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Desenvolvimento
25/2/2026 14:00
O Dia Mundial da Justiça Social, celebrado em 20 de fevereiro, é um convite não apenas à reflexão, mas à análise concreta do país que estamos construindo. Os dados mostram que o Brasil avançou. Segundo dados divulgados entre o final de 2025 e início de 2026 pelo IBGE e pelo IPEA, o índice de desigualdade (Gini) caiu para 0,504 em 2024, o menor nível desde 2012. Mais de 8,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza recentemente, e a extrema pobreza atingiu seu menor patamar histórico, cerca de 3,5% da população. Desde 1995, a renda média cresceu quase 70%, enquanto a desigualdade recuou de forma significativa.
Esses números confirmam que políticas públicas podem alterar trajetórias sociais. Mas também revelam um limite importante: a desigualdade brasileira deixou de ser apenas estatística e passou a ser geográfica. Ela se concentra nos territórios periféricos das grandes cidades, onde o acesso a oportunidades permanece restrito.
O Grajaú, no extremo sul de São Paulo, sintetiza esse paradoxo. Com quase 400 mil habitantes - população maior que a de muitas capitais - o distrito convive com indicadores que refletem a exclusão territorial. Segundo o Mapa da Desigualdade de 2025, a idade média ao morrer ali é de cerca de 58 anos, enquanto em bairros mais ricos ultrapassa 82. A desigualdade começa cedo: a mortalidade infantil no distrito varia entre 14 e 16 óbitos por mil nascidos vivos, até três vezes superior à registrada em bairros como Moema e Alto de Pinheiros. Ao longo da juventude, o padrão se repete. O Índice de Vulnerabilidade Juvenil, do mesmo estudo, classifica o Grajaú entre as regiões de risco muito alto, enquanto distritos centrais apresentam níveis baixos de vulnerabilidade. Esses dados revelam que a desigualdade não é apenas uma questão de renda, mas uma condição territorial que reduz as chances de sobrevivência, desenvolvimento e futuro desde o nascimento.
Nos últimos anos, o Brasil adotou estratégias importantes para enfrentar esse cenário. A primeira foi o fortalecimento dos programas de transferência de renda. O Bolsa Família teve papel decisivo na redução da pobreza e na proteção das famílias mais vulneráveis. Estudos do IPEA mostram que, além de reduzir a pobreza imediata, o programa contribuiu para ampliar o acesso ao emprego formal, ao garantir condições mínimas de estabilidade. A transferência de renda não substitui o trabalho - ela permite que ele aconteça. Ao assegurar alimentação e previsibilidade, cria as bases para que as famílias possam investir no próprio futuro.
A segunda estratégia foi a reforma do sistema tributário, que começa a corrigir uma distorção histórica: o peso excessivo dos impostos sobre os mais pobres. No modelo anterior, famílias de baixa renda comprometiam parcela maior de seus recursos com tributos sobre consumo. O novo mecanismo de devolução de impostos, previsto na reforma tributária, permitirá aumentar em até 11% a renda disponível das famílias mais vulneráveis, segundo estimativas do IPEA e da FGV. Trata-se de uma mudança estrutural, que reduz a desigualdade não por transferência direta, mas por correção do próprio sistema.
A terceira estratégia foi a ampliação do acesso ao ensino superior por meio da Lei de Cotas. Em pouco mais de uma década, o número de estudantes oriundos de escolas públicas, negros e indígenas nas universidades federais cresceu 167%. Mais importante ainda, estudos mostram que o desempenho acadêmico desses estudantes é equivalente ou superior ao dos demais. O país demonstrou que o talento sempre esteve distribuído - o que faltava era oportunidade. Contudo, a desigualdade educacional no Grajaú pode diminuir o impacto do acesso e manter esta população à mercê de políticas públicas não estruturantes, pois apenas 5,1% dos adultos possuem ensino superior completo, segundo o IBGE. Para referência, o percentual de brasileiros com ensino superior completo quase triplicou entre 2000 e 2022, subindo de 6,8% para 18,4% no país como um todo. Não se trata de falta de capacidade, mas de acesso. Sem universidades próximas, muitos jovens enfrentam deslocamentos diários de até três horas. A distância se transforma em barreira concreta, que limita o acesso e perpetua a desigualdade.
Essas três estratégias produziram resultados reais. Reduziram a pobreza, ampliaram o acesso e corrigiram distorções históricas. Mas o caso do Grajaú revela um desafio que permanece: a desigualdade no Brasil é territorial. A renda pode chegar. A vaga universitária pode existir. O imposto pode ser corrigido. Mas, se a educação não estiver fisicamente presente no território, o acesso continuará incompleto.
A ausência de universidades nas periferias limita o alcance das próprias políticas públicas. O jovem que precisa atravessar a cidade diariamente enfrenta um custo invisível: o desgaste, o tempo e a exaustão que levam à evasão. A desigualdade deixa de ser apenas econômica e passa a ser estrutural.
A verdadeira justiça social exige o próximo passo: levar a educação e a qualificação profissional para onde as pessoas vivem. A criação de universidades, institutos técnicos e centros de formação nas periferias não é apenas uma política educacional - é uma política de desenvolvimento. Aonde a educação chega, surgem empregos melhores, maior renda e novas perspectivas de futuro.
O Brasil provou que é capaz de reduzir a pobreza. Agora precisa provar que é capaz de reduzir a distância. Porque, enquanto o acesso ao conhecimento depender do deslocamento, o CEP continuará sendo uma barreira invisível. A justiça social só estará completa quando o endereço de nascimento deixar de determinar o horizonte de chegada.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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