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Democracia digital

Guerra dos Algoritmos: por que 2026 pode escapar ao TSE

O TSE avançou ao proibir deepfakes, mas sem lei federal para IA preditiva a disputa eleitoral pode virar terreno fértil para a desinformação.

Marcelo Senise

Marcelo Senise

5/3/2026 11:00

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O Tribunal Superior Eleitoral deu passos valiosos ao proibir deepfakes e exigir transparência, mas sem leis federais que enfrentem a IA preditiva e a produção massiva de conteúdo por milhões de eleitores, o pleito de 2026 vira campo fértil para a guerrilha da desinformação — e campanhas sem blindagem estratégica entrarão desarmadas na guerra cognitiva.

O Brasil não está diante de uma eleição comum. A tecnologia não apenas acelera a política; ela a reprograma. As novas resoluções do TSE — proibição de deepfakes, rotulagem de conteúdo sintético, transparência no impulsionamento e responsabilização de plataformas — são avanços inegáveis e merecem ser celebrados. Mas esse escudo foi pensado para fraudes explícitas, não para uma guerra assimétrica de escala algorítmica, em que a IA preditiva age como estrategista invisível, mapeando vulnerabilidades cognitivas e modulando mensagens com precisão cirúrgica.

A IA preditiva não só fabrica conteúdos plausíveis; ela aprende padrões, identifica gatilhos emocionais, segmenta microcomunidades e entrega sequências de mensagens que parecem naturais e inevitáveis. Seu poder está menos no que cria e mais no que antecipa. Nas mãos de milhões de eleitores com ferramentas generativas no celular, prontos para produzir e distribuir conteúdo em massa, o volume e a velocidade deslocam o centro de gravidade do debate público para fora do alcance prático da jurisdição eleitoral.

É aqui que os poderes do TSE se mostram estruturalmente limitados. Resoluções alcançam atores definidos, formatos identificáveis e circuitos visíveis. A guerrilha cognitiva de 2026 opera em outra lógica: conteúdos efêmeros em canais cifrados, microinfluenciadores anônimos, reencaminhamentos em cascata, hospedagens opacas e táticas "spray and pray" otimizadas em tempo real. Não há cartório para registrar esse fluxo, nem fila para intimar, nem tempo processual que acompanhe a meia-vida de um boato que nasce de manhã, explode à tarde e muda de pele à noite.

Dirão que proibir deepfakes e exigir rótulos resolve o grosso do problema. Não resolve. Essas regras atacam o sintoma visível, não o motor invisível. A ameaça central não é o vídeo falso de altíssima fidelidade, mas o ecossistema de mensagens de baixa fidelidade — "verdadeiras o suficiente" — entregues no timing exato para reforçar vieses, corroer confianças e exaurir a atenção cívica. Não é a peça isolada que implode o pleito; é a soma de milhares, cada uma calibrada por IA para cem pessoas, não para cem milhões.

Regras do TSE enfrentam fraudes explícitas, mas a escala algorítmica da IA preditiva exige nova arquitetura legal.

Regras do TSE enfrentam fraudes explícitas, mas a escala algorítmica da IA preditiva exige nova arquitetura legal.Luiz Roberto/TSE

Sem leis ordinárias federais específicas — que tipifiquem práticas vedadas de IA preditiva em campanhas, imponham padrões robustos de transparência e auditoria para plataformas e modelos, viabilizem rastreabilidade interoperável e garantam janelas de resposta coordenada — tentamos conter uma enchente com sacos de areia. O resultado é previsível: 2026 se torna terreno fértil para a guerrilha da desinformação, em que vence quem melhor explora as dobras do sistema informacional, não quem oferece o melhor projeto de país.

Essa assimetria atinge em cheio as campanhas. Quem não investir agora em blindagem — inteligência de ameaças, monitoramento de narrativas, verificação e autenticidade de mídia, equipes de resposta rápida, red teams, parcerias com verificadores, alfabetização digital de base e credenciais de conteúdo em todas as peças oficiais — entrará na guerra cognitiva sem capacete. Reagirá a incêndios pontuais enquanto a floresta queima por combustão silenciosa.

Também é ilusório esperar que plataforma X ou Y resolva o problema sozinha. Precisamos de deveres legais claros e exequíveis: bibliotecas públicas de anúncios com segmentação e gasto; relatórios periódicos de risco e mitigação; rastreabilidade técnica padrão para conteúdos sintéticos; "circuit breakers" de alcance em janelas críticas; interoperabilidade de sinais de autenticidade; sanções proporcionais e certas. E salvaguardas democráticas para esses poderes extraordinários: transparência, due process acelerado e revisão independente. Integridade eleitoral e liberdade de expressão não são opostas; são vigas do mesmo teto.

Há ainda um ponto moral que não cabe apenas ao jurídico: a política é um espaço de persuasão; a IA preditiva pode convertê-la em engenharia comportamental de alta precisão. Quando a fronteira entre "convencer" e "condicionar" se dissolve, a autonomia do eleitor se relativiza e o consentimento democrático perde densidade. Não se trata de demonizar tecnologia, mas de estabelecer limites públicos onde o risco de captura da vontade popular é estrutural.

O TSE fez o que lhe cabia: atualizou regras, repudiou manipulações grotescas, cobrou responsabilidade das plataformas e instalou trilhos mínimos de transparência. É digno de reconhecimento. Mas a Corte não legisla para o país, não controla a conversação privada distribuída e não corre na velocidade dos loops de otimização dos modelos. Exigir do TSE o impossível é álibi perfeito para a inação de quem tem a chave legal: o Congresso Nacional.

O chamado é direto: uma Lei de Integridade Digital Eleitoral já — para delimitar práticas proibidas de IA preditiva, criar deveres de diligência e auditoria, impor rotulagem clara e persistente, articular cooperação ágil e estabelecer um protocolo nacional de resposta a incidentes informacionais. Enquanto ela não chega, campanhas devem agir como se o relógio já tivesse zerado. Se 2018 foi a eleição do WhatsApp e 2022 a da profissionalização digital, 2026 corre o risco de ser a eleição em que modelos estatísticos conheceram o eleitor melhor do que ele próprio — e alguém decidiu usar isso para contornar, não compreender, o país. O TSE ergueu um muro necessário. Mas os ataques já chegam por túneis, drones e enxames. Sem uma arquitetura legal e operacional que cubra o subsolo, o céu e a retaguarda, continuaremos remendando a barragem enquanto a água, como sempre, encontra o caminho de menor resistência. Esta é a hora de escolher que disputa queremos travar — antes que a batalha invisível pelo nosso julgamento próprio decida por nós.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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