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Memória
13/5/2026 16:00
O 8 de maio deveria ocupar um espaço muito mais relevante na memória nacional. Foi nessa data, em 1945, que a Segunda Guerra Mundial chegou oficialmente ao fim na Europa, marcando a derrota do nazifascismo e a vitória das nações aliadas. Entre elas, estava o Brasil.
Mais de 25 mil brasileiros atravessaram o Atlântico para lutar em um conflito que não era apenas europeu, mas civilizacional. Homens da Força Expedicionária Brasileira combateram em solo italiano enfrentando frio, fome, bombardeios e a morte em nome de valores que hoje parecem banalizados no debate público. Lutaram pela liberdade, pela democracia e contra um regime totalitário responsável por uma das maiores tragédias da história da humanidade.
Ainda assim, o Brasil parece incapaz de dar ao 8 de maio a dimensão histórica que a data merece.
Acabamos de passar por mais um 8 de maio e muito pouco, ou quase nada, foi feito para enaltecer esse marco histórico. Estive no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, durante as homenagens realizadas nesta data. Foi uma cerimônia bonita, respeitosa e carregada de simbolismo. Mas não pode ser apenas as Forças Armadas a manterem viva essa memória. O reconhecimento da importância do 8 de maio deveria mobilizar toda a sociedade brasileira.
Enquanto outras nações transformam suas vitórias militares e seus veteranos em símbolos permanentes de identidade nacional, aqui a lembrança dos nossos pracinhas frequentemente se limita a cerimônias discretas, círculos militares ou homenagens pontuais. Pouco se fala sobre os brasileiros que tombaram em Barga, Monte Castello, Montese e Fornovo di Taro, entre tantos outros combates que marcaram a atuação da Força Expedicionária Brasileira na campanha da Itália. Pouco se ensina nas escolas sobre o papel desempenhado pelo Brasil naquele conflito. Pouco se cultiva o sentimento de gratidão por aqueles que colocaram a própria vida em risco para defender valores universais.
Hoje, restam apenas 21 pracinhas vivos. Vinte e um homens que testemunharam um dos capítulos mais dramáticos da história mundial e que ajudaram, com coragem e sacrifício, a derrotar o nazifascismo. O tempo está passando, e com ele desaparecem não apenas esses combatentes, mas também a memória viva de tudo o que enfrentaram em nome da liberdade.
É impossível compreender plenamente a democracia sem reconhecer aqueles que lutaram para preservá-la.
Existe uma contradição evidente em parte da sociedade brasileira. Muitos defendem democracia e liberdade em discursos, mas ignoram justamente aqueles que combateram, literalmente, para impedir o avanço de regimes autoritários. O resultado disso é uma memória nacional fragmentada, incapaz de valorizar seus próprios heróis.
O esquecimento do 8 de maio também revela algo mais profundo. O Brasil, historicamente, possui dificuldade em cultivar símbolos nacionais duradouros. Nossos feitos militares raramente são incorporados à identidade popular. Diferentemente do que ocorre em países como Estados Unidos, Reino Unido ou França, onde veteranos são constantemente reverenciados e datas históricas mobilizam a sociedade, o Brasil parece tratar sua própria história com distanciamento.
Isso precisa mudar.
Valorizar o 8 de maio não significa exaltar a guerra. Significa honrar aqueles que lutaram quando a liberdade estava ameaçada. Significa reconhecer que a democracia não é gratuita, automática ou eterna. Ela exige coragem, sacrifício e disposição para defendê-la quando necessário.
Os pracinhas brasileiros não partiram para a guerra em busca de glória pessoal. Muitos sequer voltaram para casa. Outros retornaram marcados para sempre pelos horrores do conflito. O mínimo que uma nação séria deveria fazer é preservar suas memórias e transmitir às novas gerações a importância histórica de seus feitos.
Países que esquecem seus heróis acabam perdendo também parte de sua identidade. E um povo sem memória dificilmente compreende o valor da própria liberdade.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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