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Política

De dia é governo, de noite é oposição

Parlamentares que votaram com o governo durante toda a legislatura resolveram em 2026 fingir ser oposição em busca da reeleição.

Davi de Souza

Davi de Souza

13/2/2026 | Atualizado às 14:40

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A proximidade do ano eleitoral opera um milagre na biologia política de Brasília: a metamorfose de parlamentares. Deputados que passaram quatro anos votando com o governo Lula, garantindo a aprovação de pautas do Executivo e liberando emendas, repentinamente redescobrem suas vocações oposicionistas. É o fenômeno do "governismo envergonhado", uma estratégia de sobrevivência política que tenta iludir o eleitor com discursos inflamados que não se sustentam diante das votações no Congresso Nacional.

Política é coisa séria e exige, acima de tudo, respeito com quem vota. A coerência é a moeda mais valiosa de um mandato, mas parece estar desvalorizada no mercado do "Centrão". Ao observarmos o Radar do Congresso, ferramenta do Congresso em Foco que monitora o alinhamento de cada parlamentar com o governo Lula, a discrepância salta aos olhos e revela a hipocrisia. Há parlamentares que ostentam taxas de governismo superiores a 70% — índices dignos de líderes do governo — mas que, nas redes sociais e nos palanques estaduais, tentam posar de críticos ferozes da gestão federal para capturar o voto conservador.

Essa dissonância cognitiva não é acidental; é método. O fisiologismo permite que o parlamentar tenha o melhor dos dois mundos: o acesso aos recursos federais para irrigar suas bases durante o mandato e o discurso de "independência" ou "oposição" quando as urnas se aproximam. É o "estelionato eleitoral" em sua forma mais pura: o político entrega governabilidade ao Planalto em troca de verbas, mas vende ao eleitor uma imagem de combatividade que nunca existiu no plenário.

O caso mais emblemático dessa crise de identidade reside no PL (Partido Liberal). A legenda, que abriga a maior bancada de oposição "raiz", convive com uma dissonância interna. Enquanto uma ala ideológica mantém postura rígida e coerente contra o Planalto, uma parcela significativa da legenda — assim como em partidos como União Brasil e PP — compõe a base oficiosa do governo. O "Valdemarismo" pragmático colide frontalmente com o "Bolsonarismo" ideológico, criando situações insólitas.

Parlamentares que votaram com Lula tentam vestir a fantasia da oposição às vésperas da eleição, mas o histórico de votações desmente o discurso.

Parlamentares que votaram com Lula tentam vestir a fantasia da oposição às vésperas da eleição, mas o histórico de votações desmente o discurso.Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O problema se agrava drasticamente quando essa fatura chega ao estado de origem. Em Minas Gerais, desenha-se um cenário de constrangimento político agudo. O PL mineiro vive o dilema de tentar acomodar parlamentares que votaram sistematicamente com Lula durante toda a legislatura na mesma chapa ou palanque que pretende surfar na popularidade de figuras como Nikolas Ferreira, um opositor intransigente e recordista de votos. A tentativa da ala fisiológica de "colar" sua imagem em puxadores de voto da direita ideológica não é apenas uma manobra arriscada; é um desrespeito à inteligência do eleitorado que eles pretendem capturar.

Não se trata de criminalizar a negociação política ou a governabilidade, mas de exigir transparência absoluta. O deputado tem todo o direito de apoiar o governo e mudar de lado. O que fere a ética democrática é a falsidade ideológica: apoiar o governo em Brasília, garantindo a aprovação de medidas impopulares para a sua base, e vender-se como oposição na internet. É querer os bônus da governabilidade (cargos e emendas PIX) sem arcar com o ônus da posição perante seu eleitorado original.

A chamada "lista dos infiéis", termo que ganhou força nos corredores da Câmara e na imprensa especializada, nada mais é do que um reflexo da demanda social por clareza. O eleitor de 2026 está mais municiado de informações do que em pleitos passados. Com ferramentas de transparência como o Radar, é possível ver que o discurso performático da tribuna muitas vezes não resiste a um simples clique no histórico de votações nominais.

Para o bem da democracia e da sanidade do debate público, as máscaras precisam cair antes das urnas abrirem. A oposição deve ser exercida por quem de fato se opõe, e o governo deve ser defendido por quem o sustenta. Qualquer coisa fora disso é oportunismo de quem trata o voto não como uma procuração de confiança, mas como um cheque em branco para quatro anos de incoerência e interesses inconfessáveis.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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