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Política industrial
26/1/2026 10:00
O exemplo da Embraer é frequentemente citado como prova de que o Brasil pode ser protagonista em qualquer indústria de alta tecnologia. Seu sucesso demonstra que o país é capaz de competir internacionalmente quando escolhe nichos bem definidos e sustenta uma estratégia de longo prazo. No entanto, utilizar essa trajetória como parâmetro para defender um protagonismo amplo na indústria de semicondutores pode gerar expectativas irrealistas, ao desconsiderar diferenças estruturais profundas entre os dois setores.
A indústria de semicondutores de ponta exige investimentos contínuos de dezenas de bilhões de dólares a cada nova geração tecnológica. Uma única fábrica de chips avançados pode custar mais do que todo o programa de desenvolvimento de uma família de aeronaves. Além disso, esses aportes precisam ser recorrentes a cada dois ou três anos, enquanto na aviação os ciclos são mais longos e previsíveis.
Enquanto a Embraer opera em uma cadeia global complexa sem a necessidade de dominar todos os elos críticos, o setor de semicondutores concentra poder em gargalos altamente especializados, como litografia, materiais avançados e softwares EDA (Electronic Design Automation). Ingressar nesse ecossistema sem acesso estável a esses elos limita severamente a competitividade do país. Soma-se a isso o fato de que o mercado aeronáutico possui barreiras regulatórias que contribuem para a estabilidade do setor, ao passo que os semicondutores operam em um ambiente hipercompetitivo, de margens voláteis e fortemente dependente de escala.
A Embraer consolidou suas competências ao longo de décadas em um contexto de menor pressão tecnológica externa. No caso dos semicondutores, o Brasil busca inserção quando a fronteira tecnológica já se encontra extremamente distante, após mais de cinquenta anos de investimentos maciços realizados por potências como Estados Unidos, Europa e Ásia. Nesse cenário, é preciso admitir que o termo protagonismo nem sempre dialoga com a realidade global. A busca por uma liderança generalista não é compatível com o estágio atual do país.
Uma estratégia mais consistente passa pelo pragmatismo e pela escolha de nichos específicos, replicando a lógica de especialização que a própria Embraer adotou em seus mercados. Reconhecer que o Brasil não será líder mundial em todas as frentes não representa falta de ambição, mas sim uma escolha estratégica. O país deve concentrar esforços em se tornar um elo essencial e sustentável em cadeias específicas, nas quais sua base industrial e científica permita competir de forma concreta.
Exemplos desse pragmatismo incluem o foco em materiais avançados, como o plano da CEITEC de produzir chips de carbeto de silício (SiC) voltados para veículos elétricos e sistemas de energia, áreas em que o Brasil já possui demanda e potencial competitivo. Além disso, é necessário fortalecer o design de chips específicos e o encapsulamento, etapas em que o capital intelectual é o principal diferencial. Por fim, o apoio à educação e à prototipagem, por meio de iniciativas como a PocketFab da USP, é vital. Esse modelo de microfábricas permite desenvolver chips customizados e formar talentos com agilidade, sem a dependência exclusiva de subsídios bilionários que a fronteira tecnológica exige.
O sucesso da Embraer não comprova que o país pode replicar seu modelo em qualquer setor, especialmente em um dos mais intensivos em capital e coordenação geopolítica do mundo. Ele demonstra, contudo, que é possível alcançar resultados relevantes quando visão de longo prazo e realismo tecnológico caminham juntos.
O Brasil não precisa ser protagonista em todas as frentes, mas pode ser indispensável em algumas. Esse é o realismo estratégico que deve guiar nossas escolhas.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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