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Saúde mental
27/1/2026 13:00
A cada ciclo eleitoral, o Brasil parece revisitar um mesmo roteiro: tensão nas redes, discussões nas famílias, amizades desgastadas, agressividade nas ruas e um cansaço coletivo que vai muito além do debate político. Ao que tudo indica, em 2026, não será diferente. Este fenômeno, que é também global e se torna mais evidente a cada pleito, merece atenção, pois os efeitos emocionais dessa polarização já transbordam para o cotidiano das pessoas, desfazendo vínculos sociais, afetando o clima no trabalho, dentro das casas e interferindo na nossa capacidade de diálogo.
Em um levantamento do final do ano passado da Ipsos-Ipec, sentimentos como tristeza (19%), cansaço (17%) e medo (16%) apareceram com força quando os brasileiros foram questionados sobre o cenário político. A pesquisa mostra que muitas pessoas têm evitado falar de política para não criar atritos em casa, no trabalho ou entre amigos. Quando o silêncio começa a substituir o debate, significa que a polarização está produzindo divergências e erodindo vínculos, e isso impacta desde a convivência familiar, social até o clima dentro de uma empresa.
A política sempre foi um espaço de divergências. E é bom que o seja, pois a democracia é um regime cujo princípio é o conflito. O problema não está nisso, mas em transformar quem pensa diferente em um inimigo que deve ser eliminado, seja do nosso convívio ou em situações mais agudas, do convívio de todos. Quando opiniões passam a definir identidades, estas, viram rótulos e passam a definir os afetos. Assim, a discordância política deixa de ser debate para se tornar ameaça.
Esse cenário não nasceu espontaneamente, ele pode ser alimentado por espaços online que amplificam os discursos mais extremos, não por serem os mais relevantes, mas porque são os que mais retêm atenção, engajam e capitalizam uma lógica já descrita por pesquisas sobre ranqueamento por engajamento e conteúdo divisivo. No Brasil, isso aparece também na experiência direta de quem está exposto ao debate online, uma escuta digital do Centro de Informação das Nações Unidas (UNIC Rio), divulgada em 15 de julho de 2024, mostrou que 81% das pessoas que responderam ao questionário afirmaram já ter sido vítima de discurso de ódio, especialmente no ambiente digital, e 52% disseram ter passado por isso mais de cinco vezes.
Do ponto de vista psicológico, essa situação de radicalismo político, que não é vista apenas no Brasil, ativa um mecanismo conhecido como estado permanente de defesa. Isso não é apenas uma impressão. Um estudo realizado com adultos nos Estados Unidos, publicado em 2021 na revista Social Science and Medicine, encontrou uma associação entre perceber a polarização como crescente e ter 52% mais chances relativas de sintomas depressivos e 57% mais chances relativas de sintomas de ansiedade. Quando estamos em alerta contínuo, o corpo produz cortisol e adrenalina para nos proteger de ameaças reais ou percebidas. O problema é que esse sistema não foi desenhado para funcionar o tempo todo. Quando a ameaça não é um predador, mas o noticiário, o feed, o grupo da família e o colega de trabalho, o resultado tende a ser exaustão emocional e, muitas vezes, retração social
Essa interseção entre política e saúde mental já vem sendo discutida no Brasil, especialmente quando o calendário eleitoral acelera e o debate invade a rotina. A cartilha Saúde Mental nas Eleições, do Instituto Vita Alere, parte de uma constatação direta, disputas e discussões políticas não são neutras do ponto de vista emocional. A saúde mental não se explica só pelo que acontece dentro da gente, ela é atravessada por fatores sociais, culturais, econômicos e comportamentais, e o ambiente político entra nesse conjunto mesmo quando tentamos tratá-lo como algo distante. O material insiste em um ponto que faz diferença na prática, acolhimento e escuta qualificada ajudam a proteger vínculos em tempos de tensão. E acolher, aqui, é ouvir e legitimar a experiência do outro, sem confundir isso com concordar.
O ano eleitoral terminará em outubro ou novembro, mas os vínculos devem permanecer. O grande desafio não é ganhar debates, é atravessar divergências sem perder a capacidade de conviver. Em um país que ainda tenta cicatrizar suas fraturas sociais, preservar o tecido emocional pode ser mais estratégico do que vencer qualquer disputa retórica.
O Brasil já entendeu que a democracia não se faz apenas com votos. Talvez seja hora de entender que ela também não se sustenta sem saúde mental.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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