Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Política
1/4/2026 11:12
Vi, dias atrás, uma senhora usando uma camiseta com a frase "Volta Mito". Não era apenas uma peça de roupa. Era um enunciado político, um gesto público, uma confissão afetiva. A frase, curta e aparentemente trivial, condensava um mundo inteiro: saudade, fidelidade, ressentimento, esperança e, sobretudo, uma forma muito brasileira de lidar com a crise — a crença de que a saída não está em instituições, projetos ou pactos, mas no retorno de um homem investido de excepcionalidade.
No Brasil de hoje, não há muita ambiguidade sobre o referente desse slogan. A palavra "mito" foi incorporada por apoiadores de Jair Bolsonaro como um título carismático, quase uma patente afetiva. E isso persiste mesmo depois de ele ter sido declarado inelegível por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral e condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão no julgamento da trama golpista; em março de 2026, o STF ainda lhe concedeu prisão domiciliar temporária por razões de saúde, sem afastar a condenação criminal. Nesse contexto, "Volta Mito" não remete, em termos plausíveis, nem a Jesus Cristo nem ao messias da tradição judaica. Remete a Bolsonaro. E remete, mais profundamente, a uma necessidade coletiva de salvação personalizada.
É precisamente aí que a camiseta deixa de ser anedota e vira sintoma. O problema já não é apenas o bolsonarismo como força política organizada. O problema é a persistência de um tipo de imaginação pública que precisa fabricar mitos para suportar a realidade. Quando uma parcela da sociedade se vê diante de inflação, insegurança, precarização do debate público, desinformação, esvaziamento institucional e descrença nas mediações democráticas, a tentação de substituir a complexidade por um rosto forte se torna enorme. O mito aparece como atalho cognitivo e abrigo emocional: ele simplifica o mundo, oferece culpa pronta aos inimigos e promete restaurar, por vontade própria, uma ordem que o cotidiano já não entrega.
Essa lógica é velha. E é justamente por ser velha que continua tão eficaz.
O mito não é um governante: é um arranjo afetivo
Chamar um líder de "mito" não é elogiá-lo apenas. É retirá-lo do campo comum da política. O governante, numa democracia, deve ser examinado, comparado, criticado, responsabilizado. O mito, ao contrário, não é examinado: é sustentado. Não precisa ser coerente o tempo todo, nem eficiente o suficiente, nem juridicamente ileso. Basta continuar ocupando o lugar simbólico de quem "encarna" o grupo.
É por isso que condenações, inelegibilidades e derrotas não dissolvem necessariamente esse tipo de vínculo. Em alguns casos, elas o reforçam. O líder passa a ser visto como perseguido, sacrificado, humilhado pelas elites, expulso do jogo justamente porque seria o único "autêntico". O que deveria enfraquecê-lo, na imaginação devocional, o santifica. A punição institucional deixa de ser lida como consequência de atos e passa a ser traduzida como prova de grandeza.
Não se trata aqui de ignorância simples. Trata-se de estrutura emocional. A realidade, quando atinge o mito, pode ser rejeitada não porque os fatos sejam invisíveis, mas porque aceitá-los desmontaria uma forma de pertencimento. A crença resiste não apesar do desmentido, mas muitas vezes graças a ele.
Freud e o amor político
Freud continua sendo um dos autores mais úteis para entender essa engrenagem. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, ele mostrou que grupos e massas se organizam por laços afetivos profundos e que o líder pode ocupar o lugar do ideal do eu — aquilo que o sujeito admira, deseja e projeta como figura superior. A relevância desse texto para compreender a relação entre líderes, propaganda e seguidores segue amplamente reconhecida.
Traduzindo isso para a cena brasileira: quem veste "Volta Mito" nem sempre está defendendo um programa. Muitas vezes está defendendo uma imagem de si mesmo refletida no líder. Ama-se, no chefe, a fantasia de ordem, virilidade, revanche, pureza moral, estabilidade ou grandeza nacional. O vínculo, portanto, não é meramente racional. É narcísico, identificatório, emocional.
Por isso a crítica ao líder costuma ser vivida como ataque pessoal. O seguidor não sente que o questionamento se dirige apenas a Bolsonaro; sente que se dirige a ele próprio, ao grupo do qual faz parte, ao mundo simbólico em que se reconhece. O resultado é conhecido: fatos perdem peso, narrativas ganham densidade, e a política escorrega do campo do juízo para o campo da fidelidade.
O anônimo quer ser visto
Há outro elemento que costuma passar despercebido, mas é central. O slogan não exalta apenas o líder; ele também resgata o seguidor da invisibilidade.
