Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Geopolítica
9/3/2026 16:30
A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel na última semana, foi corretamente tratada como um ponto de inflexão na política internacional. Em Washington e Tel Aviv, a interpretação ganhou forma conhecida: enfraquecer o regime abriria uma janela para que a sociedade iraniana se libertasse da teocracia que governa o país desde 1979. Trump foi além e conclamou os iranianos a derrubarem o próprio governo, movimentos em tensão com a retórica anti-intervencionista que explorou na campanha.
Essa leitura fala menos sobre o Irã do que sobre o repertório político das potências, em particular dos Estados Unidos de Donald Trump. Ela ilumina uma mudança mais ampla: o que está em jogo não é apenas a sucessão em Teerã, mas o modo como o uso da força vem sendo legitimado e, cada vez mais, dispensado de qualquer justificativa.
Convém começar pelo básico. Regimes autoritários não entram em colapso automaticamente quando sua liderança é eliminada. O impacto varia conforme a arquitetura do regime. Ditaduras personalistas tendem a ser mais vulneráveis a crises sucessórias. Regimes mais institucionalizados costumam absorver choques com maior capacidade de recomposição. O Irã se aproxima muito mais do segundo tipo: é um sistema denso, em camadas, com Conselho de Guardiões, Assembleia de Especialistas, Conselho de Discernimento, Guarda Revolucionária e uma rede clerical que sabe operar sob pressão. A possibilidade de uma sucessão dinástica aponta para fechamento, não abertura. Em poucos dias, já se operava para administrar a transição, e Mojtaba Khamenei, filho do líder morto, passou a ser citado como nome forte — não por consenso consolidado, mas porque sua posição no tabuleiro é plausível.
A expectativa de que milhões de iranianos ocupariam as ruas como efeito moral imediato do assassinato ignora uma condição elementar: ruas bombardeadas não são espaços de mobilização política. O que pode crescer, como consequência não intencional de um ataque estrangeiro, é precisamente o oposto — o nacionalismo defensivo, a paranoia securitária e a margem de manobra do aparato repressivo. Trump, na campanha, foi explícito ao afirmar que não pretendia construir democracias no Oriente Médio à custa de vidas e recursos americanos. O apelo à derrubada do regime, portanto, é a reaparição oportunista de uma esperança que serve ao momento do presidente americano — e talvez de seus aliados em Israel, mas não a um projeto.
É aqui que o caso iraniano revela algo maior. Desde o fim da Guerra Fria, intervenções militares foram frequentemente acompanhadas por promessas de redenção popular. A promoção da democracia virou justificativa recorrente, ao menos no discurso. O que muda agora não é a existência desse recurso retórico, pelo contrário, é o pouco investimento em torná-lo verossímil. Se não há motivos para chorarmos por Khamenei, devemos ao menos nos preocupar com as consequências não-intencionais da ação americana no Irã.
Durante décadas, a política externa das grandes potências operou dentro de uma moldura normativa reconhecível: a ordem liberal internacional. Ela ainda funcionava como
parâmetro, mesmo tendo sido violada inúmeras vezes — Vietnã, Iraque, Síria, uma lista longa. Mesmo quando atuavam à sua margem, sentia-se a necessidade de justificar ações com referência a princípios compartilhados: legalidade internacional, proteção de civis, mandato multilateral. Os argumentos eram frequentemente cínicos, mas reconheciam a existência de um parâmetro comum. E constrangimento retórico, em política internacional, delimita o que é aceitável dizer e, ao delimitar, organiza expectativas, alianças e custos.
A operação que matou Khamenei não foi apresentada como parte de um plano de transição política. O objetivo declarado é destruir capacidades militares e alterar o equilíbrio regional. A democratização aparece, quando aparece, como subproduto ocasional. Sintomático é o slogan sob o qual a Casa Branca enquadrou a ofensiva: Peace Through Strength. A expressão condensa uma concepção de ordem: em vez de uma arquitetura normativa, a promessa é que a estabilidade decorre do poder e se legitima pelo resultado de seu exercício.
Pode ser que a ordem liberal já estivesse moribunda há tempos. Ainda assim, algo sobrevivia na contradição: a obrigação de revestir a força com uma linguagem de princípio, mesmo que por cinismo. Esse reconhecimento preservava um espaço para contestação, denúncia e responsabilização, ainda que limitados. O que se observa agora é a erosão desse mecanismo. Quando o violador deixa de se sentir obrigado a justificar sua ação em relação à norma, a norma não está apenas enfraquecida, mas está fora de operação.
Nesse novo mundo, a ordem internacional e os parâmetros de coexistência entre as nações não são derrotados por um modelo rival mais convincente. Eles simplesmente deixam de ser necessários como argumento. E talvez esse seja o ponto mais relevante sobre o que acontece hoje no Oriente Médio: não o que muda no Irã, mas o que já mudou no mundo.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas