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Energia
3/2/2026 14:00
Os defensores da energia nuclear para a produção de energia elétrica sempre tiveram um discurso moldado às circunstâncias, e às suas conveniências. Antes do acidente nuclear de Fukushima, em um dos países mais desenvolvidos nas ciências e tecnologia, os argumentos utilizados eram de uma soberba e arrogância sobre a infalibilidade da tecnologia nuclear. Chegavam a afirmar que era impossível ocorrer um acidente nestas usinas (risco zero!!!), tal o desenvolvimento tecnológico alcançado. Bastou o fatídico 11 de março de 2011 para desmoronar a pregação messiânica pró deus-tecnologia nuclear.
Com a crise climática e o crescimento das fontes renováveis de energia na matriz elétrica mundial, o discurso voltou-se ao alto custo da energia solar e eólica, e o papel de "salvação" do nuclear na mitigação do aquecimento global, como uma fonte de energia de baixa emissão de carbono. Afirmam descaradamente que não existe emissão de gases de efeito estufa no ciclo do combustível nuclear, portanto é uma fonte "limpa", e assim a nucleoeletricidade seria uma componente crucial no enfrentamento das mudanças climáticas.
Nem a eletricidade nuclear é "limpa", se caso fosse não geraria "lixo", nem mais barata que a gerada pelo Sol e ventos, ao contrário, chegando a ser 4 a 6 vezes mais cara. Mais uma vez o poderoso lobby nuclear perdeu o discurso. Mas a insistência é permanente, pois os negócios neste setor envolvem bilhões, com cada usina de 1.000 MW, custando em torno de 5 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo é reconhecido que obras de grande complexidade como usinas nucleares, raramente respeitam cronograma e previsões orçamentárias, e que o custo final costuma ser, em média, três vezes maior do que previsto inicialmente.
Atualmente o discurso da hora do setor nuclear é apontar a "fragilidade" da geração de fontes renováveis (solar, eólica), pela sua irregularidade devido à ausência de Sol e ventos, o que não garantiria a estabilidade do sistema elétrico. A intermitência energética justificaria a necessidade da fonte nuclear?
Quem defende usinas nucleares afirma que o principal papel desta tecnologia é a estabilidade que aporta para o sistema elétrico, tratando de uma fonte firme, não intermitente. Pelo fato de uma usina nuclear poder operar quase o tempo todo, constituiria uma fonte de "carga de base" (baseload) necessária para a estabilidade da rede elétrica, pois complementaria a geração solar e eólica, que variam conforme as condições climáticas.
Todavia para lidar com a intermitência de fontes renováveis, várias alternativas existem sem que haja a necessidade da nucleoeletricidade que é cara, perigosa e suja. Dentre as tecnologias existentes inclui sistemas híbridos, combinando diferentes fontes e armazenamento para compensar a falta de energia, à noite ou em dias sem vento; o armazenamento do excesso de energia gerada com baterias, hidrogênio e armazenamento térmico; fontes despacháveis podendo ser ativadas sob demanda, com térmicas a biomassa, hidrelétricas; redes inteligentes no gerenciamento da oferta e demanda de energia de forma mais eficiente, melhoria na infraestrutura das redes de transmissão para que a energia gerada em um local possa ser transportada para onde é necessária, aumentando a flexibilidade do sistema; e soluções com inteligência artificial para previsão de geração e demanda, otimização do despacho de energia e gestão de mercados, garantindo um fornecimento contínuo e estável.
Do ponto de vista tecnológico não faltam alternativas para atender às características intrínsecas das fontes renováveis, como a intermitência. O que falta são escolhas corajosas, que levem em conta a participação social e a transparência, contra as ações de lobbies poderosos que defendem interesses de grupos econômicos contrários aos da população, e que influenciam nas decisões de políticas públicas do setor energético.
O que tem favorecido o discurso da intermitência, e assim da necessidade da geração nuclear, é que mesmo tendo disponibilidade de energia, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), uma entidade privada, tem limitado, e até cortado parte da energia produzida por fontes renováveis, principalmente porque a expansão da rede de transmissão e a demanda não acompanharam o ritmo de instalação de novos parques de geração, que crescem a taxas mais aceleradas, incentivados pelo grande potencial destas fontes, do baixo custo da energia gerada, e das condições favoráveis de financiamento e benefícios fiscais. Ou seja, temos energia, mas não temos linhas de transmissão para seu aproveitamento pelo sistema elétrico nacional.
A redução ou corte intencional de energia, denominado de "curtailment" tem acontecido com frequência no Nordeste, maior produtor de energia elétrica a partir do Sol e dos ventos, por razões elétricas, como a capacidade limitada de transmissão, ou razões energéticas, com excesso de oferta em relação à demanda. Por exemplo, em junho de 2025 no Nordeste, os cortes na geração de projetos de grande porte - solar e eólico - não injetados na rede, determinados pela ONS, atingiram o valor de 27,3% do total produzido, sendo 19,6% por razões energéticas. No ano de 2025 estimativas apontam que o "curtailment" atingiu cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido gerada no país.
Este desperdício ocorre pela falta de planejamento estratégico. É privilegiado a oferta descolada da demanda, além de atrasos na conexão de projetos à rede. A desnecessária demora em adotar o armazenamento por baterias, a integração de fato de múltiplas fontes renováveis (solar, eólica, biomassa, etc.) reduzindo a dependência de uma única fonte e aumentando a resiliência, e o uso de outras possibilidades tecnológicas, seriam as condições para evitar o desperdício. Também a definição de diretrizes claras nos marcos legais, sem a presença e interferência perniciosa dos lobbies, que ao defender interesses corporativos, acabam prejudicando interesses da população.
Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. Os exemplos da China que detém cerca de 34% da capacidade global de energia renovável, da União Europeia que atualmente produz mais eletricidade com renováveis que com outras formas de energia, e do Brasil com mais de 80% da matriz elétrica com a participação do Sol, dos ventos e da água, constituindo a espinha dorsal da matriz elétrica; mostram claramente que as fontes renováveis em um contexto de colapso ambiental, podem garantir a segurança e sustentabilidade energética, desde que a diversificação e complementaridade andem juntas.
Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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