Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Economia
6/4/2026 17:34
Qualquer consumidor que vai ao supermercado antes da Páscoa percebe um padrão claro: os chocolates estão menores, mais caros e com um sabor diferente. As tradicionais barras de 200 gramas, que eram o padrão da indústria na década de 1990, foram fatiadas ano após ano até chegarem aos atuais 80 ou 90 gramas. Ao mesmo tempo, a manteiga de cacau foi perdendo espaço para gorduras vegetais hidrogenadas e aromatizantes. O que temos hoje nas prateleiras, muitas vezes, é apenas um produto com "sabor chocolate".
A resposta fácil e politicamente conveniente para esse cenário é culpar a ganância corporativa. O discurso populista vende a ideia de que o empresário reduz a qualidade simplesmente para explorar o consumidor e maximizar lucros. Na prática, quem entende o funcionamento do mercado sabe que essa tese não para de pé. Em um ambiente competitivo, degradar o próprio produto é um risco calculado de perder clientes para a concorrência. A redução de tamanho (reduflação) e a piora nos ingredientes (skimpflation) não são um plano de dominação, mas uma estratégia de sobrevivência em um ambiente de negócios tóxico.
O principal responsável por essa degradação atende pelo nome de inflação, um problema gerado em Brasília, não nas fábricas. A inflação corrói o poder de compra da moeda de forma implacável. Quando o governo gasta sistematicamente mais do que arrecada e gera instabilidade, o Real perde valor. Se somarmos a isso o recente choque global nos preços do cacau, o impacto no Brasil é dobrado pela nossa desvalorização cambial estrutural. Importar matéria-prima de qualidade tornou-se um luxo.
Além do câmbio e da inflação, há o peso esmagador do Custo Brasil. A indústria nacional opera sob uma teia tributária irracional, pagando impostos em cascata que encarecem a produção, a logística e a contratação. Diante desse cenário, a matemática das empresas é fria: se o custo real de produção de uma barra de chocolate de 200 gramas com alto teor de cacau fosse repassado integralmente ao preço final, o produto encalharia nas prateleiras. O consumidor brasileiro, com sua renda achatada, simplesmente não conseguiria comprar. A saída do fabricante para manter a marca acessível é diminuir a gramatura e baratear a fórmula.
A comparação com a década de 1990 é reveladora. Após a estabilização da moeda com o Plano Real e a abertura do mercado, o Brasil viveu um choque de qualidade. Com a inflação sob controle, o consumidor tinha poder de compra real, e a indústria precisou melhorar seus produtos e oferecer embalagens maiores para enfrentar a concorrência estrangeira. Hoje, andamos para trás. O engessamento da nossa economia, protegido por barreiras tarifárias, sufoca a inovação e limita a oferta.
A situação ganha contornos de hipocrisia quando analisamos a postura regulatória do governo. Como alertei no artigo "O preço abusivo de deixar o Estado decidir o que você come", o Estado atua como um sabotador da alimentação do cidadão e, em seguida, posa de salvador.
O mesmo governo que cria as condições inflacionárias e tributárias para que a indústria seja forçada a produzir alimentos ultraprocessados e com substitutos baratos, agora debate a criação de um Imposto Seletivo sobre esses mesmos produtos, sob o pretexto de defender a saúde pública. É a dupla penalização do mais pobre: primeiro, o Estado tira o seu poder de comprar o alimento de qualidade; depois, cobra um imposto punitivo sobre o produto mais barato que restou para o seu consumo.
A solução real para a queda na qualidade dos alimentos exige maturidade econômica, e as evidências internacionais estão aí para provar. Países com alta liberdade econômica, impostos racionais e inflação sob controle — como Nova Zelândia e Suíça — entregam produtos de excelência a preços competitivos porque a concorrência exige isso.
Se quisermos voltar a consumir chocolates de qualidade em porções justas, precisamos desburocratizar o setor produtivo, reduzir a carga tributária que asfixia a cadeia de alimentos e promover uma abertura comercial que force a competitividade. A conta da qualidade ruim que chega ao consumidor hoje não é obra do mercado; é o custo repassado da incompetência e do excesso de Estado.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas