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Economia

Quer mais produtividade? Comece pelas cidades

Décadas de subsídios não elevaram eficiência, enquanto cidades perderam dinamismo e acumulam entraves à atividade econômica.

Rafael Richter

Rafael Richter

25/3/2026 15:03

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Estimativas do Observatório da Produtividade da FGV mostram que entre 1996 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu apenas 0,8% ao ano, e entre 2020 e 2024, subiu 0,3% ao ano. São, portanto, décadas andando de lado. Nesse período, concedemos subsídios, direcionamos crédito e protegemos setores, sem a devida avaliação dos resultados dessas políticas, em uma aposta de que esse esforço nacional desenvolveria o país. Esse caminho, tentado repetidas vezes sob formatos diferentes, não entregou o resultado prometido - e custou muito caro.

Diferente da indústria e dos serviços, o agro e a indústria extrativa tiveram ganhos expressivos de produtividade. Como esses setores são menos dependentes dos benefícios de escala das cidades, esse crescimento, acompanhado da estagnação de atividades mais urbanas, acabou reduzindo a relevância relativa das grandes cidades no PIB nacional.

O PIB dos municípios mostra que as capitais perderam participação na economia nacional. Em 2002, as 27 capitais respondiam por 36,1% do PIB e, em 2023, esse percentual caiu para 28,3%. Esse movimento se explica, em parte, porque as grandes cidades (mais de 300 mil habitantes), foram as mais afetadas pela crise de 2015 e pela pandemia, que somadas anularam o crescimento per capita real acumulado entre 2010 e 2023. No mesmo período, pequenas e médias cidades cresceram significativamente, impulsionadas pelo avanço do Fundo de Participação dos Municípios, pelo dinamismo do agro e por um choque menos intenso da pandemia.

O Brasil perdeu dinamismo nas suas grandes cidades, apesar de termos dobrado a aposta em isenções e subsídios para empresas. A previsão padrão dos economistas é que a aglomeração nas cidades deveria gerar ganhos na forma de melhor matching entre empresas e trabalhadores, mais difusão de conhecimento, maior especialização e mais inovação. No entanto, a área também prevê "deseconomias de aglomeração" que geram problemas como o trânsito, a violência, a poluição e o aumento do custo de vida. Nas maiores cidades brasileiras, as deseconomias de aglomeração parecem superar os benefícios da aglomeração, o que justifica a estagnação que observamos.

Baixa acessibilidade urbana e problemas estruturais reduzem produtividade e ajudam a explicar estagnação econômica.

Baixa acessibilidade urbana e problemas estruturais reduzem produtividade e ajudam a explicar estagnação econômica.Freepik

Nossas cidades concentram gente, empregos e atividade, mas fazem isso em meio a fricções que diluem os efeitos positivos da aglomeração de pessoas. O trabalhador perde com longos deslocamentos. A empresa perde tempo e eficiência com logística urbana ruim.

Problemas climáticos fecham comércios, destroem infraestrutura e dilapidam a pouca poupança de diversas famílias. A violência altera trajetórias que poderiam ser brilhantes, encarece operações e reduz a circulação de pessoas. A forma urbana dispersa e segregada limita o acesso de milhões de pessoas a empregos, escolas, serviços e redes de contato. É claro que isso limita a produtividade do país.

O AOP-LAB do Ipea define acessibilidade urbana como a facilidade de alcançar empregos, serviços de saúde, educação e outras oportunidades, sendo um indicador que depende tanto da eficiência do transporte quanto da proximidade entre pessoas e atividades. Esse é o coração econômico do problema: baixa acessibilidade encolhe as oportunidades, fragmentando a cidade em bolsões desconectados em vez de um sistema integrado.

Será que, em termos de crescimento econômico, o enorme esforço em criar benefícios para setores específicos é mais eficiente do que investir em acessibilidade urbana? A experiência indica que não, já que a atual política econômica dificilmente corrigirá os problemas urbanos que limitam nossos ganhos de produtividade nas cidades.

Se o objetivo é resgatar a produtividade, devemos reconhecer as cidades como mercados de trabalho, espaços de inovação, redes de aprendizagem e ambientes de bem-estar. Isso exige uma agenda de investimentos e mudanças urbanísticas que, conjuntamente, priorizem maior acessibilidade urbana e promovam uma infraestrutura resiliente capaz de preservar a economia diante das mudanças climáticas.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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