenciais para atrair investimentos globais e estruturar uma estratégia de soberania tecnológica em um dos setores mais estratégicos da economia atual.
Embora persistam desafios — como escala industrial, infraestrutura e estabilidade regulatória — o cenário atual reúne condições inéditas para que o país transforme vantagem natural em capacidade tecnológica, inovação e soberania digital. Em um ambiente geopolítico marcado por disputas tecnológicas e vulnerabilidade das cadeias globais, permanecer dependente de chips importados significa aceitar limites impostos por terceiros. O Brasil tem, portanto, uma oportunidade histórica de reposicionar-se em uma cadeia que molda não apenas a economia global, mas a distribuição de poder no século XXI.
A consolidação desse caminho exige visão holística, coordenação institucional e diplomacia tecnológica. Parcerias internacionais podem acelerar a transferência de tecnologia e integrar o Brasil às cadeias globais de valor. O futuro da indústria de semicondutores brasileira dependerá da capacidade de unir Estado, academia e iniciativa privada em torno de um propósito comum — transformar potencial em protagonismo.
Semicondutores e soberania digital formam hoje o novo desafio industrial do Brasil — e enfrentá-lo é decidir, com maturidade, quem queremos ser no século XXI.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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