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Democracia
4/2/2026 13:00
Recentemente, ao acompanhar episódios da vida pública brasileira, torna-se cada vez mais difícil distinguir realidade política de encenação simbólica. Situações objetivamente degradantes passaram a circular como entretenimento, identidade cultural ou curiosidade estética. O que deveria provocar indignação pública é frequentemente absorvido como humor, performance ou traço regional. Esse deslocamento não é trivial: revela a consolidação de um processo que pode ser descrito como idiotização social.
Por idiotização social não se entende ignorância simples ou ausência de informação, mas a transformação da injustiça em linguagem simbólica despolitizada, isto é, destituída de exigência institucional. A precariedade deixa de ser interpretada como falha do poder público e passa a ser consumida como narrativa. O sofrimento coletivo perde sua dimensão pública e se converte em produto cultural ou midiático.
Um episódio ocorrido recentemente no Recife ilustra esse padrão, sem esgotá-lo. Vídeos amplamente divulgados mostravam moradores dançando em meio a esgoto a céu aberto e assumindo, de modo performático, a imagem de "ratos". O que deveria ser compreendido como violação de direitos básicos foi resignificado como expressão cultural pernambucana e difundido como entretenimento. O caso não importa por si, mas como sintoma: a degradação material foi convertida em espetáculo simbólico, esvaziando sua dimensão política.
Não se trata de condenar indivíduos submetidos à precariedade, mas de compreender o mecanismo coletivo que transforma abandono em identidade e injustiça em narrativa. Quando a indignidade deixa de ser percebida como problema público e passa a ser consumida como estética, a capacidade crítica da sociedade se enfraquece. Aquilo que exigiria resposta institucional é absorvido como curiosidade social.
Nesse processo, a mídia e as plataformas digitais exercem papel decisivo. Ao privilegiar imagens de alto impacto emocional em detrimento da contextualização institucional, contribuem para deslocar o foco da política para o espetáculo. A pobreza é apresentada como cena, não como consequência de decisões públicas. A desigualdade é dramatizada, mas raramente politizada. Assim, a precariedade deixa de ser compreendida como responsabilidade governamental e passa a ser tratada como paisagem social.
Do ponto de vista teórico, esse fenômeno pode ser interpretado à luz da reflexão de Hannah Arendt sobre a degradação do espaço público. Para a filósofa, a política só existe plenamente quando os indivíduos são capazes de julgar, distinguir e compartilhar um mundo comum. A incapacidade de diferenciar realidade de aparência, injustiça de normalidade e fato de espetáculo constitui condição central da dissolução da vida pública.
A idiotização social, nesse sentido, não corresponde à ignorância pura, mas à corrosão da faculdade de julgamento. O indivíduo deixa de perceber a precariedade como questão política e passa a experimentá-la como narrativa simbólica. O que deveria mobilizar ação coletiva é absorvido como entretenimento ou identidade cultural. O espaço público deixa de ser lugar de deliberação e se converte em vitrine de imagens.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que situações objetivamente degradantes podem ser acolhidas sem escândalo e até com entusiasmo. Quando a experiência da injustiça é mediada por representações espetacularizadas, ela perde densidade moral e política. A realidade se converte em representação, e a política, em estética. Como advertia Arendt, onde o julgamento desaparece, a liberdade perde seu fundamento, pois deixa de existir critério comum para distinguir o aceitável do inaceitável.
O impacto desse processo sobre a democracia é direto. Uma sociedade que naturaliza a precariedade perde a capacidade de transformá-la politicamente. O voto permanece formalmente livre, mas deixa de operar como instrumento consciente de escolha. A decisão política passa a ser orientada por impulsos imediatos, vínculos afetivos ou narrativas emocionais, e não por avaliação institucional. A representação se esvazia, pois a responsabilização dos governantes depende da capacidade de reconhecer falhas como falhas.
Quando a degradação social é percebida como paisagem cultural, a exigência por políticas públicas se enfraquece. A desigualdade deixa de ser problema político e se converte em dado simbólico. Nesse cenário, a democracia tende a sobreviver apenas como ritual procedimental: eleições continuam ocorrendo, mas sem que haja compreensão efetiva sobre o que está em disputa.
Se a idiotização social corrói a capacidade de julgamento e enfraquece a representação, a resposta não pode ser apenas moral ou comunicacional. Ela precisa ser formativa. É nesse ponto que o pensamento de Alexis de Tocqueville e John Stuart Mill oferece um caminho normativo: a educação cívica como fundamento da liberdade política.
Tocqueville advertia que a democracia depende menos das leis do que dos costumes. O maior risco não é a tirania aberta, mas o adormecimento das faculdades políticas do cidadão, que passa a delegar não apenas decisões, mas o próprio exercício do juízo. Onde os indivíduos deixam de compreender a política como assunto comum, instala-se um despotismo suave, administrado por afetos e imagens.
Mill, por sua vez, enfatizava que a liberdade política exige indivíduos capazes de pensar criticamente. O governo representativo depende da qualidade do julgamento público. Uma sociedade incapaz de distinguir entre argumento e espetáculo perde sua autonomia política. O cidadão deixa de ser agente de escolha para se tornar consumidor de narrativas.
Nesse sentido, a educação cívica não é complemento pedagógico, mas condição de possibilidade da democracia. Não se trata de transmitir ideologia, mas de formar capacidades: compreender instituições, reconhecer injustiças, distinguir interesses privados de decisões públicas e perceber-se como parte de um mundo comum. Sem essa formação, a política se reduz à administração de afetos coletivos, e a representação perde seu vínculo com a responsabilidade.
A idiotização social não se combate com censura nem com moralismo, mas com reconstrução do juízo público. Onde a precariedade é naturalizada, é preciso restituir a ideia de direito. Onde a miséria é estetizada, é preciso recuperar sua dimensão política. Onde a cidadania se dissolve em entretenimento, é preciso reintroduzir o sentido de participação consciente.
O desafio brasileiro não é apenas econômico ou institucional, mas pedagógico no sentido mais profundo do termo. Uma democracia sem cidadãos críticos tende a sobreviver apenas como aparência formal. O que está em jogo não é a correção de um desvio cultural, mas a preservação do próprio princípio representativo. Sem educação cívica, a liberdade torna-se formal; sem juízo público, o voto torna-se gesto automático; sem compreensão política, a democracia converte-se em espetáculo.
Se a idiotização social representa a dissolução simbólica da cidadania, a educação cívica é sua reconstrução possível. Entre a estética da precariedade e a política da responsabilidade, o que está em disputa não é apenas um modo de ver o país, mas a própria possibilidade de governá-lo democraticamente.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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