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Democracia
5/2/2026 16:00
Segundo dados do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada (FGVcia) da EAESP da Fundação Getulio Vargas (FGV), existem 272 milhões de smartphones em uso no Brasil, cerca de 1,3 aparelho por habitante. Nesse universo móvel, as eleições de 2026 já começaram, mesmo que não oficialmente. Pesquisas sobre os principais nomes em disputa aquecem o cenário eleitoral e indicam tendências. Mas, independentemente desses números, a atenção do eleitor, seus gostos, preferências e escolhas, migra do palanque para o cotidiano: é na tela do celular que se travam disputas de sentido e interações políticas. Entre mensagens, vídeos curtos, memes e conversas privadas, a política opera de forma contínua e, muitas vezes, arriscada. Não é apenas uma mudança tecnológica, mas uma transformação nos modos de interação que sustentam a experiência democrática.
Os celulares atuam como mediadores de sentidos, aproximando o político ao afetivo, ao familiar e ao rotineiro. Estratégias digitais baseadas em inteligência artificial permitem segmentar mensagens por perfis, hábitos e afetos específicos. A comunicação política deixa de ser generalista e passa a agir por aproximação, reconhecimento e envolvimento: não importa só o que se diz, mas como a informação entra na vida do eleitor, provocando sentimentos e interpretações que influenciam decisões na hora do voto.
Diante desse cenário, o Tribunal Superior Eleitoral reagiu com regras: desde 2024, proíbe deepfakes em propaganda eleitoral, exige identificação de conteúdos produzidos por IA e restringe o uso de robôs para contato com eleitores. Para 2026, ajustes adicionais estão sendo discutidos em calendário apertado. O desafio não é apenas regular conteúdos isolados, mas pensar em fluxos, contextos e efeitos no ambiente digital, como mostrou o próprio debate institucional, com audiências públicas e milhares de sugestões da sociedade civil.
É justamente nesse ponto que a análise das interações digitais se torna decisiva: como observa o semioticista francês Eric Landowski, "nada é mais carregado de consequências que nossas escolhas". A desinformação contemporânea não precisa convencer alguém de algo falso; ela atua pela dúvida, ambiguidade e desgaste da confiança. Um vídeo de simulação, mesmo desmentido rapidamente, já cumpre sua função: interfere na forma como percebemos e interpretamos, influenciando decisões e experiências de sentido.
As mensagens políticas se manifestam de formas distintas: algumas são figurativas, apelando à compreensão racional; outras são expressivas e estésicas, fazendo o eleitor sentir a força da mensagem de forma direta e quase corporal. É nesse trânsito entre o que se entende e o que se sente que a política digital exerce sua presença mais potente. A decisão eleitoral deixa de ser um ato isolado e passa a ser construída por microexperiências. O risco, portanto, não é um engano pontual, mas o ajuste permanente das percepções. O que o discurso faz o eleitor sentir? O porquê dessa sensação experimentada? Quais os mecanismos estão presentes nessa apreensão?
O desafio das eleições de 2026 é, acima de tudo, relacional. A democracia depende do encontro público, do reconhecimento do outro, do tempo para reflexão e do direito ao dissenso. Quando esses elementos são substituídos por interações individuais, silenciosas e personalizadas, perde-se algo essencial. O grande desafio é garantir que a democracia continue sendo um espaço de encontro, e não apenas de algoritmos personalizados. O que transforma a sociedade não são apenas os meios, mas os modos de uso, os vínculos que aceitamos e as experiências sensíveis do mundo.
Essa dinâmica acentua outro problema: o desequilíbrio entre o "Eu" e o "Nós". A maioria vive focada em seus problemas, em medo e egoísmo, enquanto o poder deveria servir ao bem comum. Quando isso não acontece, há uma ruptura ética que enfraquece a democracia. A política ainda pode ser caminho para transformação social, embora limitada por práticas consolidadas de corrupção e desigualdade. Ignorá-la alimenta a apatia; atuar nela exige mais do que esperança: exige uma teimosia otimista, engajamento consciente e ação coletiva.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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