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Tecnologia
29/1/2026 9:00
Conversas com chatbots de inteligência artificial conseguem mudar a intenção de voto de eleitores em disputas reais. É o que mostra um estudo publicado na revista Nature, que testou o poder de persuasão desses sistemas em experimentos controlados.
Em casos extremos, uma única interação chegou a produzir variações de intenção de voto da ordem de quinze pontos percentuais, com efeitos próximos a dez pontos entre eleitores inicialmente contrários.
Esses resultados não são meras curiosidades acadêmicas. São sinais de que a tecnologia, se usada sem regras, pode alterar a dinâmica do debate público. Por isso, cabe ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) antecipar medidas práticas e proporcionais antes das eleições de 2026.
Chatbots de IA já influenciam as intenções de voto, mas o TSE precisa agir antes das eleições de 2026.
A evidência exige leitura atenta, mas não precisa ser técnica para ser compreendida. Os pesquisadores usaram procedimentos que garantiram precisão, como amostras randomizadas, medições antes e depois das conversas e checagem humana das afirmações dos chatbots.
Esses detalhes metodológicos são essenciais, pois permitiram avaliar a real magnitude do efeito. Qualquer afirmação sobre influência sem esses dados se torna retórica. Medidas como mudança na confiança nas informações, empatia percebida e intenção de voto foram combinadas com indicadores de engajamento, como duração da conversa e número de mensagens, para compreender não apenas se, mas como e para quem a persuasão funciona.
Os padrões observados são claros e preocupantes. Mensagens que exploram argumentos técnicos sobre políticas públicas tendem a ser mais persuasivas do que ataques pessoais, tornando a influência automatizada mais sutil e difícil de identificar.
Houve assimetrias factuais. Modelos treinados em ambientes com mais desinformação reproduziram vieses e cometeram mais erros em determinados temas. A heterogeneidade do efeito é real. Ele costuma ser maior entre eleitores com menor escolaridade e entre aqueles com exposição política moderada. Nem sempre a falsidade é o motor da mudança. A combinação de personalização, narrativa e autoridade percebida mostrou-se decisiva.
O risco para o processo eleitoral decorre da escala e da opacidade. Microsegmentação automatizada permite adaptar mensagens a perfis individuais, explorando vulnerabilidades cognitivas e informacionais. Sem rotulagem clara e sem auditoria, eleitores não sabem quando estão conversando com uma máquina nem têm meios fáceis de verificar afirmações. Em um cenário sem regras, atores mal-intencionados ou negligentes podem influenciar grupos específicos com baixo custo e alta eficiência, ampliando desigualdades no acesso à informação de qualidade.
A resposta pública deve ser técnica, proporcional e urgente. São necessárias medidas exequíveis que o TSE pode adotar antes da eleição deste ano. Rotulagem obrigatória de interações políticas automatizadas, auditoria independente de modelos usados em campanhas com relatórios públicos que incluam taxas de erro factual por tema e testes de robustez por subgrupo, limites à microsegmentação que proíbam segmentações baseadas em vulnerabilidades psicológicas ou dados sensíveis, protocolos de cooperação com plataformas digitais e centros de checagem para detecção e resposta rápida, e exigência de transparência metodológica por parte das campanhas, com apêndices que descrevam modelos, fontes de dados e amostras de diálogos para revisão acadêmica e jornalística.
Essas medidas não cerceiam a inovação. Ao contrário, orientam seu uso responsável. Rotular educa eleitores, auditorias melhoram modelos, limites à microsegmentação reduzem exploração de fragilidades, cooperação com plataformas acelera respostas a abusos e transparência fortalece confiança pública. Políticas proativas reduzem danos e aumentam a resiliência informacional da sociedade.
Além da regulação, é preciso investir em pesquisa independente e replicações. O estudo que motivou este alerta é robusto, mas a ciência exige repetição em contextos diversos. O TSE e agências de fomento devem apoiar estudos que testem durabilidade do efeito, replicações em outros sistemas eleitorais e a publicação de resultados nulos para evitar viés de publicação. Só com um acervo amplo de evidências será possível calibrar regras eficazes e proporcionais.
A comunicação pública também importa. Jornalistas, plataformas e pesquisadores devem traduzir achados técnicos em orientações práticas para eleitores, como identificar interações automatizadas, checar afirmações e desconfiar de mensagens excessivamente personalizadas. A confiança do eleitor é o ativo mais valioso da democracia. Preservá-la exige transparência, evidência verificável e mecanismos de responsabilização. A escolha é clara. É preciso regular com inteligência ou aceitar que a tecnologia, sem supervisão, defina as regras do debate democrático, corroendo a autonomia do eleitor.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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