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MUNDO
21/1/2026 10:00
Independentemente do juízo que se possa fazer do atual governo norte-americano, o fato incontestável é que ele está pondo fim à ordem internacional sob a qual vivemos desde o fim da Segunda Grande Guerra. Com o tempo, uma nova ordem vai se impor, mas não é possível agora prever como ela será.
A ordem que está em fase de decomposição assegurou para países com a localização e a dimensão do Brasil um longo período de paz e de segurança. O poderio militar incontrastável dos Estados Unidos e o conjunto de instituições multilaterais criadas sob sua inspiração e liderança evitaram que conflitos regionais se propagassem além dos seus limites e ainda propiciaram bens públicos globais, tais como a segurança da navegação nos ares e nos mares e regras para o comércio, que produziram a globalização das economias e a maior prosperidade econômica que o mundo conheceu em toda a sua história.
O fim desta ordem está marcado por várias consequências. A primeira é o fim, ou pelo menos a fragilização, das alianças militares explícitas ou implícitas, que se apoiavam no poderio militar americano. Daqui para a frente na Europa, na Ásia e em nosso hemisfério, todos os países terão que ser capazes de se defender militarmente ou, ao menos, dispor de suficiente força desencorajadora, para poder viver em relativa segurança. As forças armadas americanas não serão mais uma espécie de gendarme do mundo ocidental e estarão voltadas para os interesses internos do seu país.
Neste novo mundo é possível que voltem a acirrar-se os conflitos regionais e que questões antes contornadas pelas vias diplomáticas e pelas instituições de governança internacional, evoluam livremente para alguma confrontação militar.
No plano do comércio, cuja expansão tornou os diversos países mais dependentes uns dos outros e mais abertos para a articulação de interesses compartilhados, está sendo inaugurada uma nova fase em que os mais fortes impõem unilateralmente seus interesses. O comércio internacional não será mais uma via de aproximação, mas de luta e competição, sendo matéria fértil para conflitos mais sérios.
No plano propriamente geopolítico, por mais surpreendente que isto possa parecer, a política externa americana está deixando em segundo plano a confrontação estratégica global com a China, reduzindo este conflito apenas à dimensão comercial. Ao mesmo tempo que antagoniza a Índia e a Europa, está movendo seu eixo para o nosso hemisfério, as Américas do Norte, Central e do Sul, concentrando aqui suas ações mais visíveis, inclusive o deslocamento de grandes dispositivos militares.
Uma longa lista de manifestações e de atitudes corroboram o novo pivot da política externa americana: a intenção de transformar o Canadá em estado americano, a ameaça de ações militares em território mexicano para combater os carteis de drogas, o cerco militar à Venezuela, as tarifas sem precedentes impostas às exportações brasileiras e os acordos financeiros e comerciais com a Argentina, que podem resultar numa grave fratura nas regras do Mercosul.
Enquanto as administrações anteriores estavam focadas na região do Indo-Pacífico, onde parece se situar o futuro da economia mundial e a luta pela hegemonia tecnológica, o atual governo americano parece fixado na consolidação de uma área regional de influência, voltando a uma ordem internacional semelhante a que existia antes da Primeira Grande Guerra.
Nosso hemisfério, antes um oásis de tranquilidade externa, pode transformar-se em uma área de turbulências, com os governos regionais buscando alinhamentos externos e envenenando as relações com os seus vizinhos.
Neste cenário, o Brasil tem que repensar urgentemente o papel, a missão e os recursos de suas forças armadas. Nossa tradição de pacifismo e de apoio ao multilateralismo, nos poupou até agora das durezas das corridas armamentistas. No entanto, é imprudente ignorar os sinais que estão à vista.
Nossos gastos militares são modestos e 80% deles se destinam a pessoal ativo e inativo. Investimos quase nada. Não é preciso ser um especialista para avaliar que nossa capacidade de defesa é muito pequena, mesmo diante de nossos vizinhos. Até agora isto foi uma escolha racional, pois nosso país tem carências imensas e grande parte de nossa população vive abaixo de um padrão civilizado de existência. Mas não somos quem escreve a história de nosso tempo e precisamos reagir ao que acontece.
O Brasil tem uma preponderância geográfica e econômica na América do Sul. Precisamos agora ter um poder armado que, pelo menos, corresponda a esta preponderância e cobre um preço alto a quem se proponha a ameaçar a nossa soberania e nosso desenvolvimento.
A atual administração americana não vai durar para sempre. Mas a ordem que foi rompida não deverá ser restaurada nos mesmos termos. Dar ao nosso país a capacidade de se defender e proteger suas riquezas, como o mar territorial e a Amazônia, levará tempo. Precisamos começar agora.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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