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Eleições 2026
26/2/2026 12:00
A narrativa de que a inteligência artificial democratizou as campanhas eleitorais funciona apenas na superfície. Geradores de vídeo, imagem e texto reduziram custos operacionais e ampliaram a produção de conteúdo. Esse ganho existe, mas não altera o núcleo da disputa política em 2026.
O eixo real do poder mudou. A competição deixou de ser comunicacional e passou a ser computacional. Vence quem antecipa comportamentos, segmenta emoções e ajusta discursos em escala industrial. O candidato virou um produto moldável. O eleitor passou a ser um conjunto de dados.
O Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões não financia apenas logística de campanha. Ele sustenta uma infraestrutura invisível de softwares analíticos, interfaces de programação de aplicações (APIs) de mensageria, bases de dados enriquecidas e modelos privados de linguagem. Conforme registros do Portal da Transparência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), parcela relevante desses recursos é classificada como gasto com impulsionamento, tecnologia e serviços digitais.
Na prática, dinheiro público brasileiro alimenta plataformas controladas por grupos como Alphabet e Meta, além de fornecedores de modelos de inteligência artificial sediados fora do país. Trata-se de saída de recursos financeiros disfarçada de modernização eleitoral. O Brasil paga para treinar sistemas que não controla.
Enquanto vídeos sintéticos custam centavos, sistemas avançados de micro direcionamento permanecem restritos às cúpulas partidárias. Dados do Painel de Candidaturas do TSE indicam que, nas campanhas majoritárias deste ciclo, os gastos com impulsionamento e tecnologia já superam, em média, as despesas com mobiliário e pessoal. A desigualdade não é retórica. Ela aparece no balanço.
Esse modelo cria uma falsa sensação de competição aberta. Pequenas candidaturas surgem, mas não disputam em igualdade. O filtro algorítmico decide quem aparece, quantas vezes e em qual estado emocional do eleitor. A porta de entrada se abriu. O funil segue fechado.
O risco central em 2026 já não é a falsificação digital isolada. O problema real é a desinformação sintética em escala. Chatbots de persuasão operam por meio de APIs de WhatsApp, Telegram e redes sociais. Eles conversam individualmente com milhões de eleitores, ajustam a linguagem, simulam empatia e reforçam crenças sem deixar registros públicos verificáveis.
A campanha deixa de ser um debate. Vira relacionamento automatizado.
Relatórios internacionais alertam que o micro direcionamento fragmenta a esfera pública. No Brasil de 2026, o efeito é ainda mais visível. O diálogo político se rompe no cotidiano. Os vizinhos deixam de discutir propostas porque já não compartilham a mesma narrativa. Cada eleitor passa a ter uma campanha distinta.
O Tribunal Superior Eleitoral avançou ao exigir rotulagem de conteúdo sintético e ao prever sanções severas. O limite agora é estrutural. A fiscalização humana não acompanha ataques personalizados em massa. Punir o rótulo não resolve quando o problema está no motor.
O Fundo Eleitoral de 2026 transformou partidos em empresas de software e o eleitor em matéria-prima comportamental passível de processamento.
A resposta precisa ser objetiva. Softwares de campanha financiados com recursos públicos devem ser submetidos à auditoria independente de código, critérios de segmentação e origem dos dados. Isso não é censura. É controle do gasto público e defesa da soberania democrática.
Surge aqui a contradição política central de 2026. Os mesmos parlamentares que aprovaram os R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral são aqueles que hoje se recusam a votar uma lei de transparência algorítmica. O Congresso liberou o dinheiro, mas evita iluminar o mecanismo.
Sem acesso ao funcionamento interno, o Estado regula a aparência e ignora o conteúdo. O resultado é o candidato holograma. Ele só existe no recorte do eleitor. Diz o que cada grupo quer ouvir. Não sustenta contradições. Não responde ao confronto de ideias. Não constrói projeto nacional.
O Congresso flexibilizou a responsabilidade fiscal para garantir a sobrevivência tecnológica das cúpulas partidárias. O custo democrático dessa decisão ainda não entrou na conta. Quando a democracia terceiriza sua inteligência estratégica, o voto deixa de ser escolha e passa a ser calculado.
A tecnologia pode fortalecer as eleições. Para isso, precisa obedecer à transparência, à auditabilidade e ao interesse público. Sem esses limites, a democracia brasileira seguirá cara, opaca e cada vez menos capaz de produzir consenso.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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