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COMPUTAÇÃO QUÂNTICA
4/2/2026 9:00
Se você pressupõe que a rivalidade entre a China e os Estados Unidos se resume a questões de importação ou ao custo final de mercadorias, é hora de despertar. Estamos presenciando, em tempo real, o desdobramento de um novo conflito frio. Desta vez, o confronto não se baseia em arsenais nucleares, mas em algoritmos, semicondutores, computação quântica e centros de processamento de dados que ditarão a primazia econômica e bélica do próximo século.
O recente lançamento da DeepSeek, uma plataforma chinesa de inteligência artificial, não representou apenas uma conquista técnica; foi o "momento Sputnik" desta geração, um alerta que uniu democratas e republicanos em Washington contra um concorrente estratégico comum. A convicção de que a China seria apenas uma imitadora de tecnologia acessível desmoronou.
A DeepSeek demonstrou a viabilidade de desenvolver modelos de linguagem de alto nível a uma fração do custo das corporações do Vale do Silício, gerando instabilidade em gigantes como OpenAI e Google. Esse avanço chinês, já em 2025, levou a China a superar os EUA na liderança global de downloads de IA de código aberto, expandindo sua influência tecnológica de forma sutil, mas profundamente eficaz.
O físico John Martinis, ganhador do Prêmio Nobel de 2025 e responsável pela equipe do Google que atingiu a supremacia quântica em 2019, reforçou que Estados Unidos, Europa e China disputam a construção de computadores quânticos com aplicações práticas. Em entrevistas recentes, ele afirmou que a diferença tecnológica que antes era estimada em três anos praticamente desapareceu.
A computação quântica se soma à IA como vetor de poder estratégico e o atraso brasileiro nesse setor nos deixa perigosamente vulneráveis.
A reação dos Estados Unidos foi imediata e estratégica: a intensificação das restrições ao acesso chinês a chips avançados. Essa tática visa enfraquecer a capacidade chinesa de treinar modelos de IA sofisticados, mirando na espinha dorsal da produção tecnológica. O semicondutor, motor propulsor da IA, transformou-se no principal instrumento de poder geopolítico. Enquanto isso, o mercado norte-americano desfruta de cifras assombrosas, com empresas emergentes captando aproximadamente US$ 193 bilhões em investimentos até o penúltimo mês de 2025.
A China mobiliza o que denomina de "esforço de toda a sociedade". Sem pleno acesso aos chips mais potentes, o país investe na interconexão de milhares de processadores menores para construir supercomputadores, seguindo a máxima de que "enxames derrotam o titã". Esse método é sustentado por políticas industriais vigorosas e planejamento governamental de longo prazo, visando à autossuficiência. Trata-se de uma centralização de recursos sem paralelo no Ocidente, criando infraestrutura digital robusta e acessível internamente, garantindo que a nação não dependa de hardware ou software americano para processar seus próprios dados.
Além do avanço tecnológico, a China aplica IA para aprofundar o controle sobre sua população, expandindo vigilância e censura, especialmente sobre minorías étnicas. Empresas privadas colaboram com o governo, processando enormes volumes de dados para criar sistemas de monitoramento e censura cada vez mais eficientes. Pequim não apenas protege seu regime, mas exporta tecnologia e métodos que, em breve, estarão disponíveis globalmente, incluindo países parceiros e concorrentes, alterando o padrão ético internacional sobre o uso da inteligência artificial.
O risco reside na aceleração desta corrida armamentista digital, que relega a discussão ética e social. O National Institute of Standards and Technology (NIST) e a União Europeia alertam sobre os perigos estruturais dos modelos avançados de IA para infraestruturas essenciais, como redes de energia, sistemas de saúde e mercados financeiros.
A ânsia por supremacia resulta no lançamento de tecnologias sem avaliação de impacto social. Nesse contexto, a privacidade é fragilizada. Enquanto a IA chinesa aprimora a vigilância estatal, o modelo americano consolida o domínio da observação corporativa, capturando cada hábito e preferência do consumidor. Em ambos os lados, o indivíduo é reduzido a um mero ponto de dados.
A falta de regulação uniforme e o clima de desconfiança mútua impossibilitam a cooperação em áreas vitais, como a prevenção do uso destrutivo da IA por grupos extremistas ou o desenvolvimento de armas biológicas assistidas por algoritmos. A ciberespionagem tende a se intensificar drasticamente, com IA gerando ferramentas mais potentes para roubo de propriedade intelectual e desestabilização de sistemas.
A competição desenfreada da IA e da computação quântica engendra uma profecia autorrealizável, onde a segurança é preterida em nome da celeridade. O Brasil não pode permitir-se ignorar essa urgência, pois a ausência de soberania nos condena a ser campo de testes de erros alheios, absorvendo todos os riscos éticos e econômicos sem receber os benefícios da inovação.
E qual o posicionamento do Brasil? Infelizmente, estamos como espectadores de luxo, pagando caro pelo assento. Nossa dependência tecnológica representa uma fragilidade notória e crescente. Em 2025, o Brasil ocupa posições intermediárias no AI Readiness Index, um sinal de baixo potencial produtivo e de adoção estratégica. Nossa posição se deteriora ainda mais quando olhamos para a base material da IA.
Para endossar a tese de vulnerabilidade, basta analisar os dados comerciais mais recentes: o déficit da balança de produtos elétricos e eletrônicos (setor que abrange semicondutores) alcançou US$7,5 bilhões apenas em janeiro e fevereiro de 2025, representando um salto de 15% em relação ao período anterior.
Essa carência crônica na produção de hardware e a ausência de política industrial enérgica nos colocam em um quadro de dependência estrutural. O conflito pelos chips já eleva o preço da tecnologia importada, dificultando a modernização da indústria e do agronegócio. Além do custo financeiro, há o custo social.
Para o cidadão comum, a consequência é dupla: primeiro, a perda de postos de trabalho para a automação controlada por algoritmos externos, treinados em culturas diferentes e muitas vezes insensíveis às nuances brasileiras. Segundo, a adoção de IA com vieses que não refletem nossa realidade social, impactando triagem de currículos, acesso a crédito e serviços públicos, tornando a desigualdade digital uma extensão da desigualdade social. A soberania digital é, portanto, um pilar da justiça social.
Possuímos ativos estratégicos, como energia limpa e capital humano talentoso. Em vez de simplesmente nos alinharmos, o Brasil deveria usar sua posição de parceiro comercial relevante para negociar com ambas as potências, exigindo transferência de conhecimento e garantias de autonomia de dados.
O Brasil precisa de uma estratégia de Estado que vá além do pragmatismo e da política de curto prazo. A ignorância deliberada diante da corrida tecnológica mundial não é apenas uma omissão, é um risco existencial. Se continuarmos dependentes, cada avanço estrangeiro nos transformará em satélite digital, subjugando nossa economia, nossa privacidade e nosso futuro. Não há espaço para hesitação: investir em IA, computação quântica e soberania digital não é escolha, é questão de sobrevivência nacional.
O país deve investir massivamente em pesquisa e desenvolvimento, fomentar startups de IA nativas e estabelecer um marco regulatório que proteja o cidadão e estimule inovação responsável. O público precisa desenvolver ceticismo bem fundamentado e exigir das autoridades a implementação de um plano nacional de IA, com métricas oficiais e transparentes. Não podemos aceitar passivamente o estatuto de colônia digital. O embate já começou e nosso futuro depende de como nos moveremos a partir de agora.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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