Em sociedades desiguais, aceleradas e frustrantes, milhões de pessoas vivem como se fossem socialmente descartáveis. Trabalham, envelhecem, adoecem, pagam contas, votam, mas raramente sentem que importam. O espaço público não as escuta. As instituições não as acolhem. O cotidiano as esmaga na rotina da sobrevivência. Nessa condição, a adesão a uma identidade política forte pode funcionar como forma de reaparecimento simbólico.
A camiseta, então, deixa de ser só propaganda. Vira declaração de existência. Ao dizer "Volta Mito", o indivíduo também está dizendo: "eu estou aqui", "eu pertenço", "eu tenho lado", "eu não sou invisível". O líder oferece à massa aquilo que a vida social lhe negou: reconhecimento.
A nostalgia ajuda a selar esse vínculo. Em contextos de perda e desorientação, ela pode reforçar sensação de continuidade, pertencimento e proteção psíquica. Mas, quando capturada pela política, a nostalgia deixa de ser memória e passa a ser método de fuga. Não se recorda para compreender; recorda-se para escapar. O passado é editado, higienizado, romantizado. E o presente, que exigiria análise dura e soluções difíceis, é substituído por um retorno imaginário a um tempo supostamente mais simples.
Nem Cristo, nem o messias judaico: o que há é messianismo político
A pergunta sobre o sentido da frase também permite um esclarecimento importante. A tradição judaica clássica espera a vinda do messias; não se organiza em torno do retorno de um messias já historicamente vindo. A tradição cristã, por sua vez, fala da segunda vinda de Cristo, mas isso pertence ao horizonte escatológico do fim dos tempos, do juízo e da redenção, não ao da reposição de uma liderança política contingente. Assim, a hipótese mais plausível para "Volta Mito", no Brasil atual, continua sendo mesmo a referência a Bolsonaro, e não uma fórmula religiosa em sentido estrito.
Mas a semelhança estrutural com o imaginário religioso é inegável. O que se vê é uma espécie de messianismo secularizado. O líder político absorve afetos de salvação que, em outra esfera, seriam dirigidos ao transcendente. Ele passa a ser imaginado como aquele que volta para purificar a nação, reordenar o caos, derrotar inimigos e restaurar uma verdade perdida.
Essa operação é intelectualmente frágil e politicamente corrosiva. Nenhum governante deve carregar simbolicamente a tarefa de redimir o país. Quando isso acontece, a democracia se enfraquece, porque deixa de exigir instituições sólidas e passa a esperar milagres administrativos de uma figura providencial.
Adorno e a sedução da ordem simples
A crítica de Theodor Adorno e de seus colaboradores à personalidade autoritária continua atual justamente porque ela mostra como certos sujeitos e ambientes sociais se tornam mais receptivos a lideranças fortes, moralismos simplificadores e divisão rígida entre "nós" e "eles". A obra permanece uma referência clássica para compreender vulnerabilidades a ideologias antidemocráticas e à submissão a autoridades idealizadas.
O bolsonarismo soube explorar isso com grande eficiência. Sua gramática pública é feita de dualismos: patriotas contra traidores, cidadãos de bem contra degenerados, verdadeiros brasileiros contra conspiradores, povo autêntico contra instituições supostamente corrompidas. Essa linguagem não explica o país; ela o dramatiza. E justamente por isso seduz.
Num mundo difícil, a simplificação funciona como anestesia. O líder autoritário não precisa oferecer um diagnóstico sofisticado. Precisa oferecer uma sensação de nitidez. Seu valor está menos na qualidade das respostas do que na redução do mal-estar. Ele corta a ambiguidade, nomeia o inimigo, promete força. O custo é conhecido: pensamento empobrecido, debate degradado e política transformada em guerra moral permanente.
Hannah Arendt e a destruição do juízo
Se Freud ajuda a compreender o vínculo afetivo com o líder, Hannah Arendt ajuda a compreender a falência política que decorre desse vínculo. Arendt é uma das principais referências do pensamento político do século XX exatamente por sua reflexão sobre totalitarismo, liberdade, espaço público e julgamento.
O ponto arendtiano é decisivo: a democracia depende de um mundo comum onde pessoas diferentes possam aparecer, argumentar, discordar e julgar. Quando esse espaço é corroído por slogans, devoções e automatismos emocionais, a política perde espessura. O cidadão deixa de participar de um universo compartilhado e passa a reagir dentro de uma comunidade de crença.
