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Tecnologia
6/1/2026 13:00
O Reuters Institute Digital News Report 2025 confirma que, entre jovens brasileiros, o consumo de notícias por recomendação passiva superou a busca ativa nas redes sociais. O modelo de engajamento privilegia choque, identidade de grupo e pertencimento, não veracidade.
No Brasil, a escala amplia o risco. Dados consolidados em 2025 indicam que o país ultrapassou 110 milhões de usuários ativos em plataformas de vídeo curto. A política passou a circular como subproduto do entretenimento algorítmico, diluída entre memes, recortes de vídeo e comentários emocionais.
Em disputas decididas por margens estreitas, pequenas variações de visibilidade em nichos específicos produzem efeitos eleitorais relevantes. Esse fenômeno cria a chamada margem algorítmica, quando a repetição direcionada, em janelas curtas, desloca preferências sem debate público proporcional.
O desafio deixou de ser apenas de formato e passou a envolver conteúdo e direção política. Pesquisa da AtlasIntel, em parceria com a Bloomberg, divulgada em dezembro de 2025, indica uma quebra de paradigma geracional no Brasil. Pela primeira vez, quanto mais jovem o eleitor, mais à direita tende a se posicionar. O mito histórico da juventude naturalmente progressista não resiste aos dados recentes.
Entre eleitores de 16 a 24 anos, o levantamento mostra avanço expressivo de candidaturas associadas ao discurso antiestablishment. Embora o presidente Lula ainda lidere nesse grupo etário, com cerca de 33% das intenções, nomes fora do eixo tradicional de Brasília, vinculados à nova direita e a movimentos de renovação, aproximam-se de 20% das preferências. Não se trata de adesão ideológica estruturada, mas de rejeição a um sistema percebido como distante, lento e incapaz de responder.
Esse eleitor jovem consome política em fragmentos curtos, atravessados por emoção e pertencimento. A política não chega como programa, chega como reação. Pesquisas qualitativas indicam que a Geração Z valoriza interação direta, respostas rápidas e sensação de presença. Candidatos que dominam microsegmentos, dialogam em tempo real e ocupam comunidades digitais horizontais tendem a superar campanhas baseadas apenas em publicidade tradicional.
Esse ambiente favorece uma estratégia deliberada de desinformação baseada na estética do vazamento. Não se trata de uma falha do sistema, mas do próprio modelo de negócios. O risco não reside no deepfake tecnicamente perfeito, mas no vídeo imperfeito, com imagem instável e áudio precário, que simula espontaneidade e ativa prova social imediata.
Essa forma é escolhida porque o algoritmo a recompensa. Soma-se a isso a ilusão de competência digital entre jovens, a crença de que sabem identificar falsificações, o que reduz a vigilância contra conteúdos sintéticos. Essa percepção de realismo torna o material quase imune aos desmentidos tradicionais, já que a correção técnica raramente acompanha a velocidade da crença emocional.
A integridade do hardware eleitoral contrasta com a erosão silenciosa da vontade do eleitor no ambiente algorítmico.
Casos recentes ilustram o padrão. Entre 2023 e 2024, investigações jornalísticas brasileiras documentaram o uso de áudios sintéticos para difamação em redes locais de mensageria. Em 2025, com o custo de geração de deepfakes de áudio próximo de zero, ataques em massa tornaram-se viáveis até para atores sem estrutura profissional.
No ciclo eleitoral norte-americano de 2024, campanhas altamente segmentadas exploraram emoções específicas de nichos juvenil. Na França, no mesmo período, formatos curtos tiveram papel decisivo na mobilização política jovem. O fenômeno é global, mas assume contornos locais conforme o ecossistema de plataformas.
A tecnologia oferece diagnóstico, mas a resposta é política e regulatória. Iniciativas como o padrão Coalition for Content Provenance and Authenticity (C2PA), que registra a procedência e o histórico de edição de conteúdos digitais, funcionam como um registro de identidade do arquivo.
O avanço é relevante, mas limitado. Sem subsídios ou obrigatoriedade legal, o mecanismo tende a criar uma democracia premium, na qual apenas campanhas com maior orçamento conseguem comprovar autenticidade, enquanto candidaturas menores permanecem expostas a ataques sintéticos baratos e difíceis de neutralizar.
Essa assimetria afeta diretamente a paridade de armas. A democracia mediada por algoritmos favorece o capitalismo de dados eleitorais. A eficácia de uma campanha deixa de ser medida apenas por propostas ou articulação política e passa a depender da capacidade de mapear comportamentos, explorar emoções e saturar nichos específicos. O prejuízo não recai apenas sobre o eleitor. Ele distorce a competição política e compromete o princípio da igualdade de condições.
O efeito colateral mais grave é o voto silo. Jovens da mesma idade, da mesma cidade e com problemas semelhantes passam a viver em realidades informacionais incompatíveis. O algoritmo constrói bolhas estanques, onde narrativas não se cruzam e fatos deixam de ser compartilhados. O maior risco de 2026 não é a vitória de um campo político específico, mas a fragmentação da base mínima de realidade comum que sustenta o dissenso democrático.
No Brasil, esse debate ocorre sob tensão crescente entre o TSE e as plataformas digitais. O tribunal ampliou estruturas de enfrentamento à desinformação, enquanto empresas resistem a obrigações mais robustas de transparência algorítmica. Em 2026, a checagem exclusivamente humana será insuficiente diante do volume e da velocidade do ruído sintético. Sem instrumentos técnicos integrados, o sistema reage sempre após o dano.
A resposta exige coordenação institucional. O Judiciário Eleitoral precisa de ferramentas que operem em tempo real. O Congresso Nacional deve atualizar o marco regulatório para tratar dados sintéticos, recomendação automática e transparência de forma objetiva. A ausência de uma política nacional de letramento digital amplia o problema e transforma a ilusão de competência em risco estrutural para a democracia.
O Estado brasileiro não pode atuar como espectador passivo da engenharia social das big techs. A liberdade de expressão não confere às plataformas o direito de manipular a atenção do eleitor por meio de sistemas opacos de recomendação. Em 2026, não estará em teste a urna eletrônica, mas a capacidade das instituições brasileiras de impedir que o livre arbítrio seja substituído por fluxos de conveniência digital.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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