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Democracia
15/1/2026 11:00
Vivemos, no Brasil contemporâneo, um processo evidente de banalização da palavra "fascista". O termo, que deveria designar uma ideologia política historicamente delimitada, responsável por alguns dos regimes mais autoritários e violentos do século XX, passou a ser usado como um xingamento genérico, um rótulo moral aplicado a qualquer pessoa, grupo ou governo que não se alinhe a determinadas posições ideológicas. O resultado desse uso indiscriminado é grave: quanto mais se fala em fascismo, menos se compreende o que ele realmente significa.
Não é exagero afirmar que a imensa maioria da população brasileira não saberia definir fascismo de forma minimamente rigorosa. Para muitos, fascismo virou sinônimo de conservadorismo, discurso duro, antipatia pessoal, governo impopular ou simples discordância política. Essa confusão conceitual não é fruto do acaso, mas de anos de uso irresponsável do termo no debate público, especialmente em ambientes acadêmicos, culturais e midiáticos.
Nesse contexto, declarações como a do ator Wagner Moura, ao afirmar publicamente que o Brasil teria vivido um "governo fascista" durante a presidência de Jair Bolsonaro, são emblemáticas. Moura pode, sem dúvida, ser um ator talentoso e reconhecido internacionalmente. Contudo, talento artístico não confere autoridade automática em história, ciência política ou teoria do Estado. Quando figuras públicas, com grande alcance simbólico e midiático, utilizam conceitos históricos de forma leviana, contribuem não para o esclarecimento, mas para a desinformação.
Fascismo não é metáfora, não é força de expressão e não é hipérbole retórica. Trata-se de uma ideologia política bem definida, surgida na Itália sob Benito Mussolini, marcada por elementos claros: supressão das liberdades individuais, censura sistemática à imprensa, partido único, culto ao líder, perseguição organizada a opositores, uso institucionalizado da violência, eliminação da oposição política e destruição das instituições democráticas. Regimes fascistas não convivem com imprensa livre, não toleram oposição e não permitem alternância de poder.
À luz dessa definição, classificar o governo Jair Bolsonaro como fascista não se sustenta em uma análise objetiva dos fatos. Bolsonaro pode ser criticado por seu estilo confrontacional, por declarações polêmicas, por escolhas administrativas ou por sua retórica — tudo isso faz parte do debate democrático. No entanto, durante seus quatro anos de mandato, o Brasil manteve imprensa livre e atuante, com críticas diárias e contundentes ao governo; nenhum grande veículo de comunicação foi fechado ou censurado; o Congresso Nacional funcionou plenamente, muitas vezes em oposição ao Executivo; o Judiciário manteve independência e protagonismo; opositores políticos se manifestaram livremente; e eleições livres ocorreram, culminando na derrota do próprio presidente.
Esses fatos são incompatíveis com qualquer definição séria de fascismo. Ignorá-los não é posicionamento político — é distorção da realidade.
O problema se agrava quando a acusação de fascismo passa a ser usada como instrumento de silenciamento. Em universidades federais, que deveriam ser espaços privilegiados do pluralismo, do debate racional e da liberdade intelectual, observa-se com frequência a hostilização de alunos, professores ou convidados que não compartilham da visão política dominante. Em vez de argumentos, surgem rótulos; em vez de debate, intimidação. Discordar passa a ser tratado como falha moral, não como exercício legítimo do pensamento crítico.
Há aqui uma ironia profunda: em nome do combate ao "fascismo", pratica-se a intolerância. Em nome da democracia, tenta-se constranger, excluir ou calar quem pensa diferente. Esse comportamento não fortalece a democracia; ao contrário, corrói seus fundamentos, que são o pluralismo, a liberdade de expressão e o respeito à divergência.
Chamar tudo de fascismo tem um efeito perverso adicional: desarma a sociedade contra ameaças reais. Se qualquer governo impopular é fascista, se qualquer discurso conservador é fascismo, se qualquer divergência é autoritarismo, então o termo perde seu peso histórico e sua função de alerta. Quando o verdadeiro autoritarismo surge, já não há linguagem precisa para identificá-lo.
O Brasil não precisa de slogans fáceis nem de aplausos automáticos em palcos internacionais. Precisa de rigor intelectual, honestidade conceitual e responsabilidade no uso das palavras. Antes de acusar, é preciso compreender. Antes de falar em público, é necessário estudar. E antes de rotular adversários, é fundamental lembrar que a democracia não se sustenta com gritos, mas com argumentos.
Fascismo é um fenômeno histórico concreto, não uma opinião. Tratar o termo com leviandade não é engajamento político; é ignorância travestida de virtude. Defender a democracia exige, antes de tudo, defender o direito de discordar sem demonizar — inclusive daqueles de quem não se gosta.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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