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Democracia
1/6/2026 17:00
A vida pública depende de algum grau de reconhecimento comum da realidade. Em uma democracia, divergências políticas, conflitos de interesse e disputas ideológicas fazem parte do funcionamento normal da sociedade. O desacordo sobre prioridades, modelos econômicos, políticas sociais ou formas de organização do Estado é próprio da política democrática. O problema se torna mais grave quando a disputa deixa de ocorrer em torno de interpretações diferentes da realidade e passa a se organizar pela negação sistemática de evidências e pela fabricação de suspeitas contra instituições públicas, científicas e jornalísticas.
Nas últimas décadas, a desinformação deixou de ser apenas a circulação dispersa de boatos, erros ou versões equivocadas da realidade. Ela passou a integrar estratégias políticas mais amplas, especialmente no repertório de correntes autoritárias, grupos de extrema direita e movimentos nacionalistas radicais que cresceram em diferentes países. Seu objetivo não é apenas convencer parte da população de uma mentira específica, mas produzir desconfiança generalizada em relação às instituições, à ciência, ao jornalismo profissional, às universidades, aos órgãos públicos e aos mecanismos de controle democrático.
Essa estratégia funciona porque a dúvida permanente enfraquece a capacidade coletiva de reconhecer problemas comuns. Quando qualquer informação pode ser apresentada como manipulação, quando decisões judiciais são tratadas como perseguição, quando dados científicos são reduzidos a opinião ideológica e quando reportagens fundamentadas são desqualificadas como propaganda, a sociedade perde as referências mínimas para o debate público. A política deixa de se organizar em torno da escolha entre caminhos distintos e passa a ser atravessada por suspeitas fabricadas, hostilidade e ressentimento.
Esse processo produz efeitos diretos sobre a vida social e sobre o funcionamento das instituições públicas. Instituições representativas, imprensa, universidades, órgãos técnicos e sistemas de justiça dependem de algum grau de confiança pública para cumprir suas funções. Isso não significa imunidade à crítica. Pelo contrário, instituições democráticas devem ser fiscalizadas, questionadas e corrigidas. A diferença está entre a crítica pública, que exige argumentos, evidências e possibilidade de verificação, e o uso deliberado de informações falsas para deslegitimar instituições, produzir acusações sem prova e criar inimigos permanentes.
A extrema direita internacional compreendeu bem esse mecanismo. Em diferentes contextos nacionais, suas lideranças e redes de apoio têm utilizado narrativas falsas para atacar eleições, deslegitimar adversários, criminalizar migrantes, negar ou relativizar problemas ambientais, estimular desconfiança contra vacinas e apresentar políticas de proteção social como ameaça à liberdade individual ou aos valores nacionais. A mentira, nesse contexto, não aparece como acidente de comunicação. Ela se torna método político.
Esse método produz efeitos porque oferece explicações simples para crises complexas. Em vez de discutir desigualdade, precarização do trabalho, concentração econômica, fragilidade dos serviços públicos, insegurança urbana, crise ambiental ou transformações tecnológicas, as narrativas falsas apontam culpados fáceis. Migrantes, professores, cientistas, servidores públicos, ambientalistas, movimentos sociais, populações pobres e minorias tornam-se alvos convenientes. A realidade social é substituída por uma sucessão de ameaças fabricadas, nas quais o medo passa a organizar a percepção política.
As consequências dessa corrosão tornam-se particularmente visíveis quando se observam as políticas de saúde pública. Campanhas de vacinação, orientações sanitárias, medidas de prevenção e sistemas públicos de vigilância dependem da confiança social em instituições científicas e profissionais de saúde. Quando informações falsas circulam de forma massiva, decisões individuais passam a produzir consequências coletivas. A recusa vacinal, a busca por tratamentos sem base científica, a hostilidade contra equipes de saúde e a desconfiança diante de alertas epidemiológicos deixam de ser apenas escolhas privadas. Tornam-se fatores de risco para toda a sociedade.
Um episódio recente no Brasil ilustra essa irresponsabilidade. Depois que a Anvisa suspendeu lotes de produtos de limpeza da marca Ypê por falhas graves de produção, controle de qualidade e risco de contaminação microbiológica, setores da extrema direita nas redes sociais trataram a decisão técnica como perseguição política ou exagero burocrático. Vídeos com pessoas consumindo detergente ou ridicularizando a medida circularam como tentativa de deslegitimar a agência reguladora. A mentira organizada transformou uma decisão de proteção sanitária em espetáculo político contra uma instituição científica nacional.
