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Política municipal
14/4/2026 14:25
Eu entrei na política acreditando que dava para mudar muita coisa a partir de uma câmara municipal. Fui vereador de Manaus entre 2021 e 2023. O mais jovem na história da capital amazonense. Hoje sou deputado federal. Essa trajetória me deu uma convicção que não nasceu de teoria, mas de experiência direta: boa parte dos legislativos municipais do Brasil parou de servir ao cidadão e passou a funcionar dentro de uma lógica de acomodação, corporativismo e dependência do Executivo.
Foi na Câmara Municipal de Manaus que eu vi isso de perto. Eu cheguei lá com uma ideia até bem inocente de que o vereador era uma peça central de transformação da cidade – me enganei. Na prática, encontrei muitas vezes um ambiente de baixa produtividade, pouca independência e muita conivência com os desmandos do prefeito. E vi que é assim no Brasil inteiro. O problema não é a existência do Legislativo municipal em si. O problema é quando ele custa caro, entrega pouco e falha justamente na missão mais básica que deveria cumprir: fiscalizar quem administra a cidade.
Os dados oficiais sobre a atual legislatura em Manaus escancaram esse problema. Nos últimos 4 a 6 anos, nenhum requerimento de convocação de David Almeida e de Renato Júnior para prestar esclarecimentos foi aprovado. Nenhum. Prefeito e vice-prefeitos blindados por quem deveria ser fiscal. Isso aconteceu mesmo diante de uma sequência de escândalos nacionais, investigações, operações policiais, suspeitas sobre contratos, questionamentos sobre gastos públicos e empréstimos bilionários sem entregar todo o prometido. Quando uma Câmara rejeita em bloco todos os pedidos de convocação do alto escalão da Prefeitura, ela deixa de fiscalizar e passa a blindar.
E não se trata de exagero retórico. O mesmo levantamento mostra uma gestão cercada por controvérsias públicas graves: do caso do fura-fila das vacinas na pandemia às operações Entulho, Dente de Marfim e Erga Omnes, todas elas envolvendo crimes como associação criminosa, lavagem de dinheiro e até fatos graves como o envolvimento com o tráfico de drogas, passando por dúvidas sobre contratos emergenciais, festivais com grandes artistas sem a divulgação de valores, relações familiares e societárias com empresas ligadas ao poder público e um volume expressivo de endividamento: foram cerca de R$ 1,710 bilhão em empréstimos contraídos na gestão David Almeida, além de autorizações para operações de crédito de até R$ 2,6 bilhões só em 2025. Em resumo: para cobrar explicação, a Câmara trava. Para autorizar dívida, anda.
Foi desse choque com a realidade que saiu a fala que tanta gente resolveu atacar. Quando eu disse que "vereador e merda são a mesma coisa", eu estava verbalizando uma frustração profunda com esse modelo de política local que, em muitos lugares, virou extensão do gabinete do prefeito. Uma reflexão sobre como pensava ao sair do ensino médio. A frase foi dura. Eu sei disso. Mas ela surgiu num contexto de desesperança com um sistema em que muitos parlamentares parecem mais preocupados com benefício próprio, estrutura, conveniência e silêncio do que com o interesse da população. Eu não estava atacando a ideia de representação popular, mas a (falta de) atitude dos representantes. Eu estava denunciando a falência prática de uma parte dela.
É exatamente desse diagnóstico que nasce a PEC das Câmaras. Não de uma frase polêmica, mas de uma experiência real com um modelo caro, pouco produtivo e muitas vezes conivente com o Executivo.
A proposta que estou defendendo pretende reformar os legislativos municipais nas cidades com até 30 mil habitantes. A ideia é substituir o modelo atual de vereadores com salário fixo mensal por um formato de conselheiros eleitos, com função legislativa e fiscalizatória, mas com ajuda de custo por sessão, recebendo pelo justo: o trabalho realizado. Sem a estrutura permanente e cara que hoje pesa sobre o contribuinte, esperamos que mais dinheiro poderia sobrar para segurança, saúde ou educação. Veja bem: eu não proponho o fim da representação local, mas sim o fim de um arranjo que, em milhares de cidades, virou custo alto para resultado baixo. Uma grande farra com dinheiro público.
O tamanho do problema é enorme. O Brasil tem hoje 5.571 municípios, segundo as estimativas populacionais de 2025 do IBGE. Ao contar, nessa base oficial, quantos têm menos de 30 mil habitantes, o total chega a 4.384 municípios. Isso representa cerca de 78,7% do país. Ou seja: estamos falando de quase oito em cada dez cidades brasileiras vivendo sob um modelo de câmara que precisa ser revisto com coragem e seriedade.
E não é só nas cidades pequenas que os vereadores não trabalham bem. Em cidades maiores, os poucos que de fato tentam fiscalizar e cobrar enfrentam perseguição até dentro das próprias Câmaras Municipais. E isso tem que acabar. O direito à oposição não pode ser só ficção – ou será que já vivemos na ditadura das maiorias?
As minorias que roubam o Brasil – políticos eleitos que não representam de verdade – tentam caricaturar essa proposta. Finge não ver o óbvio. Há câmaras municipais que funcionam bem e cumprem seu papel. Mas há muitas outras que se transformaram em peças de manutenção do poder local. Em vez de controlar o Executivo, o acompanham. Em vez de defender o cidadão, negociam conforto institucional. Em vez de produzir solução, produzem custo. E quando isso vira rotina, o sistema precisa ser confrontado.
Eu passei por uma câmara municipal. Eu vi por dentro como a lógica funciona. Vi como o vereador que quer fiscalizar de verdade enfrenta resistência. Vi como a maioria política, quando quer, esvazia instrumento de controle. Vi como a estrutura pública pode ser colocada a serviço da conveniência e não da população. A PEC das Câmaras nasce dessa vivência. Ela nasce da recusa em tratar como normal um modelo que custa caro, entrega pouco e frequentemente não exerce o papel para o qual foi criado.
O Brasil não precisa de mais estrutura para fingir representação. Precisa de representação que funcione. Precisa de legislativos locais mais leves, mais independentes e mais comprometidos com o interesse público. Foi isso que eu aprendi em Manaus. Eu entrei na política querendo mudar o mundo. Hoje, continuo querendo. A diferença é que agora eu sei exatamente quais as engrenagens que precisam ser mexidas para isso começar a acontecer.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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