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Democracia
13/2/2026 12:00
"Tivestes a escolha entre a guerra e a desonra. Escolhestes a desonra — e tereis a guerra." A advertência de Winston Churchill, formulada após o Acordo de Munique, não exaltava o conflito. Era uma condenação moral ao apaziguamento. Churchill compreendeu antes de muitos que regimes autoritários não são contidos por concessões sucessivas. A recusa em enfrentá-los no tempo certo não preserva a paz; apenas adia e amplia o custo do confronto.
Muito antes de 1939, ainda no início da década de 1930, Churchill alertava o Parlamento britânico sobre os riscos do autoritarismo que se consolidava na Europa. Foi tratado como alarmista ou prisioneiro de fantasmas do passado. A aposta dominante era a acomodação: ceder em nome da estabilidade, relativizar princípios em nome da governabilidade, trocar vergonha por uma paz ilusória. A história mostrou o erro. O fascismo não foi evitado; foi alimentado.
Um século depois, o mundo não revive mecanicamente os anos 1930. As formas mudaram, os instrumentos se sofisticaram, os conflitos assumem novas feições. Ainda assim, os sinais de ruptura do regime democrático constitucional voltam a se acumular. O desprezo por regras comuns, o ataque sistemático às instituições, a deslegitimação da ciência e a naturalização da força reaparecem no vocabulário político global. A luta contra o fascismo, convém dizer sem rodeios, não pertence ao passado.
O elemento decisivamente novo dessa conjuntura é o ambiente digital. As grandes plataformas deixaram de ser meros espaços de interação ou mercados competitivos. Tornaram-se estruturas de poder transnacionais, capazes de moldar o debate público, amplificar discursos extremistas e corroer consensos democráticos. Já não operam apenas como monopólios econômicos; comportam-se como feudos digitais, com regras próprias, opacidade decisória e resistência sistemática à regulação democrática.
É nesse contexto que se consolida o paradoxo da liberdade iliberal. Em nome de uma liberdade de expressão apresentada como absoluta, rejeitam-se limites institucionais mínimos. Essa liberdade não é universal nem neutra. Funciona de forma seletiva: protege a desinformação, abriga o extremismo e serve de instrumento para atacar minorias, desacreditar o conhecimento científico e enfraquecer o Estado de Direito. A liberdade deixa de ser valor civilizatório e converte-se em arma política.
O neofascismo contemporâneo não precisa repetir os símbolos do século XX para produzir efeitos semelhantes. Ele prospera em bolhas digitais, impulsionado por algoritmos que premiam a polarização, o ressentimento e a mentira organizada. Em aliança tácita com plataformas que rejeitam a regulação democrática, esses movimentos encontram abrigo sob o discurso de uma suposta defesa da liberdade. O resultado é uma inversão profunda: a liberdade passa a ser usada contra a própria democracia que a tornou possível.
A recusa à regulação das plataformas não é técnica nem neutra. Trata-se de uma escolha política com efeitos sistêmicos. Ao abdicar de limites democráticos, aceita-se a corrosão da arquitetura democrática construída após a Segunda Guerra, justamente para conter os impulsos autoritários que haviam levado o mundo à barbárie. A história ensina que o fascismo não começa com a guerra aberta, mas com a tolerância progressiva à violência simbólica, à exclusão e à erosão da verdade.
Entre a vergonha e a guerra, a lição permanece atual. Não se trata de escolher o conflito, mas de reconhecer que a defesa do regime democrático constitucional exige enfrentamento institucional, político e moral. Adiar essa escolha, em nome de uma liberdade distorcida ou de uma falsa neutralidade, não elimina o risco. Apenas repete, sob novas formas, o erro que o século XX já demonstrou ser fatal.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].