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Jornada de trabalho

Escala 6x1: o perigo da pressa e da demagogia

O debate sobre a jornada é legítimo, mas o uso eleitoreiro do tema pelo governo ignora a realidade econômica e empurra o Congresso para uma legislação "Frankenstein".

Davi de Souza

Davi de Souza

23/1/2026 17:00

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É inegável que a discussão sobre a qualidade de vida do trabalhador brasileiro é urgente. A exaustão física e mental é uma realidade palpável em diversas categorias, e o anseio por mais tempo livre é legítimo. No entanto, há um abismo entre o desejo social e a viabilidade econômica, e é justamente nesse vácuo que o populismo floresce. A atual cruzada do governo federal pelo fim imediato da escala 6x1, despida de contrapartidas de produtividade e impulsionada por uma retórica de campanha antecipada, flerta perigosamente com a irresponsabilidade.

Ao transformar uma pauta técnica e complexa em um "nós contra eles", o Palácio do Planalto não busca apenas o bem-estar social, mas uma bandeira de reeleição capaz de mobilizar bases e encurralar o Legislativo. A narrativa construída é simplista e cruel: vende-se a ilusão de que o fim da escala 6x1 depende apenas de vontade política, ignorando que, sem reformas estruturais na CLT e na economia, o resultado pode ser desastroso tanto para quem emprega quanto para quem trabalha.

O setor produtivo e analistas econômicos têm soado o alerta, muitas vezes abafado pelo ruído das redes sociais. Conforme apontado por estudos recentes do FGV IBRE, uma redução abrupta da jornada sem o correspondente aumento da produtividade — que no Brasil estagnou nas últimas décadas — tende a elevar os custos operacionais de forma insustentável. O resultado matemático dessa equação não é o aumento do lazer, mas o aumento da informalidade, a redução de salários reais ou o repasse de custos para a inflação.

Há, ainda, o risco legislativo. A pressa imposta pelo governo Lula e sua base aliada para aprovar o texto a toque de caixa, sob o pretexto de "atender ao povo", ameaça gestar uma "legislação Frankenstein". Setores como o de comércio e serviços, que operam em dinâmicas distintas da indústria, seriam desproporcionalmente afetados. Como bem alertou o deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), em recentes debates sobre o tema, impedir a flexibilidade e impor uma regra única engessa o mercado de trabalho, prejudicando justamente a micro e pequena empresa, que é a maior empregadora do país. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou a proposta como "inoportuna e eleitoreira", alertando para a perda de competitividade em um cenário de estagnação. Na mesma linha, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o setor de transportes (CNT) projetam aumento de custos operacionais que, inevitavelmente, serão repassados ao consumidor final, pressionando a inflação.

Transformar uma pauta complexa em disputa eleitoral empurra o Congresso para uma solução frágil e economicamente arriscada.

Transformar uma pauta complexa em disputa eleitoral empurra o Congresso para uma solução frágil e economicamente arriscada.Fernando Frazão/Agência Brasil

O aspecto mais perverso, contudo, é o político. O presidente da República parece disposto a colocar o Congresso Nacional contra a parede, utilizando a tática do "abraço de afogado": ou os parlamentares aprovam a pauta prioritária de sua reeleição, ou serão taxados de "inimigos do povo" pela militância digital governista. Essa estratégia de demonização do Legislativo, pintando o Congresso como um obstáculo à felicidade do trabalhador, é um desserviço à democracia e ao debate sério.

Prometer o fim da escala 6x1 como quem promete um feriado é demagogia. O fim desse modelo passa, obrigatoriamente, por uma reforma tributária que desonere a folha de pagamentos de forma ampla, por investimentos em tecnologia que aumentem a produtividade por hora trabalhada e por uma modernização das leis trabalhistas que permita a negociação coletiva prevalecer sobre o legislado com segurança jurídica.

Não se resolvem problemas complexos do século XXI com canetadas populistas que remetem ao século passado. Acelerar essa pauta sem o devido amadurecimento técnico não trará dignidade ao trabalhador, mas sim instabilidade econômica e insegurança jurídica. O Brasil precisa de menos slogan de campanha e mais responsabilidade de governança. O Congresso não pode ceder à chantagem do marketing político; seu compromisso deve ser com a sustentabilidade do país a longo prazo, e não com a urgência eleitoral do Executivo.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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