Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Política
1/6/2026 16:00
Êxodo. Do grego éksodos, a palavra significa "saída" ou "partida". No meu caso, e no de tantos outros jovens caxienses, ela carrega o peso de uma expulsão silenciosa. Nascido em Caxias, cresci fascinado pelas histórias de poetas, artistas e revolucionários que, por audácia da história, como nos tempos altivos da Balaiada, moldaram a identidade da nossa "Princesa do Sertão". No entanto, quando as circunstâncias me empurraram para fora de minha terra natal, não o fizeram por falta de amor ao meu berço, que tanto devo, mas pelo diagnóstico permanente de uma asfixia institucional crônica.
Ao vislumbrar realidades de outros municípios, por vezes menores, a contradição é dolorosa: enquanto o país vive uma República, a nossa terra, historicamente reconhecida como berço de intelectuais, agoniza sob um severo "êxodo de cérebros". Em Caxias, a genialidade esbarra em um muro invisível, construído e mantido por heranças oligárquicas. O poder não é disputado por meio de projetos de desenvolvimento estrutural; é outorgado como um presente hereditário.
Sob essa premissa de transição quase genética do poder político, torna-se inconcebível que, desde o marco da redemocratização em 1988, o destino de toda uma população tenha sido ditado majoritariamente por um restrito circuito de três sobrenomes. Esse fenômeno foi cirurgicamente dissecado pelo jurista e sociólogo Raymundo Faoro em sua obra clássica Os Donos do Poder, sob o rótulo de patrimonialismo, onde a chaga nacional pode encontrar em Caxias sua exposição mais nítida, no exato momento em que se confunde, com naturalidade displicente, a chave do cofre público com o patrimônio da família da vez.
A transferência da gestão municipal por gerações dentro das mesmas árvores genealógicas pode parecer uma dádiva para os herdeiros do trono, mas para nós, filhos de Caxias, da terra e do povo, opera como um fardo histórico. A hereditariedade política na cidade tem como principal sintoma a manutenção da escassez. Para perpetuar esse ecossistema, não basta apenas enjaular mentes brilhantes em contratos temporários que, além de regular uma relação de trabalho, condicionam o comportamento institucional e impõem a submissão política em troca do mínimo para a sobrevivência. O retrocesso econômico de Caxias não é fruto de incompetência administrativa; é projeto. A ausência de indústrias e o consequente sequestro da autonomia financeira funcionam como estratégia de controle social, pois, para que uma oligarquia paroquial sobreviva, é indispensável que o mercado privado seja fraco e que o desenvolvimento autônomo seja um mito distante.
Caxias padece de um republicanismo de fachada. O reflexo mais doloroso desse cenário está na elite intelectual que permaneceu: amigos de infância, irmãs, profissionais brilhantes, fisioterapeutas, dentistas, engenheiros, médicos, professores etc, que, diante da necessidade de sobrevivência e do convívio familiar, encontram-se trancados na "gaiola de ouro" dos contratos de gaveta oferecidos pelo governante de plantão. As opções oferecidas pelo sistema são cruéis: ou se curvam ao cabresto da prefeitura, silenciando suas críticas para garantir o sustento, ou, assim como eu fiz, escolhem o exílio em outros Estados. Cria-se uma massa de profissionais qualificados que assistem ao desmonte da cidade em silêncio obsequioso, cientes de que a menor dissidência resultará em demissão ou isolamento profissional, na outra ponta da engrenagem, a base da pirâmide social é mantida sob as amarras do analfabetismo político. Como bem descreveu Victor Nunes Leal em Coronelismo, Enxada e Voto, o coronelismo moderno abdicou do chicote físico para se alimentar da vulnerabilidade psicológica. Em Caxias, direitos constitucionais básicos como mobilidade urbana, transporte público, saúde e lazer, são ressignificados e entregues à população como se fossem favores pessoais ou benesses da família reinante. Substituiu-se a coerção física pela dependência econômica e psicológica de um povo mantido deliberadamente sem instrução política há décadas.
As urnas que se aproximam trazem consigo o tradicional espetáculo dos absurdos eleitoreiros, algo que presenciei de perto, tanto na condição de eleitor quanto na atuação técnica como advogado em pleitos passados. É o momento em que a velha política de cabresto perde o pudor e opera sem filtros. No entanto, os arquitetos do atraso esqueceram uma lei básica da história: o conhecimento adquirido em liberdade sempre encontra o caminho de volta para casa.
O êxodo dos filhos desta terra não foi uma rendição. Caxias não precisa de mais herdeiros tutelados por privilégios de berço; a cidade anseia por mentes preparadas na escola do mérito real, capazes de governar com independência técnica e sem faturas políticas para pagar. O futuro da nossa terra não será desenhado nos gabinetes domésticos que hoje se revezam no poder, mas sim pela audácia de uma nova geração que ousou aprender, que se blindou do clientelismo e que agora retorna de outros estados ou do calabouço em que as colocaram, pronta para romper de uma vez por todas, o cordão umbilical do atraso.
O passado acaba nas urnas e o futuro merecido pelo povo Caxiense clama e queima à espera de que a genialidade da juventude aprisionada se levante e tome o que é nosso.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas