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Eleições

A bula do veneno: por que o rótulo do TSE não vai salvar o eleitor em 2026

A rotulagem de IA é um placebo cognitivo. O dano emocional acontece antes da leitura racional — e o TSE ainda não descobriu como se regula aquilo que atinge o eleitor no lugar mais íntimo: a emoção.

Marcelo Senise

Marcelo Senise

26/3/2026 11:18

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O Tribunal Superior Eleitoral acredita que exigir um rótulo informando o uso de inteligência artificial nos conteúdos políticos é suficiente para proteger o eleitor. A intenção é válida. O problema é que não funciona. A rotulagem de IA é, no fundo, um placebo cognitivo: oferece a sensação de segurança onde não há proteção real. É como entregar a bula do veneno depois que ele já circula pelo sangue.

A razão é simples e profundamente humana: o impacto emocional antecede a interpretação racional. Antes de ler o rótulo, antes de refletir sobre o aviso, antes de considerar o conteúdo — o corpo já sentiu. Medo, raiva, esperança, repulsa, identificação: a emoção reage em milissegundos, enquanto a razão caminha com a lentidão de quem chega sempre tarde demais.

Em meu livro A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política, dedico um capítulo inteiro aos vieses cognitivos que estruturam decisões políticas sem que percebamos. A política, como mostro ali, nunca foi sobre fatos — foi sempre sobre afetos. Mas agora, com a IA generativa operando em escala industrial, esses afetos deixaram de ser fenômenos humanos espontâneos e passaram a ser engenharia de comportamento. E rotular engenharia não limita seu efeito.

O TSE mira o que é visível: o conteúdo manipulado, a imagem fabricada, o áudio sintético. Mas a ameaça está no invisível: nos softfakes. Não são mentiras grotescas; são verdades calibradas. Não chocam; seduzem. Não gritam; sussurram exatamente o que o eleitor já tende a acreditar. São peças emocionais ajustadas com precisão cirúrgica para explorar vieses individuais — e nenhuma rotulagem é capaz de bloquear esse caminho interno.

Quando o eleitor lê "conteúdo produzido com IA", o estímulo já cumpriu sua função. O rótulo é um aviso tardio, como um semáforo colocado depois da curva. O dano — emocional, simbólico e político — já se instalou.

E há algo ainda mais preocupante: a própria exigência do rótulo cria uma falsa sensação de segurança institucional. É como se estivéssemos dizendo ao eleitor que tudo que não tem aviso é orgânico, autêntico, humano. Não é. Grande parte das manipulações de 2026 não virá de deepfakes explícitos, mas de microajustes invisíveis: cortes de câmera, entonações ajustadas, saturação emocional, narrativa subliminar, velocidade do vídeo, acelerações sutis, construções quase naturais. O algoritmo sabe que o eleitor não reage à imagem — reage ao afeto embutido nela.

Aviso sobre uso de inteligência artificial cria sensação de segurança, mas não impede manipulação emocional do eleitor.

Aviso sobre uso de inteligência artificial cria sensação de segurança, mas não impede manipulação emocional do eleitor.Freepik

A rotulagem não previne esse mecanismo, assim como a lista de ingredientes não impede ninguém de desejar o alimento ultraprocessado. Informação não desarma emoção. E eleição é emoção pura.

Além disso, enquanto candidatos tentam seguir as regras, o ambiente digital age sem esperar por elas. Plataformas amplificam discursos que maximizam engajamento — e engajamento, por definição algorítmica, é a exploração dos vieses emocionais mais primários. O TSE consegue rotular vídeos; o algoritmo consegue rotular pessoas.

Campanhas que, acreditando na rotulagem, buscam aparentar perfeição tecnológica entram num terreno ainda pior: o da desumanização estética. Como venho defendendo no IRIA, estamos produzindo candidatos higienizados, pasteurizados, desconectados — e o eleitor rejeita o que não reconhece como humano. No Uncanny Valley político, perfeição é sinônimo de falsidade. A tentativa de responder à IA com mais IA cria uma política plastificada, emocionalmente estéril e cognitivamente frágil.

O único antídoto real é justamente o oposto do que o ambiente digital produz: humanidade imperfeita. A vulnerabilidade como autoridade. A imperfeição como credibilidade. A Aesthetics of Truth como bússola ética num mar de estímulos sintéticos. O eleitor não busca placa de aviso — busca alguém que ainda pareça de carne e osso.

A rotulagem é necessária, mas absolutamente insuficiente. Não protege. Não neutraliza. Não equilibra a disputa. No máximo, burocratiza a aparência de segurança.

Se quisermos defender a democracia em 2026, precisamos admitir que a batalha não é contra o deepfake — é contra o deepfeel. Não disputamos imagens: disputamos emoções. E emoção não lê rótulo.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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