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Indústria

Semicondutores e o dilema brasileiro

Após fracassos industriais, estratégia mira segmentos específicos e reduz aposta em produção em larga escala.

Mariana Fraga

Mariana Fraga

14/4/2026 17:00

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O debate sobre semicondutores no Brasil costuma ser atravessado por uma miragem recorrente. A abundância de recursos naturais, como quartzo e terras raras, e o tamanho do mercado interno alimentaram, ao longo das últimas décadas, a crença de que o país estaria destinado a ocupar posição de destaque na fabricação de chips. Essa percepção, no entanto, colide com a realidade da microeletrônica contemporânea, marcada por cadeias globais altamente concentradas, intensivas em capital, tecnologia e coordenação geopolítica. Entre planos grandiosos, a ausência de políticas de Estado e resultados concretos, o país acumulou frustrações.

Os sinais desse descompasso são claros. O caso da fábrica de semicondutores da Unitec tornou-se emblemático. O projeto, concebido para a fabricação de chips em escala industrial no front-end, mobilizou investimentos bilionários, mas jamais entrou em operação comercial, deixando como herança equipamentos de alto valor tecnológico destinados a leilões judiciais. A experiência ilustra os riscos de iniciativas isoladas em um setor que exige escala, previsibilidade e inserção consistente em cadeias globais.

A trajetória da Ceitec, estatal federal sediada em Porto Alegre, seguiu caminho distinto, mas igualmente revelador. Concebida como parte do esforço de construção de capacidades nacionais em microeletrônica, a empresa acabou associada a expectativas que extrapolavam seu papel original. Após enfrentar um processo de liquidação interrompido, a Ceitec busca hoje se reorganizar sob novas premissas, mais compatíveis com as restrições técnicas e econômicas do setor.

O problema central não é a inexistência de base técnica. O Brasil dispõe de tradição acadêmica relevante, programas de formação de projetistas de circuitos integrados e atuação consolidada no back-end, em atividades como encapsulamento e testes. A fragilidade está na estratégia de inserção produtiva. Insistir em disputar elos da cadeia onde a competição global é mais intensa tende a ampliar vulnerabilidades, em vez de reduzi-las.

Histórico de projetos frustrados leva país a priorizar inserção mais realista nas cadeias globais.

Histórico de projetos frustrados leva país a priorizar inserção mais realista nas cadeias globais.Freepik

A crise global de semicondutores evidenciou esse risco de forma concreta. A paralisação de linhas de montagem da indústria automotiva brasileira, causada pela escassez de componentes relativamente simples, revelou o custo econômico da dependência de cadeias logísticas longas e pouco diversificadas. Não se trata apenas de competitividade, mas de resiliência industrial. Sem uma estratégia pragmática, o país permanece exposto a choques externos sobre os quais tem pouco controle.

Nesse contexto, a reorientação estratégica da Ceitec para dispositivos de potência em carbeto de silício (SiC) aponta uma inflexão relevante. Em vez de perseguir chips de silício em larga escala, segmento dominado por grandes fabricantes asiáticos, o foco passa a ser uma tecnologia crítica para a transição energética. Dispositivos em SiC são essenciais para veículos elétricos e híbridos, sistemas de energia renovável e infraestrutura de carregamento, áreas nas quais o Brasil já dispõe de parque industrial significativo e potencial de integração produtiva.

Essa estratégia dialoga com a lógica do friendshoring. Em um cenário de crescente fragmentação geopolítica, cadeias globais buscam fornecedores confiáveis, com estabilidade institucional e menor pegada de carbono. A matriz elétrica majoritariamente limpa do Brasil pode se tornar um diferencial competitivo relevante, desde que acompanhada de políticas industriais consistentes e previsíveis.

O desafio, portanto, não é retomar discursos de protagonismo baseados apenas no potencial, mas fazer escolhas econômicas racionais. Fortalecer instrumentos como o Padis, ampliar o ecossistema de design houses e criar mecanismos eficazes de articulação entre universidade e indústria são iniciativas mais relevantes do que anunciar projetos de grande visibilidade e baixa sustentabilidade econômica. O Brasil não precisa disputar a liderança mundial na fabricação de chips. Precisa reduzir vulnerabilidades críticas da sua base industrial.

Converter capital intelectual, capacidade produtiva existente e ativos energéticos em uma inserção modesta, porém sólida, na cadeia global de semicondutores é um objetivo mais realista. Menos retórica, mais integração produtiva.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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