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Memória

Sinfonia de Câmara da Pitombeira

Histórias de resistência revelam personagens apagados e reforçam compromisso com a democracia.

Yussef Campos

Yussef Campos

24/3/2026 9:00

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A cena do premiadíssimo filme "O agente secreto" (Kleber Mendonça Filho), recorde brasileiro de indicações ao Oscar (ao lado de "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles), na qual o protagonista, vivido por Wagner Moura, aguarda a chegada de investidores no aeroporto do Recife, deu cores e imagens a uma cena que ronda minha imaginação.

O belíssimo mural em cerâmica "Sinfonia Pastoral", de Francisco Brennand, produzido em 1951 e inaugurado em 1958, é destaque na cenografia. A obra de arte, que tinha guarida no antigo aeroporto do Recife, é, desde 2004, abrigada pelo atual aeroporto internacional dos Guararapes, na Zona Sul da cidade.

Naquela mesma locação de Mendonça Filho, sob os auspícios de Brennand, habita minha memória imagética. Lá, desembarcava o acadêmico de Medicina Iano, naquela mesma década de 1970, em busca de Dom Hélder Câmara, um dos maiores símbolos da luta contra a ditadura no Brasil, com a finalidade de formalizar o convite para que o arcebispo emérito de Olinda e Recife fosse o paraninfo da turma de medicina de 1978.

Iano Salomão de Campos, aluno da Universidade Federal de Juiz de Fora, foi membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE), exercendo representação discente em alguns órgãos universitários, entre 1973 e 1978, como a COPERTIDE (Comissão Permanente de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva), entre 1973-1974; e no Conselho Universitário, de 1974 em diante. Seu histórico de representação discente, de militância estudantil e de embates progressistas, além da condição de orador de turma, o legitimou como porta-voz para o chamamento.

Aceito o convite, estiveram presentes Iano e Dom Hélder no palco do Theatro Central, na mineira Juiz de Fora, aos 14 de julho de 1978, para a cerimônia de colação de grau. No teatro que, segundo relatos de familiares e amigos do formando, estava repleto de militares à paisana, realizou-se o rito de passagem, que diplomou Iano como médico e formalizou D. Hélder como referência intelectual daqueles estudantes.

Trajetórias de militantes e estudantes expõem marcas da repressão e da luta democrática.

Trajetórias de militantes e estudantes expõem marcas da repressão e da luta democrática.Freepik

Em seu discurso, Iano foi contundente em suas críticas contra a gestão federal, afirmando que "nosso Hospital-Escola, [...], esquecido pelas autoridades competentes, apesar do grande trabalho que desenvolve em prol da comunidade, contorcia-se em suas próprias dificuldades. Carente de recursos mínimos ao funcionamento de um hospital, obrigado a improvisar salas de atendimento, ao racionamento de raios X, a levar seus docentes ao acúmulo das atividades de professor curricular, orientador de Internato, staff de Residência, médico de ambulatório, médico de enfermaria"*.

Pode parecer uma crítica pontual, mas não nos esqueçamos que o orador era membro do Diretório Central dos Estudantes, durante a vigência do AI-5 e antes da Lei de Anistia, de 1979.

Completa Iano: "Pela necessidade de verbas que viessem minimizar sua agonia, o Hospital-Escola é submetido a convênio com órgão previdenciário, redundando em maior prejuízo do ensino, dado a necessidade, entre outros, de aumentar a rotatividade dos leitos, satisfazendo as antipáticas exigências porque primam os órgãos da Previdência. Negando-se recursos, obriga-se a soluções de emergência como o convênio. Um ótimo negócio para a Previdência, a única saída para o Hospital-Escola. Um jogo sórdido"*.

Abjeta é também a detenção de Edival Cajá, que estaria presente naquele aeroporto para mediar o encontro entre Iano e D. Hélder. Ausentou-se porque foi detido antes disso pelos agentes da repressão, acusado de subversão. Foi mantido preso até 1979, tendo sido torturado durante o período no qual enfrentou o cárcere.

Cajá tem algo desse agente secreto que nas linhas da historiografia pouco aparece, mas muito tem lutado, desde a década de 1970, a favor de frentes democráticas, ao denunciar os crimes praticados pelo Estado brasileiro. Com mais de sete décadas de vida, foi homenageado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e atuou como coordenador do Comitê Verdade, Memória e Justiça de Pernambuco.

Precisamos falar mais desses personagens, da ditadura, da tortura e do terrorismo de Estado para recordar e elaborar, e não mais repetir. Há algo de troça carnavalesca "Pitombeira dos Quatro Cantos" e de "Perna Cabeluda" na trajetória de Cajá, de Iano e de D. Hélder. E sobra compromisso com a democracia em suas biografias.

*Transcrição de áudio-registro da colação de grau da turma de Medicina – 14 de julho de 1978, Universidade Federal de Juiz de Fora. Arquivo pessoal.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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