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Serviços públicos

Correios: conectar o Brasil em um mundo em transformação

A transformação digital e os desafios logísticos globais impõem ao Brasil o dilema de modernizar os Correios sem romper a integração nacional.

Emmanoel Rondon

Emmanoel Rondon

27/1/2026 10:00

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O debate sobre o futuro dos serviços postais deixou de ser uma questão administrativa para se tornar um tema estratégico de Estado. Em um mundo marcado pela digitalização acelerada das comunicações e pela reconfiguração das cadeias logísticas globais, países com extensões territoriais amplas e profundas desigualdades regionais enfrentam um mesmo dilema: como preservar a integração nacional sem ignorar a sustentabilidade econômica de seus serviços públicos.

O Brasil não está fora desse debate. Com presença em todos os 5.570 municípios, os Correios operam uma das maiores redes logísticas do país, sustentada por quase 80 mil trabalhadoras e trabalhadores. Em milhares de localidades, especialmente nas regiões mais remotas, a empresa é a única presença física permanente do Estado, garantindo o acesso da população à entrega de medicamentos, documentos oficiais e insumos essenciais a políticas públicas. Trata-se de uma função que extrapola, por definição, a lógica estritamente comercial.

Essa capilaridade, no entanto, traz consigo um desafio estrutural. O modelo tradicional do setor postal, baseado majoritariamente na circulação de cartas, entrou em colapso no mundo inteiro. A digitalização reduziu drasticamente esse fluxo, ao mesmo tempo em que elevou a complexidade e os custos da operação logística. Manter a universalização do serviço passou a exigir novas fontes de financiamento, novos modelos de gestão e decisões difíceis.

A experiência internacional é clara. Nos Estados Unidos, o serviço postal acumula prejuízos bilionários há anos e, ainda assim, segue sendo mantido pelo Estado por sua relevância estratégica, do suporte a processos eleitorais à oferta de serviços financeiros básicos. França, Itália, China e Índia enfrentam dilemas semelhantes, cada qual buscando caminhos próprios para modernizar seus serviços postais sem abrir mão da integração territorial.

Em um país de desigualdades regionais profundas, o futuro dos Correios ultrapassa a lógica comercial e envolve soberania e desenvolvimento.

Em um país de desigualdades regionais profundas, o futuro dos Correios ultrapassa a lógica comercial e envolve soberania e desenvolvimento.Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

No Brasil, parte relevante da estrutura física dos Correios foi concebida para uma realidade que já não existe. A revisão de custos, a modernização da governança, a atualização da infraestrutura logística e a diversificação das fontes de receita deixaram de ser opções e passaram a ser imperativos. Não há atalhos nem soluções mágicas: qualquer resposta responsável precisa partir de um diagnóstico realista e de uma visão de longo prazo.

É nesse contexto que foi concebido o Plano de Reestruturação dos Correios. O plano não nega os problemas nem se apoia em discursos fáceis. Ao contrário, reconhece as limitações do modelo atual e propõe um conjunto de ações pragmáticas para recuperar a capacidade operacional da empresa, modernizar sua logística, revisar estruturas administrativas e desenvolver novos serviços — especialmente nas áreas de logística integrada, comércio eletrônico, serviços financeiros e soluções digitais.

Mais do que preservar uma empresa pública, o desafio é garantir que o Brasil continue conectado. Em um país marcado por desigualdades territoriais profundas, integrar regiões, pessoas e economias não é um detalhe administrativo: é uma condição para o desenvolvimento. Conectar o Brasil, hoje, significa assegurar que essa integração continue existindo em um mundo em rápida transformação.

No dia 25 de janeiro, ao celebrar o trabalho cotidiano de carteiros e carteiras — o elo mais visível dessa missão —, o compromisso que se reafirma não é com o passado, mas com o futuro: enfrentar a realidade com responsabilidade para que os Correios sigam cumprindo seu papel estratégico no desenvolvimento nacional.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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