"Volta Mito" é, nesse sentido, um enunciado regressivo. Ele não pergunta o que deve ser feito com os problemas do presente. Não formula agenda, não enfrenta contradições, não mede consequências. Apenas convoca um retorno. E isso diz muito. Em vez de futuro, oferece repetição. Em vez de responsabilidade, oferece esperança passiva. Em vez de juízo, oferece saudade organizada.
Arendt teria identificado aí um sintoma de empobrecimento do espaço público. Uma sociedade que troca o trabalho do pensamento pela espera de um salvador está deixando de agir politicamente no sentido mais elevado do termo. Está se entregando à sedução da tutela.
O risco brasileiro
O mais preocupante não é apenas que ainda existam pessoas vestindo a devoção a Bolsonaro. O mais preocupante é que o país continue produzindo o terreno psíquico e social em que esse tipo de devoção floresce.
O Brasil segue sendo uma máquina de insegurança material, desigualdade histórica, humilhação cotidiana e descrença institucional. Nesse ambiente, o mito encontra fertilidade. O cidadão ferido procura força; o invisível procura reconhecimento; o ressentido procura vingança; o desorientado procura clareza. O líder carismático aparece como resposta total para carências que, na verdade, exigiriam reconstrução institucional, justiça social, horizonte de desenvolvimento e debate público qualificado.
Mas o mito nunca entrega isso. No máximo, organiza afetos. Dá linguagem ao rancor, estética à nostalgia e musculatura simbólica à frustração. Seu triunfo é emocional antes de ser político. Seu poder é compensatório antes de ser programático.
E exatamente por isso ele continua perigoso, mesmo quando já foi judicialmente alcançado, eleitoralmente limitado e criminalmente condenado. Porque o mito não vive apenas dos fatos; vive das faltas de uma sociedade.
Conclusão
Uma camiseta pode parecer pouca coisa. Mas há momentos em que um país inteiro se deixa ler numa frase estampada no peito de alguém.
"Volta Mito" é menos sobre a volta de um homem do que sobre a dificuldade de uma sociedade em sair da infância política. O apelo ao salvador da pátria sempre parece sedutor porque simplifica o sofrimento coletivo: desloca para uma pessoa a tarefa de resolver aquilo que só instituições sólidas, cidadania exigente e compromisso com o futuro poderiam enfrentar. O problema é que esse tipo de imaginação pública não amadurece a democracia; corrói-a.
Nenhuma república séria se sustenta em torno de mitos. Repúblicas precisam de leis, controles, freios, projetos, pactos e cidadãos capazes de pensar para além de suas devoções. Quando a esperança nacional se torna dependente do retorno de um líder idealizado, o que se perde não é apenas o senso de realidade. Perde-se também o senso de responsabilidade coletiva.
É por isso que a cena da camiseta não deve ser tratada como folclore da polarização. Ela é aviso. O país que continua procurando mitos continua fugindo de si mesmo. E toda vez que a política se transforma em espera por um redentor, o futuro recua mais um pouco.
Referências
ADORNO, Theodor W.; FRENKEL-BRUNSWIK, Else; LEVINSON, Daniel J.; SANFORD, R. Nevitt. The authoritarian personality. New York: Harper & Brothers, 1950.
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BRITANNICA. Group Psychology and the Analysis of the Ego. Encyclopaedia Britannica, [s. d.]. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Group-Psychology-and-the-Analysis-of-the-Ego. Acesso em: 1 abr. 2026.
BRITANNICA. Nostalgia. Encyclopaedia Britannica, 24 fev. 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/science/nostalgia. Acesso em: 1 abr. 2026.
BRITANNICA. The authoritarian personality. Encyclopaedia Britannica, [s. d.]. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/The-Authoritarian-Personality. Acesso em: 1 abr. 2026.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Hannah Arendt. Stanford, [s. d.]. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/arendt/. Acesso em: 1 abr. 2026.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF concluiu julgamento de ações contra réus que planejaram golpe de Estado. Brasília, 17 dez. 2025. Disponível em: https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-concluiu-julgamento-de-acoes-contra-reus-que-planejaram-golpe-de-estado/. Acesso em: 1 abr. 2026.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF concede prisão domiciliar temporária ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Brasília, 24 mar. 2026. Disponível em: https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-concede-prisao-domiciliar-temporaria-ao-ex-presidente-jair-bolsonaro/. Acesso em: 1 abr. 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Por maioria de votos, TSE declara Bolsonaro inelegível por 8 anos. Brasília, 30 jun. 2023. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Junho/por-maioria-de-votos-tse-declara-bolsonaro-inelegivel-por-8-anos. Acesso em: 1 abr. 2026.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas