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Relações internacionais
23/4/2026 10:48
Em abril de 2026, enquanto diplomatas negociavam pausas táticas em conflitos que já custaram milhares de vidas no Irã, em Gaza e na Ucrânia, uma rede diferente de líderes tomou posição pública. A Mayors for Peace, organização que reúne aproximadamente 8.600 cidades em 166 países, emitiu uma declaração exigindo cessar-fogo imediato em todos os conflitos armados em curso e convocando governos a resolverem suas disputas exclusivamente pela via diplomática. Não eram chanceleres nem chefes de Estado. Eram prefeitos. E essa diferença importa mais do que parece.
O documento, direto e sem meias palavras, afirmava que o uso da força contra civis é totalmente inaceitável e que negligenciar o Estado de Direito e a Carta da ONU conduz inevitavelmente a mais conflitos. Em um mundo no qual o Conselho de Segurança permanece paralisado por vetos e disputas de poder, essa voz coletiva — vinda dos territórios onde as guerras chegam na forma de refugiados, inflação e luto — representa uma contribuição concreta para renovar o multilateralismo a partir de baixo, aproximando-o das populações que mais sofrem os efeitos dos conflitos.
A Mayors for Peace foi fundada em 1982 pelas cidades de Hiroshima e Nagasaki, símbolos mundiais da devastação causada pelas armas atômicas. A rede nasceu da experiência singular de duas cidades que sobreviveram ao pior que a guerra pode produzir e decidiram transformar essa memória em mandato político. Hoje reúne aproximadamente 8.600 municípios em 166 países, mobiliza governos locais em torno do desarmamento nuclear, da educação para a paz e da pressão sobre organismos internacionais, e possui status consultivo no Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC) desde 1991. O Brasil integra essa rede com 105 cidades filiadas, entre elas São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador — o que torna o debate sobre paradiplomacia e paz não apenas uma questão de política externa, mas uma agenda a ser contemplada no espaço político brasileiro.
Esse protagonismo crescente das cidades no debate internacional tem nome e conceito próprio nas relações internacionais: paradiplomacia. Trata-se da atuação de governos subnacionais - como cidades, Estados e províncias - na esfera internacional, com o objetivo de promover interesses econômicos, culturais, ambientais e, cada vez mais, contribuir para a estabilidade e o entendimento global. A paradiplomacia resulta de dois processos simultâneos, a descentralização da política e o reconhecimento de que os grandes desafios do nosso tempo, como migrações forçadas, mudanças climáticas, violência urbana e crises humanitárias, não esperam que Estados nacionais cheguem a um consenso. É no nível local que suas consequências mais imediatas se fazem sentir, e é lá que respostas concretas precisam ser construídas.
Diferente da diplomacia tradicional, que opera sob a lógica da soberania e do equilíbrio de poder entre Estados, a paradiplomacia age no plano das pessoas e das comunidades. Ao estabelecer vínculos diretos com contrapartes estrangeiras, integrar redes de cooperação internacional e promover intercâmbios culturais, as cidades passam a desempenhar funções diplomáticas orientadas por valores de solidariedade, confiança mútua e construção de paz. Essa paz deixa de ser um ideal abstrato negociado entre potências e se converte em processo social e político permanente, construído nas práticas cotidianas de cooperação entre territórios, principalmente através das relações entre cidades-irmãs.
Essa prática tem raízes históricas que ajudam a compreender sua legitimidade atual. O fenômeno das cidades-irmãs (sister-cities) também conhecido como geminação de cidades ou twinning, surgiu no pós-Segunda Guerra Mundial como uma prática de cooperação municipal transnacional voltada à reconstrução de vínculos sociais e culturais entre povos que haviam estado em lados opostos de um conflito devastador. Governos locais e associações civis passaram a atuar como mediadores da reconciliação, promovendo intercâmbios culturais e parcerias educativas onde a diplomacia estatal ainda carregava as marcas da desconfiança.
A parceria entre Coventry, no Reino Unido, e Kiel, na Alemanha, firmada em 1947, é um exemplo emblemático desse impulso: duas cidades destruídas pela guerra comprometeram-se a trocar estudantes, reconstruir espaços públicos e cultivar relações humanas que superassem a lógica da vingança. Ao favorecer o contato direto entre populações anteriormente inimigas, as cidades-irmãs projetaram uma visão de paz que ia além da simples ausência de guerra e se aproximava do que a teoria das relações internacionais chama de paz positiva, fundada na cooperação, na confiança e no fortalecimento de redes sociais transnacionais.
A crise do multilateralismo clássico torna esse protagonismo ainda mais relevante. A dificuldade dos organismos internacionais de garantir cessar-fogo duradouros, mediar conflitos e proteger civis revela fragilidades estruturais que não são conjunturais, são sistêmicas. Interesses estratégicos frequentemente se sobrepõem à proteção de populações. Práticas unilaterais de uso da força comprometem os fundamentos do direito internacional. E o resultado é um mundo com 120 conflitos armados ativos, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cujos impactos chegam à porta de qualquer cidade do planeta na forma de inflação, deslocamentos humanos e ruptura de cadeias de suprimentos.
É nesse vácuo que as cidades avançam. E o fazem por três razões estruturais. Primeiro, porque os impactos concretos das crises globais — conflitos, desastres ambientais, fluxos migratórios — se materializam no nível local, exigindo resposta direta dos governos municipais. Segundo, porque as cidades tornaram-se centros de inovação institucional, articulando redes transnacionais capazes de compartilhar conhecimentos, mobilizar recursos e desenvolver soluções cooperativas. Terceiro, porque a proximidade com a população confere aos governos locais uma legitimidade social que instituições multilaterais e governos centrais frequentemente não conseguem mobilizar e que, em tempos de descrença institucional, se torna um ativo político inestimável.
A paradiplomacia não se apresenta como substituta do multilateralismo estatal, mas como seu complemento necessário. Ela preenche lacunas que os Estados deixam abertas e propõe modos alternativos de interação baseados em responsabilidade compartilhada e ética pública. Num cenário de crescente polarização geopolítica, a cooperação promovida por cidades revela que iniciativas transnacionais podem avançar mesmo quando negociações interestatais estão estagnadas. A diplomacia das cidades constitui uma nova fronteira das relações internacionais que é caracterizada por flexibilidade, pragmatismo e inovação institucional.
Esse novo espaço das relações internacionais com protagonismo das cidades deve ser debatido pelas instituições políticas nacionais, pois a política externa brasileira ainda trata a paradiplomacia como tema periférico, quando deveria reconhecê-la como estratégica. Municípios brasileiros participam de redes internacionais, acolhem refugiados, cooperam com cidades da América do Sul e de outros continentes, e constroem, muitas vezes sem marco legal adequado, uma diplomacia local que o país deveria institucionalizar. Regulamentar, financiar e ampliar a participação de governos subnacionais na política externa não é enfraquecimento da soberania, é seu exercício mais democrático e mais eficaz.
A declaração da Mayors for Peace em abril de 2026 não é um gesto simbólico isolado. É a expressão mais recente de uma prática diplomática consolidada ao longo de décadas, que demonstra, com evidências concretas, que a construção da paz deixou de ser monopólio dos Estados. Em um mundo com tantos conflitos armados ativos e instituições multilaterais sob crescente pressão, ignorar o papel das cidades seria desperdiçar uma das poucas forças institucionais ainda capazes de transformar cooperação em prática cotidiana e solidariedade em política pública.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].