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Tecnologia
6/2/2026 9:00
A Inteligência Artificial molda a vida digital e influencia decisões cotidianas. Sem ética e fiscalização, ela deixa de ser ferramenta de inovação e passa a incentivar comportamentos que esgotam os mais jovens. A promessa de conexão se transforma em desgaste. A Geração Z, criada entre telas e notificações, convive com sintomas de fadiga digital que afetam sua rotina e percepção de si mesma.
A Pesquisa Geração Burnout de 2025, realizada pela Exame em parceria com o Instituto QualiBest, descreve o cenário com precisão. O estudo mostra que 72% dos jovens das gerações Y e Z relatam sinais de esgotamento mental relacionados ao uso intenso de tecnologia. Entre os nascidos a partir de 1995, o índice chega a 81%. O dado indica que o problema não está apenas no tempo de tela, mas no desenho das plataformas que exploram a permanência do usuário.
Uma jovem de 19 anos, em São Paulo, passa a madrugada rolando o feed sem intenção real de consumo. O ciclo de dopamina, culpa e repetição não é uma escolha pessoal. É resultado de um modelo treinado para prever seus impulsos e, com isso, prolongar sua exposição. O projeto técnico que guia a experiência depende do tempo gasto, não do bem-estar do usuário.
A mesma lógica que amplifica a fadiga digital alimenta outro risco: o viés algorítmico. Um estudo de 2025 do Massachusetts Institute of Technology (MIT) mostra que sistemas de reconhecimento facial apresentam erros significativamente maiores ao identificar mulheres e pessoas negras. A consequência, no Brasil, é preocupante. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo adotam soluções de IA em segurança pública que podem reforçar desigualdades históricas e justificar abordagens injustas. Quando o código reproduz distorções sociais, ele transforma discriminação em regra técnica.
A proteção de dados torna-se, assim, um campo de defesa. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) é um instrumento decisivo, mas insuficiente. Cada clique, busca ou curtida se converte em informação que alimenta decisões automáticas. No mercado de crédito, um sistema pode identificar padrões de inadimplência e negar empréstimos a moradores de regiões periféricas. A decisão, ao se apoiar em recortes geográficos, perpetua barreiras econômicas e restringe oportunidades.
Sem regulação, a Inteligência Artificial transforma a atenção da Geração Z em produto e a desigualdade em código.
A discussão sobre regulação ganha força no Brasil. O Marco Legal da Inteligência Artificial busca estabelecer limites que assegurem transparência, responsabilidade e critérios éticos. O debate avança, mas precisa de pressa. A experiência europeia com o AI Act apresenta uma classificação de risco que coloca sob maior vigilância modelos usados em áreas como saúde e recursos humanos. É uma referência útil para o país adaptar e aprimorar seus mecanismos de controle.
A regulação deve incluir auditorias externas que examinem sistemas de alto impacto e assegurem que decisões envolvendo crédito, emprego ou atendimento em saúde sejam justificáveis. Outro ponto essencial é o Direito à Explicação. Uma pessoa que tenha um serviço negado por um algoritmo precisa compreender, de modo claro, quais foram os critérios aplicados. A transparência é o caminho para recuperar confiança.
Algumas iniciativas mostram o potencial social da IA. Startups brasileiras utilizam algoritmos preditivos para reduzir o tempo de entrega de medicamentos em comunidades vulneráveis. Fintechs desenvolvem modelos que neutralizam variáveis demográficas para evitar discriminação na concessão de microcrédito. São avanços reais, mas ainda minoritários. Sem políticas públicas e fiscalização, essas práticas não alcançarão escala.
A educação cumpre papel estrutural. A literacia algorítmica deveria integrar o currículo escolar. A proposta não é ensinar programação, mas explicar como sistemas automatizados influenciam decisões e hábitos. Ao compreender como funcionam as recomendações de conteúdo e os mecanismos de recompensa, o jovem passa a reconhecer que parte da exaustão decorre de um modelo de negócios, não de uma fragilidade pessoal.
Retornamos à jovem de 19 anos, desperta às três da manhã diante de um feed infinito. Ela não está ali por escolha, mas por interação com um sistema que explora sua atenção. A Inteligência Artificial não é neutra. Ela reflete decisões humanas. Por isso, leis, fiscalização e transparência são indispensáveis para que a tecnologia sirva à sociedade.
A saúde mental da Geração Z depende de escolhas coletivas. A regulação rigorosa, a auditoria independente e a educação digital são caminhos para transformar a IA em instrumento de justiça. A tecnologia pode ampliar oportunidades e reduzir desigualdades. O futuro não precisa ser o burnout digital. Pode ser uma etapa de inteligência voltada ao propósito humano.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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