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Indústria
24/3/2026 14:37
Recentemente, publicações internacionais especializadas em inteligência de mercado de commodities — cujo acesso é restrito a traders, siderúrgicas e formuladores de política comercial global — se fixaram numa incoerência da política comercial brasileira: um país estruturalmente dependente de importações para abastecer seu próprio mercado interno que escolhe sobretaxá-las. No vocabulário econômico brasileiro, isso tem nome: jabuticaba.
O produto em questão é a folha-de-flandres — o aço que dá forma às latas de sardinha, leite em pó, milho, extrato de tomate e tantos outros itens que abastecem a mesa de milhões de brasileiros. O Brasil tem, para esse insumo, um único produtor doméstico. Um. E é esse produtor que peticionou ao governo uma investigação antidumping contra as origens que respondem por 95% de nossas importações. A Secretaria de Comércio Exterior (Secex) abriu a investigação, encontrou indícios preliminares de dumping em importações da Alemanha, do Japão e dos Países Baixos e conduz agora o processo que pode resultar em taxação. O mundo observa. Nós precisamos falar. Não sobre a peticionária. Sobre a política pública.
O instrumento antidumping existe para corrigir distorções de mercado — não para resolver equações financeiras corporativas. O balanço do 4T25 da única produtora doméstica é revelador: prejuízo líquido de R$ 721,2 milhões, uma ampliação de 748% em relação ao mesmo período do ano anterior. No consolidado de 2025, as perdas somaram R$ 1,5 bilhão. A dívida líquida do grupo atingiu R$ 41,2 bilhões, com alavancagem de 3,47 vezes o EBITDA. A própria administração atribui esses resultados a paradas de manutenção programadas e ociosidade operacional — fatores estritamente internos, sem relação com a concorrência externa. O problema não está na importação. Está na gestão de uma companhia que acumula R$ 41 bilhões em dívida e pede ao Estado que corrija o que sua própria operação não consegue sustentar. E quem paga essa conta? A cadeia inteira.
O aço representa até 70% do custo de produção de uma lata. Em itens como sardinha e leite em pó, a embalagem metálica responde por 26% e 15% do preço final ao consumidor, respectivamente. Qualquer sobretaxação do insumo não fica na fábrica — percorre toda a cadeia e chega ao carrinho de supermercado. O setor de embalagens metálicas opera com margens entre 8% e 10%, enquanto suporta a pressão de um fornecedor único que não consegue atender sozinho à demanda nacional — nem em volume, nem em especificação técnica. São 25 mil empregos diretos, em indústrias familiares brasileiras de médio e grande porte, reféns de uma estrutura de mercado que o próprio governo ajudou a criar e agora se recusa a questionar.
Há ainda o que o mercado internacional já percebeu e nós fingimos não ver: o abismo tecnológico. O mundo opera com chapas de 0,10mm. O Brasil ainda trabalha com 0,15mm. Os aços japoneses e alemães sob investigação não são apenas competitivos em preço — têm padrões técnicos que o mercado doméstico simplesmente não oferece. O Japão, em particular, é reconhecido mundialmente pela rigorosidade de seus processos. Bloquear esse acesso não protege a indústria nacional. Condena-a ao atraso — e reduz sua competitividade frente a substitutos como o plástico e o vidro.
O risco mais imediato é concreto. Se as chapas forem sobretaxadas, a indústria de bens de consumo pode ser forçada a importar latas prontas em vez de produzi-las aqui. Seríamos um caso raro — possivelmente único país do mundo, a destruir empregos industriais próprios para proteger um fornecedor único que, apesar do monopólio, acumula prejuízo há dois anos consecutivos e carrega uma dívida maior do que o PIB de vários estados brasileiros.
Apesar de todas as medidas de defesa comercial adotadas nos últimos anos, as importações não caíram. Seguem sustentadas pelas mesmas origens sob investigação — porque o mercado precisa delas para funcionar. Esse dado, por si só, deveria ter pesado decisivamente no debate. E é por isso que a fase de interesse público agora é decisiva.
A lei determina que o governo pese, na mesma balança, os impactos sobre consumidores, trabalhadores e toda a cadeia produtiva — não apenas os interesses do peticionário. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e a Secex têm diante de si uma escolha: usar o instrumento como foi concebido, para equilibrar mercados, ou permitir que ele sirva para proteger um único elo em crise financeira às custas de todos os outros.
O Brasil não precisa escolher entre indústria e consumidor. Precisa de uma política comercial que saiba a diferença entre defender um setor e financiar a inoperância de um fornecedor doméstico único. Isso sim seria política industrial. O resto é jabuticaba mesmo.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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