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Mercado de trabalho
20/2/2026 17:00
O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 voltou ao centro da agenda nacional cercado por previsões alarmistas. Parte do setor patronal no Brasil sustenta que qualquer mudança significaria aumento de custos, desemprego e perda de competitividade. Esse argumento, porém, deixa de considerar um conjunto consistente de evidências sobre saúde pública, produtividade e organização do trabalho — além da própria trajetória histórica brasileira.
A discussão não é apenas econômica. É também sanitária, social e estratégica.
Um estudo conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou que jornadas prolongadas — especialmente acima de 55 horas semanais — estão associadas a cerca de 745 mil mortes anuais por acidente vascular cerebral e doenças cardíacas. Trabalhadores submetidos a essas condições apresentam risco significativamente maior de eventos cardiovasculares. Trata-se de um dado que reposiciona o debate: jornadas excessivas não são apenas uma questão trabalhista, mas um problema de saúde pública, com impactos diretos sobre a Previdência e a produtividade.
Pesquisas internacionais relacionam o excesso de jornada ao aumento de estresse crônico, burnout, ansiedade e depressão, fatores que ampliam afastamentos médicos e acidentes de trabalho. A fadiga acumulada compromete a atenção e a tomada de decisão, elevando erros operacionais. Ambientes que preservam o equilíbrio entre trabalho e descanso registram menor presenteísmo — quando o trabalhador comparece doente — e melhor desempenho organizacional.
Nesse contexto, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata do fim da escala 6x1 tem sido apresentada por parte de entidades empresariais como uma ameaça econômica. Essa leitura simplifica o problema. A baixa produtividade brasileira está mais relacionada a gargalos estruturais — como investimento insuficiente em inovação, tecnologia e qualificação profissional — do que à duração legal da jornada. A reorganização do tempo de trabalho pode, ao contrário, estimular a revisão de processos e a adoção de ambientes produtivos mais eficientes.
A própria Organização Internacional do Trabalho aponta que jornadas equilibradas reduzem o adoecimento, ampliam o engajamento e diminuem acidentes — benefícios que retornam para empresas e para a sociedade. Experiências em países como França, Islândia, Chile e Portugal demonstram que a redução do tempo de trabalho pode coexistir com a manutenção ou até com a elevação da produtividade, além de ganhos expressivos de bem-estar. O ponto central é que produtividade depende de organização e saúde do trabalhador — não apenas do número de horas trabalhadas.
Também é equivocado supor que trabalhar menos signifique produzir menos. Trabalhadores descansados cometem menos erros, mantêm a concentração e sustentam desempenho ao longo do tempo. A exaustão, por sua vez, aumenta a rotatividade, os afastamentos e a perda de qualidade — custos indiretos que recaem sobre empresas e sobre o poder público.
Há ainda um componente macroeconômico relevante: mais tempo livre estimula o consumo e dinamiza setores como comércio, turismo e serviços, fortalecendo o mercado interno — peça-chave para o crescimento econômico brasileiro.
A legislação trabalhista cumpre um papel civilizatório ao estabelecer um piso mínimo de proteção. As negociações coletivas são instrumentos importantes de adaptação setorial, mas não substituem direitos fundamentais. A história mostra que conquistas como férias remuneradas e 13º salário também enfrentaram resistência inicial — e hoje fazem parte do funcionamento regular da economia.
Reduzir a jornada, portanto, não se resume a um embate entre custos e direitos. Trata-se de alinhar desenvolvimento econômico à preservação da saúde humana e à construção de uma produtividade sustentável. Uma transição responsável exige planejamento, políticas de inovação, qualificação profissional e diálogo social.
O verdadeiro risco talvez não esteja em trabalhar menos, mas em manter um modelo que transforma a exaustão em rotina produtiva.
A pergunta que permanece é objetiva: quanto custa sustentar jornadas que adoecem trabalhadores e pressionam os sistemas públicos?
Proteger quem trabalha não é obstáculo ao desenvolvimento — é condição para que ele se sustente.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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