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Inovação
27/3/2026 13:22
Programas públicos de apoio à inovação ocupam uma posição paradoxal nos ecossistemas inovadores. Podem atuar como motores silenciosos de transformação territorial, inclusão produtiva e geração de capacidades tecnológicas. Mas, quando mal desenhados, produzem o efeito oposto: excluem, concentram oportunidades e, em alguns casos, enfraquecem os próprios ecossistemas que pretendem fortalecer.
Mais do que instrumentos administrativos, políticas públicas de inovação são arquiteturas de acesso. Elas definem quem consegue entrar, quem permanece e quem, silenciosamente, fica de fora.
A literatura internacional é clara ao apontar que políticas públicas bem estruturadas ampliam investimentos em pesquisa e desenvolvimento, criam redes e alteram comportamentos ao longo do tempo. Relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que os países líderes em inovação combinam estabilidade institucional, coordenação entre níveis de governo e políticas contínuas de fomento. O Índice Global de Inovação 2024 reforça essa constatação.
No entanto, entre a intenção e o impacto real existe um ponto crítico: o desenho do programa e sua relação com o território que pretende servir. Ecossistemas de inovação não surgem espontaneamente. Eles emergem da interação entre empresas, universidades, governo e sociedade civil. Nesse arranjo, programas públicos cumprem funções estratégicas: reduzem riscos para empreendedores, conectam atores dispersos, difundem conhecimento e, em alguns casos, atuam como indutores iniciais de demanda.
Mas a eficácia desses instrumentos não depende apenas do volume de recursos investidos. Depende, sobretudo, de como esses programas chegam ou deixam de chegar às pessoas.
Um exemplo relevante no contexto brasileiro é a rede TEIA, iniciativa da Prefeitura de São Paulo coordenada pela Agência São Paulo de Desenvolvimento (ADE SAMPA). Distribuídos por diferentes regiões da cidade, inclusive áreas periféricas tradicionalmente afastadas dos grandes circuitos de inovação, esses espaços públicos oferecem coworking gratuito, capacitação técnica e conexões com redes de mercado.
Segundo dados oficiais, a rede acumulou mais de 200 mil acessos em seus primeiros anos de operação. No mesmo período, São Paulo passou a registrar a abertura média de mais de mil empresas de base tecnológica por mês, impulsionada por políticas municipais de desburocratização e apoio ao empreendedorismo. Os números indicam que infraestrutura pública de inovação, quando territorializada e acessível, pode funcionar como porta de entrada real para novos empreendedores.
Mas a existência da estrutura, por si só, não garante inclusão. Um dos erros mais recorrentes nas políticas públicas de inovação é confundir divulgação formal com acesso efetivo. Editais publicados em portais oficiais, plataformas digitais complexas e linguagem excessivamente técnica raramente dialogam com a realidade da maior parte da população. Em um país marcado por desigualdade digital, esse problema é estrutural.
O resultado é um fenômeno conhecido: baixa adesão interpretada como baixa demanda. Na prática, trata-se de um problema de desenho do produto público. Quando poucos se inscrevem em um programa, o mais provável é que a comunicação não tenha alcançado os públicos corretos, que os critérios tenham sido excludentes ou que o formato não dialogue com a rotina dos potenciais beneficiários. A própria OCDE tem defendido que programas eficazes incorporem escuta ativa, co-criação e metodologias centradas no usuário desde a fase de concepção.
Sem isso, surge outro risco estrutural: a captura institucional. Programas passam a atender majoritariamente atores já consolidados, grandes empresas, universidades de elite, startups bem capitalizadas reproduzindo desigualdades regionais e territoriais. O ecossistema se fortalece no papel, mas se fragiliza socialmente.
Para cidades como São Paulo e para países emergentes, o desenho dos programas públicos de inovação pode ser mais decisivo do que o volume absoluto de recursos investidos. Políticas orientadas ao território, com acesso distribuído e governança local, tendem a gerar maior diversidade de empreendedores, soluções mais aderentes aos problemas reais e maior resiliência institucional.
Programas públicos são instrumentos poderosos. Mas inovação não se propaga sozinha. Ela é construída por pessoas, em territórios concretos. Quando políticas públicas ignoram essa dimensão, tornam-se infraestruturas vazias bem-intencionadas, bem regulamentadas, mas incapazes de produzir impacto duradouro.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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