A agenda ambiental também tem sido afetada por esse repertório de manipulação. Em alguns casos, a desinformação nega diretamente a ciência climática. Em outros, atua de maneira mais sofisticada, questionando a urgência das medidas, exagerando custos da transição, desqualificando energias renováveis, minimizando eventos extremos, relativizando a destruição ambiental ou apresentando políticas de proteção como entraves ao crescimento. Ao fazer isso, impede que a sociedade compreenda a escala dos riscos e adia decisões que deveriam ser tomadas antes das tragédias.
O adiamento de respostas ambientais e climáticas possui uma dimensão social concreta. Eventos climáticos extremos não atingem todos da mesma forma. Populações que vivem em encostas, áreas de risco, moradias precárias, regiões sem saneamento, bairros com pouca arborização e territórios submetidos à degradação ambiental são as primeiras a sofrer. Quando a desinformação bloqueia políticas de prevenção, ela não produz apenas confusão no debate público. Ela ajuda a manter vulnerabilidades conhecidas e transfere o custo das crises aos grupos que têm menos recursos para se proteger.
No campo dos direitos sociais, esse mesmo processo transforma políticas públicas voltadas à redução de desigualdades em objeto permanente de suspeita. Políticas de assistência, ações afirmativas, proteção trabalhista, direitos de migrantes, programas habitacionais e medidas de combate à pobreza são frequentemente apresentadas como privilégios indevidos, ameaça à ordem social ou desperdício de recursos públicos. A linguagem dos direitos é substituída pela linguagem da suspeita. O cidadão vulnerável deixa de aparecer como sujeito de proteção pública e passa a ser tratado como beneficiário ilegítimo, invasor, aproveitador ou risco moral. A consequência política é a naturalização da exclusão.
A força da desinformação está ligada ao ambiente digital, mas não pode ser reduzida à tecnologia. Plataformas, algoritmos, inteligência artificial e redes sociais ampliam velocidade, alcance e segmentação das mensagens falsas. Contudo, a desinformação só se torna politicamente eficaz porque encontra sociedades marcadas por desigualdades, inseguranças e baixa confiança nas instituições. Onde o Estado falha, onde serviços públicos são frágeis e onde parte da população se sente abandonada, discursos conspiratórios encontram terreno fértil. A mentira prospera quando a experiência cotidiana já parece confirmar que ninguém está cuidando do interesse público.
Por essa razão, enfrentar a desinformação não pode significar apenas remover conteúdos falsos ou corrigir boatos depois que se espalham. A checagem de fatos é necessária, mas insuficiente. A resposta precisa envolver educação midiática, transparência das plataformas, fortalecimento do jornalismo profissional, proteção da pesquisa científica, responsabilização de redes organizadas de manipulação e reconstrução da confiança nas instituições públicas. O objetivo não deve ser controlar opiniões, mas impedir que a mentira organizada destrua as condições básicas do debate democrático.
A dificuldade desse enfrentamento está no fato de que a desinformação se alimenta também das falhas das próprias instituições. Governos opacos, autoridades que se comunicam mal, políticas públicas mal explicadas, linguagem tecnocrática e baixa presença territorial aumentam a distância entre Estado e sociedade. Quando o enfrentamento das informações falsas se limita a desmentidos técnicos, apresentados de forma distante da experiência concreta da população, o campo da mentira se fortalece. A credibilidade das instituições não se reconstrói apenas com comunicados oficiais ou notas de esclarecimento. Ela depende de escuta social, linguagem compreensível, coerência administrativa e capacidade de demonstrar, na prática, que políticas públicas produzem efeitos reais na vida das pessoas.
O combate à desinformação, portanto, deve ser entendido como defesa da vida pública. Saúde, clima, eleições, segurança pública, migração e direitos sociais não podem ser entregues à lógica do pânico, da manipulação e do ressentimento. A democracia não sobrevive apenas com urnas, leis e instituições formais. Ela precisa de confiança suficiente para que os cidadãos aceitem conviver com diferenças, reconhecer evidências e disputar caminhos sem destruir o chão comum sobre o qual a política se realiza.
Quando a confiança pública se dissolve, a vida institucional enfraquece não porque desapareçam imediatamente as eleições ou os mecanismos de representação, mas porque se perde a capacidade coletiva de distinguir conflito legítimo do uso político da mentira organizada. Uma sociedade plural pode suportar divergências profundas. O que ela não suporta por muito tempo é a transformação permanente da mentira em método político.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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