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Liderança política
12/3/2026 15:30
Daqui a quatro meses, nossa seleção de futebol entrará em campo para disputar mais uma Copa do Mundo. Um pouco adiante, em outubro, outro grande evento — talvez menos popular, mas da maior importância — levará milhares de pessoas a disputar não uma taça, mas uma cadeira — na presidência, nos governos estaduais, no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas. São as nossas eleições gerais.
A diferença entre esses dois "campeonatos" não poderia ser mais gritante. Enquanto preparamos meticulosamente nossos jogadores desde cedo, com categorias de base estruturadas, técnicos especializados e investimentos milionários, deixamos nossos políticos aprenderem "jogando" — sem treino, sem preparação, sem infraestrutura adequada.
Os clubes brasileiros da Série A investem, em média, R$260 milhões por ano na formação de atletas das categorias de base. Já os investimentos da filantropia brasileira voltados ao desenvolvimento de lideranças políticas não chegam a R$20 milhões, segundo estimativa da Legisla Brasil. Essa desproporção não é apenas impressionante — é preocupante. Afinal, todos os dias, são os políticos que tomam decisões que afetam a vida de todos os brasileiros.
Essa não é uma realidade só do Brasil, mas de muitos países. Partindo dessa constatação, a Better Politics Foundation, organização alemã suprapartidária e sem fins lucrativos que atua para transformar a maneira como as sociedades desenvolvem seus líderes, lançou o Better Politics Index. O índice é o primeiro, a nível global, a medir estratégias de formação de lideranças políticas, elemento-chave das democracias saudáveis.
O ranking reúne dez países, escolhidos por critérios como diversidade regional, variedade de sistemas políticos, força democrática, tamanho da população e disponibilidade de dados. São eles: Argentina, Austrália, Brasil, França, Alemanha, Quênia, Líbano, Filipinas, Polônia e Reino Unido. A avaliação considera quatro dimensões: treinamento formal, ambiente institucional, ecossistema de liderança política e confiança pública.
Temos time, falta treino
O Brasil ocupa a 4ª posição no ranking geral com 56,8 pontos, atrás de Alemanha, Austrália e Reino Unido. À primeira vista, parece um resultado razoável. Mas os detalhes contam uma história mais complexa e reveladora de nossas contradições.
Nossa maior pontuação vem do critério "ambiente institucional", que mede elementos como a proporção de assessores legislativos, instalações físicas e representatividade das legislaturas. Nesse quesito, alcançamos a segunda melhor marca, com impressionantes 93,2 pontos. Isso se deve à alta proporção de assessores legislativos para cada parlamentar no Brasil. Temos o pessoal de apoio, mas falta o principal: treinamento efetivo para quem está nos bastidores das decisões.
Aliás, para quem está nos bastidores e na linha de frente. Neste ponto, o levantamento escancara uma situação chocante: somos o único país do índice sem qualquer evidência de treinamento oferecido pelo Congresso Nacional aos parlamentares em exercício. Zero. A Alemanha, líder do ranking, oferece treinamento político sistemático tanto para parlamentares quanto para candidatos. É o único país do índice onde essa prática foi encontrada de forma abrangente para todo o espectro partidário.
Importante dizer que o Brasil se destaca no número de programas para lideranças políticas oferecidos pela sociedade civil. Segundo o relatório, temos "um dos maiores e mais fortes ecossistemas de empreendedores de liderança política entre os países do índice". Organizações como a própria Legisla Brasil, RenovaBR e A Ponte vêm preenchendo um vazio deixado pelo Estado e pelos partidos.
Infelizmente, nossa pior pontuação vem no quesito "confiança pública". Somos um dos países que menos confia em seus governantes. Um dado preocupante. Onde a população está descrente da política, abre-se espaço para manobras autoritárias e promessas messiânicas de salvação.
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Enquanto o índice da Better Politics nos diz se o país está criando condições para ter bons políticos, na Legisla criamos a metodologia do GIP (Gabinetes de Impacto Positivo), que ajuda a entender o que faz um político ser efetivo dentro dessas condições. O GIP identifica cinco "preditores de sucesso" dos mandatos. Um deles aponta que os parlamentares mais efetivos se dedicam a fortalecer seus partidos, o que inclui investir na formação de lideranças locais. Nesse sentido, o ciclo se retroalimentaria: quem recebeu apoio para se desenvolver retorna esse investimento às novas gerações.
O relatório da Better Politics Foundation deixa claro: a falta de medição e investimento na liderança política não é falha, é escolha. Escolhemos acreditar que política não precisa de preparo. Que bastam boas intenções, carisma ou "experiência de vida." Mas se exigimos tantos anos de treinamento para formar um jogador de futebol, por que aceitamos que nossos legisladores atuem às custas de erros que afetam milhões?
O que nos falta é tratar a preparação de líderes políticos com a mesma seriedade que tratamos a preparação de atletas. Porque no final, ambos disputam algo importante. Mas apenas um decide o futuro do país.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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