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Tecnologia
9/1/2026 13:00
Quando se fala em semicondutores no Brasil, é comum que a conversa se volte imediatamente para fábricas, incentivos fiscais e políticas industriais. Esses elementos são importantes. Contudo, reduzir a soberania digital a dispositivos e equipamentos, sem reconhecer quem os projeta, fabrica e opera, é um erro estratégico. A soberania tecnológica desponta, na verdade, onde o conhecimento humano encontra a infraestrutura física. É nesse ponto que a educação e o capital humano ganham protagonismo.
Nesse sentido, uma pergunta central para o Brasil não deveria ser apenas "como atrair e implementar fábricas?", mas "quem irá projetar, operar, adaptar e evoluir essas tecnologias?". Uma fábrica de semicondutores sem profissionais qualificados corre o risco de se tornar uma estrutura ociosa ou excessivamente dependente de expertise estrangeira, o que fragiliza justamente a soberania que se pretende construir.
A indústria de semicondutores é, antes de tudo, uma indústria intensiva em conhecimento. Projetar, fabricar, testar e integrar circuitos exige engenheiros, físicos, químicos, cientistas da computação e especialistas em materiais, software e automação. Cada elo da cadeia carrega décadas de acúmulo de conhecimento científico e tecnológico. Países que hoje lideram o setor, como Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul, não chegaram a esse patamar apenas por decisões industriais recentes, mas por investimentos consistentes e de longo prazo em educação, pesquisa e formação avançada.
As universidades e centros de pesquisa brasileiros ocupam, portanto, um papel estratégico nesse debate. O país possui competências relevantes em áreas como microeletrônica, computação, engenharia elétrica e ciência dos materiais, distribuídas em universidades públicas, privadas e institutos de pesquisa. Ao longo das últimas décadas, esses ambientes formaram profissionais que hoje atuam tanto no Brasil quanto no exterior, inclusive em empresas globais do setor.
O desafio está menos na inexistência de capacidades e mais em sua escala, continuidade e articulação com a estratégia nacional. A formação de especialistas em semicondutores ainda é limitada diante da complexidade da cadeia produtiva. Além disso, a interação entre universidades, centros de pesquisa e indústria permanece fragmentada, muitas vezes dependente de iniciativas pontuais e não de políticas estruturadas de Estado.
Tratar educação e formação profissional como eixos centrais da política industrial é, portanto, indispensável. Programas educacionais voltados à microeletrônica já em andamento no Brasil, como o Programa CI Digital e o CI Expert, são fundamentais para a formação de projetistas e especialistas em circuitos integrados. Graduações fortalecidas, mestrados e doutorados alinhados às demandas tecnológicas, programas de formação técnica especializada e iniciativas de educação continuada também devem integrar qualquer projeto consistente de soberania digital.
Outros países ao redor do mundo reforçam essa ideia de que uma política de semicondutores não é robusta se não der igual ênfase à educação e à capacitação profissional. A Malásia, por exemplo, adotou uma estratégia nacional de longo prazo para formar profissionais altamente qualificados e apoiar sua crescente indústria de semicondutores, inclusive por meio de parcerias em design de circuitos integrados e tecnologias avançadas, com a meta de treinar dezenas de milhares de trabalhadores até 2030.
Taiwan, potência global no setor, investe intensamente em programas educacionais e iniciativas de formação de talentos desde a educação básica até o ensino superior, além de ações de internacionalização e programas de imersão para atrair estudantes interessados em tecnologias de semicondutores.
Nos Estados Unidos, universidades vêm lançando programas multidisciplinares de pós-graduação que combinam formação em semicondutores com competências profissionais amplas, preparando engenheiros e pesquisadores para uma indústria em rápida expansão.
Esses exemplos reforçam que investir em pessoas é tão decisivo quanto investir em infraestrutura. Sem dúvida, a instalação de fábricas e centros de pesquisa e desenvolvimento é relevante para a autonomia tecnológica. Mas quem opera, projeta e inova essas tecnologias? A resposta só pode ser: pessoas com conhecimento sólido e atualizado.
É importante reconhecer que nem toda estratégia nacional exige competir na fronteira tecnológica mais avançada. Chips maduros, amplamente utilizados em setores como o automotivo, industrial e médico, também são críticos e demandam competências específicas. Mesmo nesses segmentos, entretanto, o fator humano permanece central. Adaptar processos, garantir qualidade, inovar incrementalmente e responder a demandas locais exige conhecimento especializado e mão de obra qualificada.
Outro ponto decisivo é a atração e retenção de talentos. O Brasil enfrenta, há anos, a perda de profissionais altamente qualificados para outros países, onde encontram melhores condições de pesquisa, remuneração e perspectivas de carreira. Formar engenheiros e pesquisadores sem criar ambientes atrativos para sua permanência significa, na prática, subsidiar a soberania tecnológica de outras nações.
Políticas voltadas à retenção de talentos passam por diferentes dimensões: estabilidade e continuidade em projetos estratégicos, ambientes de pesquisa bem equipados, integração entre academia e indústria, reconhecimento das carreiras técnico-científicas e oportunidades reais de impacto e inovação no país. A cooperação internacional é desejável e necessária, mas deve estar orientada também ao retorno de conhecimento e à consolidação de competências locais.
Ao colocar o capital humano no centro da discussão, amplia-se a compreensão de soberania digital. Ela deixa de ser apenas uma questão de infraestrutura produtiva ou de autonomia econômica e passa a ser entendida como uma construção social, educacional e científica. Países soberanos digitalmente são aqueles capazes de formar, mobilizar e reter pessoas que dominem tecnologias críticas e saibam adaptá-las às suas realidades.
O debate sobre semicondutores no Brasil precisa, portanto, avançar para além do curto prazo e das soluções exclusivamente industriais. Incentivos fiscais, marcos legais e investimentos em fábricas são muito importantes, mas só produzirão efeitos duradouros se estiverem ancorados em uma estratégia consistente de formação de pessoas. Sem esse alicerce, qualquer avanço será frágil e dependente.
Em última instância, a soberania digital brasileira não será medida apenas pelo número de fábricas instaladas ou pelo volume de chips produzidos, mas pela capacidade do país de gerar conhecimento, formar talentos e sustentar uma base humana capaz de inovar ao longo do tempo. Sem chips, não há soberania digital. Mas, sem pessoas capazes de projetá-los, fabricá-los e aprimorá-los, os chips simplesmente não existirão.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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